Nova edição do plano reafirma compromisso com produção sustentável e fortalecimento ruralMarcelo Camargo / Agência Brasil
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Contextualizando: Uma publicação atribui ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a responsabilidade por um suposto abandono dos produtores rurais endividados em razão das altas taxas de juros.
De fato, a taxa Selic foi mantida em 15% ao ano, o maior patamar desde 2006. No entanto, esse índice é decidido pelo Comitê de Política Monetária (Copom), um órgão independente, e não pelo governo federal, como sugere a publicação. Além disso, também não é verdade que o crédito rural e outras medidas para apoiar pequenos e médios agricultores tenham deixado de ser implementadas.
Em julho de 2025, o governo federal lançou uma nova edição do Plano Safra, que abrange linhas de crédito como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp). Já em setembro, criou uma linha de crédito para liquidar operações de agricultores cujas atividades foram prejudicadas por eventos climáticos adversos.
O que ocorreu foi que o patamar de crédito previsto pelo governo federal não cresceu acima da inflação no Plano Safra 2025/2026. A estimativa é de R$ 516,2 bilhões, apenas R$ 8 bilhões a mais do que no ciclo anterior (R$ 508,6 bilhões em 2024/2025) — um aumento nominal de 2%, inferior à inflação acumulada do período, estimada em 5,32%. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) criticou o reajuste, considerando-o insuficiente diante do aumento dos custos de produção.
Para efeito de comparação, em 2023 foram disponibilizados R$ 471,2 bilhões. Já em 2022, no então governo de Jair Bolsonaro (PL), foram concedidos R$ 364 bilhões aos produtores rurais.
O economista Eduardo Araújo, mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford, ouvido pelo Comprova, destaca que o volume total de crédito rural concedido continua em patamar elevado, com cerca de R$ 380 bilhões no ciclo 2024/2025, contra R$ 248 bilhões em 2020/2021, um crescimento nominal de aproximadamente 54%, de acordo com dados do Boletim do Crédito Rural e do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), do Banco Central.
Enquanto o Plano Safra representa o volume autorizado e as condições de financiamento anunciadas pelo governo, o boletim do Banco Central mostra quanto desse crédito foi efetivamente executado pelos agentes financeiros ao longo do ciclo.
Ao comparar o montante empenhado em 2024/2025 com o ciclo anterior 2023/2024, nota-se uma leve queda no montante de crédito rural concedido. Um dos fatores, segundo o economista, é a alta taxa de juros.
“É verdade que houve uma leve redução em relação ao pico do ciclo anterior (2023/2024), mas isso está mais relacionado ao custo dos juros, que seguem em níveis historicamente altos, do que a uma restrição deliberada de crédito”, ressalta.
Eduardo Araújo avalia, no entanto, que os juros em alta não podem ser entendidos como o único fator que afeta essa desaceleração.
“O que observamos é um conjunto de elementos que explicam essa leve desaceleração: o ciclo de expansão anterior já vinha em ritmo forte, o que naturalmente impõe um limite de crescimento; há também um cenário econômico mais conservador, que leva o produtor a planejar com mais cautela suas operações de financiamento; e fatores externos, como a instabilidade nos mercados internacionais e as tensões comerciais entre Estados Unidos e China, que afetam a confiança e os preços de exportação”, contextualiza.
Produtores relatam maior dificuldade em acessar crédito
A percepção dos produtores diz respeito à mudança implementada em junho pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), órgão composto pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad; pela ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet; e pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
O Proagro deixou de cobrir parte dos médios produtores. O limite de enquadramento no seguro rural, que cobre eventuais inadimplências dos produtores que contraem empréstimos, caiu de R$ 270 mil para R$ 200 mil por ano agrícola.
Em nota, o Banco Central (BC) informou que a redução do limite permitirá a concentração do programa na agricultura familiar e a abertura de espaço para ampliar o seguro rural a produtores recorrentemente afetados por eventos climáticos, sem impacto no orçamento do Proagro.
Guilherme Rios destacou, por fim, que as taxas anunciadas no Plano Agrícola e Pecuário 2025/2026, especialmente para médios e demais produtores, estão mais elevadas em comparação às da safra anterior. “O PAP 2024/2025 foi lançado com a taxa Selic em 10,5% ao ano, enquanto o atual plano safra foi anunciado com uma Selic de 15% ao ano, ou seja, com cenários econômicos distintos”, manifestou.
Qual o real impacto da alta nos juros
“Na prática, o Tesouro Nacional cobre parte dos juros cobrados pelos bancos, permitindo que os produtores acessem recursos com custos menores do que os de mercado — especialmente nas linhas do Pronaf (agricultura familiar) e Pronamp (médios produtores)”, entende.
A alta na taxa de juros gera, segundo o professor, um efeito difuso sobre o agronegócio e a economia em geral, mas o mecanismo de subsídios do crédito rural ajuda a proteger, em parte, os produtores, especialmente os de menor porte. Ainda assim, pode ocorrer algum tipo de endividamento e, nesse caso, algum impacto sobre novas contratações de crédito.
Diante desse cenário, o economista defende uma leitura equilibrada da situação, considerando que a evolução do crédito rural no país reflete múltiplas variáveis econômicas e conjunturais e não pode ser explicada somente por uma dimensão de gestão ou política específica.
“O que existe hoje é um cenário de ajuste pontual, não de retração estrutural. O crédito rural segue crescendo no longo prazo, e o sistema continua bem abastecido de recursos, especialmente nas linhas direcionadas e com apoio público”, pondera.
Eduardo Araújo destaca, por fim, que não há indícios de que o governo atual tenha alterado o modelo estrutural do crédito rural, uma vez que os programas continuam operando nas normas do Manual de Crédito Rural e das diretrizes do Conselho Monetário Nacional (CMN).
“O que se observa são acréscimos complementares — como linhas especiais para renegociação de dívidas ou alívio temporário para produtores com dificuldade — e ajustes regulatórios, especialmente no Plano Safra 2025/2026 (por exemplo, exigência de zoneamento climático para custeio). Ou seja, houve adaptações pontuais, mas não uma mudança radical na concessão de crédito.”
O Ministério da Agricultura foi procurado, mas não respondeu até a publicação deste texto.
Fontes consultadas: O economista Eduardo Araújo, o assessor da CNA Guilherme Rios, documentos sobre o Plano Safra 2025/2026, boletins do Banco Central e reportagens sobre o tema.
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Para se aprofundar mais: O Comprova já publicou outros conteúdos relacionados à concessão de crédito. Explicou, por exemplo, o que mudou no financiamento da Caixa e o que isso diz sobre a situação do banco e a medida provisória voltada a trabalhadores CLT.

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