Duda Salabert, Erika Hilton, Benny Brioli e Thabatta Pimenta são as lideranças envolvidas com a BancadaDivulgação / Reprodução de IA
Movimento articula representação de pessoas trans no Congresso
Carta-Manifesto reúne organizações, movimentos sociais e candidaturas de diferentes estados em defesa da ampliação da presença trans na política
A divulgação da Carta-Manifesto pela Construção da Bancada Trans e Travesti no Congresso Nacional, nesta sexta-feira (2), reúne parlamentares, candidaturas, organizações, movimentos sociais, redes, coletivos, pesquisadores e lideranças de diferentes regiões do país em torno da proposta de ampliar a representação de pessoas trans e travestis no Parlamento. A articulação também defende a formação de novas lideranças para ocupar espaços de decisão política.
A iniciativa reúne candidaturas de diferentes estados, entre elas Erika Hilton, por São Paulo; Benny Briolly, pelo Rio de Janeiro; Thabatta Pimenta, pelo Rio Grande do Norte; e Duda Salabert, por Minas Gerais. A proposta é apresentada como resultado de uma trajetória de organização do movimento trans e LGBTQIAPN+ que antecede os atuais mandatos e candidaturas.
A ideia de uma bancada trans não está vinculada a uma única candidatura ou partido. A articulação busca reunir parlamentares em torno de pautas relacionadas à representação política, cidadania e direitos da população trans e travesti, a exemplo de outras articulações existentes no Congresso Nacional.
A presença de pessoas trans na política brasileira também antecede a atual composição do Parlamento. Kátia Tapety, eleita vereadora em Colônia do Piauí em 1992, é apontada como a primeira travesti eleita para um cargo político no Brasil. Nas décadas seguintes, outras pessoas trans passaram a ocupar cargos em câmaras municipais, assembleias legislativas e, posteriormente, no Congresso Nacional.
Em 2018, Erica Malunguinho foi eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo, tornando-se a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na Casa. Em 2022, Erika Hilton e Duda Salabert foram eleitas para a Câmara dos Deputados, ampliando a presença de parlamentares trans no Congresso.
Para Benny Briolly, a articulação atual faz parte de uma trajetória construída pelo movimento social antes da chegada das atuais parlamentares aos espaços institucionais. Segundo ela, a proposta deve ser compreendida como uma continuidade dessa história.
"A bancada trans, para mim, é fruto da luta dos movimentos sociais. Antes de mim, antes da Erika Hilton, da Thabatta Pimenta, da Duda Salabert e de tantas outras parlamentares trans, existiram pessoas que lutaram para que isso pudesse acontecer", afirmou.
A vereadora também defende que a ampliação da representação seja acompanhada pela formação de novas lideranças. Para ela, o objetivo é fazer com que a bancada tenha representantes de diferentes territórios, experiências e gerações.
"Precisamos formar mais pessoas trans para que a bancada seja maior, mais plural e mais diversa em todo o Brasil. Essa é a minha preocupação hoje: formar lideranças para que elas ocupem a bancada trans e o Parlamento", disse.
A proposta apresentada no manifesto também destaca a necessidade de continuidade da representação para além dos mandatos atuais. Benny afirma que não pretende permanecer indefinidamente no Parlamento e vê a atividade política institucional como uma ferramenta de transformação.
"Eu não quero ficar no Parlamento a vida inteira. O Parlamento, para mim, é uma ferramenta, uma passagem de transformação. Ele não é um concurso público, nem uma herança. A herança que eu quero deixar é outras pessoas ocupando esse espaço", declarou.
A articulação ocorre durante o período eleitoral de 2026 e em meio a registros de ataques contra candidaturas LGBTQIA+. Um levantamento da plataforma Sentinela, do Instituto Plena Cidadania, identificou cerca de 13 mil comentários ofensivos direcionados a candidaturas LGBTQIA+ no Instagram durante as eleições. Mais de 11 mil contas diferentes apareceram envolvidas nos registros.
Segundo o levantamento, quatro candidatas a deputada federal — Erika Hilton, Duda Salabert, Benny Briolly e Thabatta Pimenta — concentram 83% dos ataques identificados. As candidaturas femininas foram alvo de 92,7% dos registros, enquanto pessoas negras representaram 83,6% dos alvos. Os dados são referentes ao monitoramento realizado pela plataforma durante o período eleitoral e não representam todas as interações realizadas nas redes sociais.
A Carta-Manifesto é assinada por organizações e entidades como Aliança Nacional LGBT, Associação Brasileira de Família Homoafetiva (ABRAF), Rede Gay Latina Brasil, Grupo Dignidade, Rede Trans UFF, Rede Trans Brasil, Coletivo Transparente, Rede Fórum TT RJ, Frente LGBTI+ do RJ, FONATRANS, Câmara da Diversidade de Maricá, Grupo de Pesquisa Diversidade UERJ, Pesquisa TransResistência UERJ, Centro Acadêmico Luísa Mahin – UFF/IEAR e Coletivo UBUNTUFF, entre outras.
O documento defende o fortalecimento da representação política trans e travesti e apresenta a construção da bancada como uma iniciativa coletiva. A proposta não se limita à eleição de integrantes do grupo de candidaturas que atualmente articulam a iniciativa, mas prevê a preparação de novas pessoas para disputar eleições e ocupar cargos públicos.
Para Benny Briolly, a formação de novas lideranças é uma das principais preocupações do movimento. A parlamentar afirma que pretende contribuir para que futuras pessoas trans que ingressem na política encontrem condições diferentes das enfrentadas atualmente.
"Quero que, quando outras pessoas trans chegarem ao Parlamento, elas não precisem passar pelas mesmas ameaças, hostilizações, xingamentos e violências políticas que existem hoje. Quero que elas encontrem um caminho mais aberto para exercer a política com tranquilidade", afirmou.
A construção da chamada Bancada Trans e Travesti, portanto, é apresentada pelos integrantes da articulação como uma iniciativa de representação política e formação de lideranças. O movimento busca ampliar a participação de pessoas trans e travestis no Congresso Nacional e estabelecer uma articulação que possa continuar além dos atuais mandatos e candidaturas.

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