Haddad comentou sobre reformas em andamento e seus efeitos na desigualdadeReprodução / Youtube

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou em entrevista ao jornalista Luis Nassif, da TV GGN, que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, recebeu em 2022 um país em condições políticas muito distintas daquelas encontradas em seu primeiro mandato, em 2002.
"Em 2002, Lula recebeu um país institucionalmente estável, um Congresso manejável, em que era possível conformar maioria com relativa facilidade", disse Haddad.

Segundo o ministro, o cenário atual é marcado pela atuação de uma oposição que, em sua avaliação, não apresenta projeto de país.

"Hoje a oposição bolsonarista não tem projeto para o país. O projeto deles é o País não andar, o país não evoluir", afirmou o ministro da Fazenda.

Haddad destacou, porém, que não vê o Congresso Nacional como um obstáculo ao governo. "Não estou aqui criticando o Congresso Nacional como instituição. Tenho até agradecido, porque, bem ou mal, as pautas estão avançando", destacou.
Diminuir gasto tributário não é aumentar imposto, afirma Haddad
O ministro defendeu que o ajuste fiscal promovido pelo governo Lula tem se apoiado principalmente no combate às renúncias fiscais, e não na criação ou elevação de tributos. "Diminuir gasto tributário não é cobrar de quem não paga ou aumentar imposto. Não é nada disso. Simplesmente nos recusamos a manter a renúncia fiscal no patamar de 6% do PIB", disse Haddad.
Segundo o ministro, a estratégia foi fundamental para avançar na consolidação das contas públicas. "Em dois anos e meio, o ajuste fiscal foi feito em torno do combate às renúncias fiscais", afirmou.

Haddad ressaltou ainda o papel do Congresso Nacional na aprovação de medidas importantes, apesar das resistências. "Bem ou mal, as pautas estão avançando no Congresso. Houve aprovação da reforma tributária, que foi a maior já feita no Brasil", destacou.
Haddad alertou para ataques recentes ao Banco do Brasil
Haddad destacou que, apesar da redução nas taxas de juros cobradas de trabalhadores, os valores ainda estão muito elevados e precisam ser tratados com seriedade. "Quando o juro cai de R$ 7% para 3,5%, não há dúvida que há o que comemorar. Mas, anualizando, quanto trabalhador paga de juro? Compara com a inflação, compara com a Selic", disse, em entrevista à TV GGN.

O ministro alertou ainda para ataques recentes ao Banco do Brasil. "Tem acontecido ataque ao Banco do Brasil por parte de bolsonaristas, defendendo saques. Há projetos de lei no Congresso para perdoar dívidas do agro. Não podemos arredar pé das instituições, com ameaças em curso", afirmou, ao destacar que o ambiente político brasileiro atual é mais tóxico do que em períodos anteriores. "O fair play deu lugar para o vale-tudo e isso compromete muito a saúde da democracia brasileira."

Haddad também comentou sobre reformas em andamento e seus efeitos na desigualdade. "Há temas em que começamos a colocar o dedo na ferida e que se firmarão ao longo dos anos. A reforma da renda é um aperitivo de transformação sobre desigualdade. Reforma tributária e renúncia fiscal também se relacionam com combate à desigualdade", disse.

Além disso, o ministro falou sobre as oportunidades do Brasil na transformação ecológica e no desenvolvimento tecnológico. "Nós temos rigorosamente todas as vantagens competitivas. Temos o melhor vento, o melhor sol, a terceira maior reserva de terras raras e minerais críticos. É óbvio que isso vai exigir parceria, porque não temos toda a tecnologia disponível aqui, mas precisamos transformar isso em valor agregado, em emprego de qualidade, em tecnologia de ponta", afirmou.

Haddad acrescentou que o Brasil precisa avançar na criação de empresas nacionais de tecnologia, principalmente no processamento de dados, já que hoje 60% das informações brasileiras são processadas fora do País. "Imagina do ponto de vista de soberania, com as ameaças em curso, o que isso pode significar? Amanhã uma pessoa com viés autoritário pode querer prejudicar o Brasil", alertou.
"Justiça tributária é uma agenda prioritária do governo Lula", diz Haddad
Ministro afirmou que que a "justiça tributária é uma agenda prioritária do governo Lula" e que a redução da renúncia fiscal é uma medida de equidade. "Quando falamos que ajuste fiscal será pago por 'andar de cima', eles começam a criticar. O governo que quer reduzir renúncia fiscal não é amigo do capital, dos super-ricos".

Ele também destacou que "o conceito de propriedade produtiva precisa ser corrigido; a produtividade da agricultura subiu enormemente nos últimos anos" e mencionou que o Imposto Territorial Rural (ITR) no Brasil ainda está "muito abaixo do que seria adequado".

Haddad comentou ainda sobre o preço da energia elétrica no país. Segundo ele, "a energia produzida no Brasil, na margem, é uma das mais baratas do mundo. Mas ela não está chegando barata na casa do consumidor".

Ele criticou a forma como o sistema regulatório distribui o custo da energia renovável, exemplificando: "Culpa não é de datacenter, mas custo de energia precisa ficar mais barato. Eu diminuo o custo da energia para mim, mas estou usando uma rede que só outras pessoas estão usando. E o custo disso é distribuído por uma quantidade menor de consumidores. E aí o preço da energia sobe."

O ministro defendeu medidas como a redução da tarifa para consumidores residenciais de baixa renda, semelhantes às políticas já implementadas em impostos.