Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF)Reprodução / redes sociais / TV Justiça
Moraes citou, por exemplo, a utilização de órgãos públicos pela organização criminosa para o monitoramento de adversários políticos e para estruturação e execução da estratégia. Ele destacou "os primeiros atos executórios praticados para atentar contra o poder judiciário, principalmente contra a justiça eleitoral, desacreditando-a para deslegitimar o eventual resultado negativo nas eleições de 2022, desacreditando a própria democracia".
"Na sequência temos os atos executórios, já públicos, com graves ameaças à justiça eleitoral, que derivam de toda a preparação e utilização dos órgãos públicos", completou, apontando a "sequência dos atos executórios planejados pela organização criminosa com a tentativa, com emprego de grave ameaça de restringir o exercício do poder judiciário".
Moraes destacou ainda que os atos pós-eleição de 2022 mostram caráter golpista da organização criminosa, citando: "live realizada em 4 de novembro de 2022, ações e monitoramento das autoridades em 21 de novembro de 2022, representação eleitoral para a verificação extraordinária que foi feita para tentar jogar mais dúvidas ainda em relação às eleições, a reunião dos Forças Especiais em novembro de 2022, a elaboração da Carta ao Comandante, os atos violentíssimos no dia da diplomação do presidente e vice-presidente eleitos, tentativa de invasão na Polícia Federal, a tentativa de bomba Aeroporto de Brasília", entre outros.
Moraes apontou como o grupo, a partir de julho de 2021, passou a utilizar a chamada "Abin Paralela" para criar narrativa mentirosa sobre urnas. Segundo o magistrado, a organização criminosa usou ilicitamente a Abin para a "concepção do seu projeto de manutenção do poder sem a existência de freios e contrapesos por parte do poder judicial".
Nesse contexto, o ministro destacou a caderneta apreendida com o general Augusto Heleno com "várias anotações feitas pelo réu, consistentes em diretrizes estratégicas, dentre as quais foram listadas ações a serem implementadas pela organização criminosa, inclusive sobre o estabelecimento de uma desinformação".
O ministro considerou os ataques às urnas como o "primeiro ato executório" do grupo sob julgamento, destacando ainda que, desde tal momento, já se pretendia a contratação de hackers para "tentar atacar a lisura das eleições com uma sequência de atos executórios".
Citou, ainda, a presença de Walter Braga Netto, que à época não era mais ministro, apenas candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, na reunião. Mencionou, também, que os chefes das Forças Armadas também foram convidados.
"Nessa reunião de 5 de julho de 2022, Bolsonaro realiza reunião oficial com ministros de Estado e que, coincidentemente ou estranhamente, porque de legalidade duvidosa, Walter Souza Braga Netto participa da reunião ministerial, mas ele não era mais ministro, era candidato a vice-presidente", disse o ministro.
"Também estavam presentes os comandantes das Forças Armadas, o que não é comum também em reunião ministerial. Não têm status de ministro. Eu fui ministro de Estado, Flávio Dino foi ministro de Estado e sabemos que os comandantes não participam de reuniões ministeriais, quem participa é o ministro da Defesa. Mas essa não foi uma reunião ministerial. Foi na forma, não no conteúdo. Foi uma reunião golpista onde se pretendia arregimentar mais ministros e mais servidores, e principalmente os comandantes das Forças Armadas, para o projeto dessa organização criminosa", declarou.
Segundo o ministro, os diálogos na reunião "demonstram claramente o intuito golpista":
Moraes disse que não há vídeos reais que demonstrem falhas nas urnas eletrônicas em 2018, ao contrário do que Bolsonaro insistiu em dizer na reunião de julho de 2022 aos seus ministros Afirmou que o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, que também é réu na ação junto de Jair Bolsonaro, "endossou" a conduta de Bolsonaro nos ataques à Justiça Eleitoral.
"Aqui, o réu Anderson Torres usou sua condição de ministro da Justiça e Segurança para desvirtuar a realidade. O País que vivia um momento, como vive agora, um real Estado Democrático de Direito, e ele comparou à Bolívia, disse que preparou para a guerra um grupo de policiais federais e endossou a vulnerabilidade nas urnas e fraude eleitoral. Também houve a participação de Braga Netto, que era candidato e estava na reunião ministerial, endossando as palavras do réu Jair Bolsonaro e atacando o ministro Edson Fachin então presidente do TSE", declarou.
"Soco na mesa antes das eleições, virar a mesa antes das eleições e agir contra determinadas instituições e contra determinadas pessoas. Tudo isso constou onde? Na minuta do golpe Prisões. Fechamento do TSE, criação de uma comissão eleitoral, gabinete pós-golpe. Veja, tudo isso já dito claramente, confessado claramente, na reunião ministerial de 7 de junho de 2022", frisou Moraes.
A declaração ocorre no rescaldo do 7 de setembro deste ano. Em ato bolsonarista em São Paulo, marcado pela exibição de bandeiras dos Estados Unidos, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) chamou Moraes de "tirano".
Em outra passagem das ponderações sobre o 7 de Setembro de 2021, Moraes ponderou: "Qualquer pessoa decente, qualquer pessoa decente de boa fé, sabe que um líder político, num alto cargo, instigando, insuflando milhares de pessoas dessa forma aumenta exponencialmente as agressões, ameaças ao Supremo Tribunal Federal, aos ministros do Supremo Tribunal Federal e às suas famílias", frisou.
"Atitudes criminosas confessadas no dia 7 de setembro de 2021. Não há nenhuma dúvida de que os atos executórios são para extinguir a independência do Poder Judiciário mediante graves ameaças. E me parece que qualquer estudante de direito, qualquer estudante de primeiro ano de direito vai caracterizar o que ocorreu como uma grave ameaça. E também a consecução", completou, lembrando ainda a frase de Bolsonaro de que só sairia do poder "preso ou morto".
O ministro deu ênfase a outras frases de Bolsonaro no 7 de Setembro de 2021, entre elas a afirmação direcionada pelo ex-presidente ao então presidente do Supremo, Luiz Fux: "ou chefe desse Poder enquadra o seu ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos, porque nós valorizamos, reconhecemos e sabemos o valor de cada Poder da República".
Segundo Moraes, a "frase confessa em viva voz" o crime de abolição do Estado democrático de direito. "Clara e grave ameaça de impedir o livre exercício do poder judiciário", destacou. O ministro lembrou ainda que a declaração fez o STF reforçar a segurança de magistrados.
"Isso não é conversa de bar. Isso não é alguém no clube conversando com um amigo. Isso é o presidente da República no 7 de setembro a data da independência do Brasil instigando milhares de pessoas contra o Supremo Tribunal Federal, contra o Poder Judicial e especificamente contra um ministro do Supremo Tribunal Federal".
Ditaduras
Questionando outra passagem, em que Bolsonaro afirmou que um "ministro do Supremo que ousa continuar fazendo aquilo que nós não admitimos", Moraes retrucou: "Só nas ditaduras, só nas ditaduras, juízes ou ministros fazem o que o ditador determina. E nem em ditaduras todos os juízes ou ministros fazem".
O ministro ainda completou a reflexão sobre o "entreguismo nacional", alfinetando a articulação de bolsonaristas junto ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: "Na verdade, os últimos acontecimentos demonstram que essa reunião foi só preparatória para uma tentativa de retorno à condição de colônia brasileira, somente não mais de Portugal".
Moraes ponderou que a reunião com embaixadores foi transmitida para propagar desinformação em massa, juntando notícias, vídeos e fotos fraudulentas "para deslegitimar não só o Poder Judiciário e a Justiça Eleitoral, agora perante diversos embaixadores, mas também para já preparar o descrédito no resultado das eleições, sempre dentro daquele intuito desse grupo político de se perpetuar no poder independentemente do resultado das eleições", disse.
O relator ainda contestou as alegações, em interrogatório, de Bolsonaro de que outros presidentes também se reuniam com embaixadores.
"Poderíamos dizer que é um fato notório que dispensaria comprovação porque esse fato foi tão acintoso em relação à democracia que não houve pudor na consumação desse ato executório. Centenas de pessoas, e a ministra Cármen (Lúcia) se recorda, porque estava comigo no dia no TSE, postando vídeos (dizendo que) estavam sendo impedidas pela Polícia Rodoviária Federal de chegar aos locais de votação", disse Moraes.
"A PRF, com base nisso, determinou ou alterou sua programação e seu policiamento para o segundo turno, voltado aos municípios e às rodovias de acesso, principalmente no Nordeste, onde o candidato Luiz Inácio Lula da Silva tinha obtido uma melhor votação no primeiro turno", disse Moraes.
"Determinei que a PRF não estava autorizada a realizar essa operação específica, que claramente já demonstrava o viés ilícito. A PRF, então, disfarçou, disse que não faria a operação, mas no dia fez uma suposta operação para verificar as condições dos veículos. Somente nos municípios do Nordeste, onde um dos candidatos tinha maior votação, os veículos eram parados para verificar o pneu, o chassi, o banco, para que essas pessoas não pudessem chegar ao local de votação", afirmou Moraes, citando que até o senador Otto Alencar (PSD-BA), foi obstruído por essa operação da PRF no segundo turno das eleições.
Na nota, o Ministério da Defesa diz que, apesar de não ter encontrado nenhum indício de irregularidades nas urnas, não pode descartar a possibilidade de fraude. Moraes chamou a nota de "esdrúxula" e "vergonhosa".
"O réu Jair Messias Bolsonaro determinou ao réu Paulo Sérgio Nogueira que emitisse uma nota, uma das mais esdrúxulas e vergonhas notas que um ministro da Defesa do Brasil pode ter emitido. Uma nota tentando disfarçar a própria conclusão das Forças Armadas. Para que isso? Para manter a chama do discurso das fraudes nas eleições e impedir a posse do presidente e vice-presidente eleitos", declarou.
Moraes afirmou, ainda, que a conduta de Nogueira "seria só vergonhosa se não fosse criminosa": "Para manter o discurso de fraude nas eleições e de que o presidente e o vice eleitos não tomariam posse. Fica claro o alinhamento entre Jair Bolsonaro e Paulo Sérgio Nogueira", acrescentou.
"Nós todos brasileiros temos de nos preocupar com o dia a dia, a rotina, o trabalho, o estudo e acabamos esquecendo tudo o que aconteceu. Acabamos esquecendo a primeira sequência dos atos executórios, até a derrota nas eleições, e depois o aumento desses atos. Foram tantos e tão absurdos que vários acabamos esquecendo", disse.
O ministro citou um pedido feito pelo Partido Liberal (PL) para rever os votos em quase metade das urnas eletrônicas, alegando que elas eram de um modelo diferente das mais modernas. Moraes argumentou que o PL pediu a anulação dos votos apenas no segundo turno, quando Bolsonaro seria beneficiado, e não no primeiro turno, de modo a não afetar o número de deputados eleitos pela sigla de Valdemar Costa Neto.
"Tivemos atos executórios violentíssimos após o segundo turno. Tivemos ações de monitoramento de autoridades, inclusive ministros do STF, do presidente eleito, uma absurda representação eleitoral para verificação extraordinária em que se pedia para anular somente os votos de 48% das urnas eletrônicas no segundo turno. Porque nessas urnas o candidato Luiz Inácio Lula da Silva teria ganho. Não era possível anular só do segundo turno se as urnas eram as mesmas do primeiro turno Só que no primeiro turno, o PL, que pediu a anulação, perderia seus 99 deputados eleitos, cairia pela metade. Então disse que no primeiro turno não tinha problema, mas no segundo, não. Então foi uma má fé", afirmou.
"Porque uma organização criminosa, constituída por um grupo político, liderada por Jair Bolsonaro, não sabe um princípio democrático e republicano: a alternância de poder. Quem perde, vira oposição e disputa as próximas eleições. Quem ganha, assume e tenta se manter nas eleições, mas tenta se manter pelo voto popular. Não tenta se manter utilizando órgãos do Estado, coagindo, ameaçando gravemente, deslegitimando o poder judiciário do seu país e a Justiça Eleitoral. Não tenta se manter com bombas em aeroportos. Não tenta se manter com a destituição da diplomação do seu adversário político que venceu. Não tenta se manter organizando a festa da Selma, com invasão e depredação da sede dos Três Poderes", apontou.
"Isso não é democracia, isso não é Estado Democrático de Direito", enfatizou.
Em seguida, Moraes lembrou dos acampamentos golpistas montados em frente aos quartéis do Exército, com pedidos de volta da ditadura. O magistrado destacou que a organização criminosa sob julgamento mantinha o seu contato com os líderes dos acampamentos por meio do general Braga Netto.
A impressão do planejamento da operação foi no dia 9 de novembro de 2022. No mesmo dia, disse Moraes, há comprovação de que Fernandes se reuniu, das 17h48 às 18h56, com Bolsonaro no Palácio da Alvorada. O ministro ironizou o encontro e disse que "não é crível" acreditar que o general se reuniu com o ex-presidente e "fez barquinho de papel" com o planejamento.
"O general Mário Fernandes imprime no dia 9 de novembro o documento do Punhal Verde e Amarelo e na mesma data se dirige ao Palácio da Alvorada, onde há registro de entrada e saída. Lá fica das 17h48 às 18h56 para conversar com Jair Messias Bolsonaro. Não é crível e razoável achar que Mário Fernandes imprimiu no Planalto, se dirigiu ao Alvorada, ficou uma hora e seis minutos e fez barquinho de papel com a impressão do Punhal Verde e Amarelo. Isso é ridicularizar a inteligência do Tribunal", afirmou.
O ministro disse que "não é possível normalizar" todo o planejamento de matar o presidente e seu vice eleitos, além do presidente do TSE.
"Não é possível normalizar todo esse iter criminis, de meados de junho de 2021 até esse momento, em que forças especiais do Exército pretendiam matar o presidente do TSE e com envenenamento ou remédio se pretendia matar o presidente eleito da República. Não é possível normalizar. O Brasil demorou para atingir e concretizar a democracia. Tivemos 20 anos de ditadura, torturas, desrespeito à independência do Poder Judiciário e Legislativo. As pessoas sumiam, eram mortas. Não é possível banalizar esse retorno a esses momentos obscuros que já tivemos", declarou.
Moraes disse que "nem os mais pessimistas podiam imaginar" que o plano golpista envolveria o assassinato de autoridades, incluindo ele próprio. Afirmou que esse plano está "fartamente documentado nos autos" do processo. Disse que ele "não foi impresso numa gruta, foi impresso no Palácio do Planalto".
O ministro Flávio Dino chegou a ironizar. "Essa foto veio aos autos?". "Não", respondeu Moraes. "A foto se perdeu no Whastapp", completou.
Moraes destacou que também há prova de que houve a discussão sobre o financiamento da operação. "A conversa existiu, a necessidade do financiamento existiu", ponderou, citando diálogos nos autos. Nesse contexto, lembrou ainda que, segundo o delator Mauro Cid, o dinheiro para o financiamento da operação foi entregue a Braga Netto pelo "pessoal do agronegócio".
3 de setembro – 9h;
9 de setembro – 9h e 14h;
10 de setembro – 9h;
11 de setembro – 9h e 14h;
12 de setembro – 9h e 14h.
- Alexandre Ramagem - ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin);
- Almir Garnier- ex-comandante da Marinha;
- Anderson Torres - ex-ministro da Justiça e ex-secretário de segurança do Distrito Federal;
- Augusto Heleno - ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI);
- Paulo Sérgio Nogueira - ex-ministro da Defesa;
- Walter Braga Netto - ex-ministro de Bolsonaro e candidato à vice na chapa de 2022;
- Mauro Cid – ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.
PGR pediu condenação pelos crimes
- Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito: pena de 4 anos (mínimo) a 8 anos (máximo);
- Tentativa de golpe de Estado: pena de 4 anos (mínima) a 12 anos (máxima);
- Participação em organização criminosa armada: pena de 3 anos (mínima) a 8 anos (máxima) – pode chegar a 17 anos, com as agravantes de uso de arma de fogo e participação de agentes públicos;
- Dano qualificado: pena seis meses (mínima) a 3 anos (máxima); e
- Deterioração de patrimônio tombado: um ano (mínima) a 3 anos (máxima).
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