Lupi pediu demissão a LulaBruno Peres/Agência Brasil
Mesmo com a indicação do número dois de Lupi na pasta, o também pedetista Wolney Queiroz, esse grupo entende que PDT e PT poderiam seguir diferentes caminhos - isso porque Queiroz se opôs à candidatura de Ciro Gomes ao Palácio do Planalto em 2022
Essa ala do PDT diz que a nomeação é escolha estrita de Lula e, portanto, a legenda poderia adotar uma postura independente no Congresso. O líder do PDT na Câmara, Mário Heringer (MG), admite que isso pode ocorrer. Lupi é o presidente licenciado do partido - ele foi temporariamente afastado da função na sigla enquanto comandava o ministério.
Em conversas internas, essa ala cirista do PDT argumenta que o que prendia o partido a "votar 100%" com Lula era a participação de Lupi na Esplanada. Esse entendimento foi explicitado em conversas trocadas entre parlamentares pedetistas anteontem, dia da demissão de Lupi.
Peso
Agora, esse grupo avalia que a bancada pode seguir um rumo próprio. O PDT tem 17 deputados e três senadores, e foi importante em votações em que o governo saiu vencedor com placar apertado. Foi o caso da votação da urgência a um projeto de lei que restringe o acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC). O governo conseguiu apenas 267 dos 257 votos necessários, uma votação de resultado parelho. No PDT, 14 deputados participaram da votação e todos acompanharam a posição de Lula.
Para a ala que apoia Ciro Gomes, por mais que exista um alinhamento ideológico à gestão petista em alguns campos, a divergência econômica poderia fazer os dois grupos seguirem caminhos diferentes. Era o que poderia acontecer nesse projeto, em que deputados relatam ter votado a favor da proposta apesar de terem restrições a ela.
O sentimento é mais forte na Câmara. No fim de março, Heringer juntou alguns deputados em Brasília em um jantar com Ciro Gomes. Nesse encontro, houve um apelo dos parlamentares para que o ex-ministro, crítico de Lula, se candidatasse à Presidência da República em 2026.
Na última quinta-feira, o líder do PDT na Câmara criticou o tratamento dado pelo Planalto a Lupi, disse que ele causou "extremo constrangimento" ao partido e que a saída do então ministro implicaria na saída da sigla do governo.
Mas essa leitura não é um consenso dentro do PDT. Na reta final das eleições municipais de 2024, em que o PDT teve um resultado desastroso, um grupo de deputados pedetistas defendia a expulsão de Ciro Gomes do partido, sob o argumento de que as posições dele afetariam o desempenho da sigla no pleito de 2026.
Com a abertura da janela partidária, em 2026, a expectativa é de uma debandada de deputados especialmente do Ceará, em razão de uma briga de Ciro Gomes com o irmão, o senador Cid Gomes (CE), que migrou do PDT para o PSB.
Como mostrou a Coluna do Estadão, do lado do Planalto, a expectativa em torno de Wolney Queiroz é outra. Interlocutores de Lula dizem que, além de ter sido o número 2 de Lupi no Ministério da Previdência, Queiroz é "muito orgânico" na bancada da Câmara, o que facilita o diálogo com parlamentares do partido que ameaçam desembarcar da base.
A saída de Lupi é consequência do escândalo dos descontos indevidos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram, em 23 de abril, a Operação Sem Desconto, fruto de uma investigação que aponta para um esquema fraudulento de deduções indevidas em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.
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