Estacionamento de local conhecido como Pupileira, em Salvador, é possível antigo cemitério de milhares de escravizadosSilvana Olivieri/UFBA

Bahia - Uma pesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) identificou a existência de um cemitério, em Salvador (BA), onde teriam sido enterradas milhares de pessoas escravizadas no século XVIII. Por conta disso, uma grande escavação foi iniciada na última quarta-feira (14). A data marca o aniversário de 190 anos da "Revolta dos Malês", maior rebelião de escravizados da história do Brasil, ocorrida na capital baiana.
O trabalho acontece no estacionamento da Pupileira, da Santa Casa de Misericórdia da Bahia, no bairro Nazaré. A ação busca comprovar a pesquisa da doutoranda Silvana Olivieri, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA.
Estima-se que o local seria o primeiro cemitério público da cidade e que teria funcionado por cerca de 150 anos, com sepultamentos de pessoas historicamente marginalizadas, entre elas, milhares de escravizados, insurgentes e descendentes.
De acordo com a pesquisa de Olivieri, líderes de revoltas e insurreições negras, além de outros movimentos revolucionários, teriam tidos seus corpos sepultados no local.
Ações religiosas e posteriores
Os estudos arqueológicos voltados para a confirmação da descoberta seguirão ativos até 22 de maio. Nesta fase, também serão realizadas atividades de reparação simbólica conduzidas por diversas religiosidades negras do candomblé, em suas variantes étnicas, além de islâmicos e cristãos.
Um ato inter-religioso aconteceu no estacionamento da Pupileira, na quarta-feira.
As escavações são coordenadas pela arqueóloga e antropóloga Jeanne Dias. Após a finalização da etapa de prospecção arqueológica, a partir dos dados iniciais levantados, serão realizadas outras conversas para pensar o futuro desta descoberta, a continuidade das pesquisas e as medidas de natureza reparatória que deverão ser adotadas nas diversas esferas: patrimoniais, históricas e espirituais.
Número ultrapassaria quantidade de enterrados no Valongo
O Cemitério dos Escravizados do Valongo, também conhecido como Cemitério dos Pretos Novos, é, até o momento, o local onde se sabe que mais pessoas escravizadas foram enterradas. Ele fica localizado na faixa litorânea do Rio de Janeiro, próximo à região da Gamboa e funcionou entre 1772 a 1830.
Estima-se que lá foram sepultados entre 20 e 30 mil corpos. De acordo com o Instituto Pretos Novos, o local ficou conhecido por este nome porque ele é o destino das pessoas que morriam durante o trajeto do tráfico negreiro, que partia do litoral africano.
Também eram levados para o local, restos mortais de pessoas que morriam logo após o desembarque.