Aliás, não faltou papo! Reencontrei São Paulo na fase mais falante da minha vida. Em minhas viagens nos carros por aplicativo, eu descobri mundos que ultrapassam os limites da cidadeArte de Kiko

Aos 48 anos, cada vez mais eu me descubro uma adepta da academia da vida. São as lições que aprendi durante essa quase meia década de jornada que permeiam os meus caminhos. Assim, sou fã da tese de que revisitar um local em que já estivemos é sempre uma oportunidade de vê-lo com um olhar diferente e senti-lo com uma alma renovada. Foi o que comprovei recentemente ao viajar para São Paulo durante as minhas férias. Já havia estado na capital paulista algumas vezes a trabalho, na época em que fui jornalista esportiva. Tive o privilégio de acompanhar campeonatos de vôlei e cobrir o jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014, em Itaquera.
Por conta do trabalho, no entanto, pouco pude ver de São Paulo. E vivia sonhando com a chance de voltar à cidade para conhecer sua vida cultural e gastronômica. Assim, constatei que um roteiro nunca estará totalmente visto ou encerrado enquanto a curiosidade ainda perdurar dentro de nós. Finalmente, pude passear no Ibirapuera em um dia ensolarado, tomar água de coco sentada em uma cadeira de praia ao lado de um quiosque e ainda admirar o ir e vir das pessoas, algumas de patins, outras de bicicleta ou caminhando. Pude observar também um rapaz que tocava flauta. Ali do lado, ainda visitei a Bienal de São Paulo, evento que jamais tinha visto.
Conheci o bairro da Liberdade, reduto da cultura oriental, e visitei lá mesmo o Museu da Imigração Japonesa, destino que não estava no meu roteiro original. Aliás, sou adepta da possibilidade de mudar rotas, dependendo do que aparecer pelo caminho. Lá, eu descobri que não sou boa para fazer origamis, mesmo seguindo um passo a passo mostrado por vídeo. Na saída do lugar, um simpático senhor me incentivou a treinar mais em casa.
Aliás, não faltou papo! Reencontrei São Paulo na fase mais falante da minha vida. Em minhas viagens nos carros por aplicativo, eu descobri mundos que ultrapassam os limites da cidade. Como o do motorista sergipano de Boquim, a Terra da Laranja, que deseja voltar para a roça um dia e está feliz da vida com a proximidade da chegada do primeiro neto. Também conheci outro motorista que é natural de Flor de Uno, em Palmares, Pernambuco, e sonha em retornar à terra natal quando se aposentar. Até lá, ele e os irmãos mandam sempre dinheiro para a mãe.
Outro senhor, esse natural de Volta Redonda, quer que os pais se mudem para São Paulo, onde está toda a família. Mas a mãe já descartou a vida em apartamentos. Ela só aceita morar em casa e já perguntou: "Onde vou colocar as minhas panelas?" Contei a ele que o meu pai é igualzinho. Há situações que nos aproximam e nos fazem entender por que temos identificação com pessoas que nem conhecemos de fato.
Vi ainda o Masp cheio de gente em uma sexta-feira à noite, além do Museu da Língua Portuguesa, onde conheci um jovem que dá aulas de História e Sociologia. Papo vai, papo vem, ainda descobri que ele é leitor do jornal O DIA! E fiquei toda boba! Na lojinha do local, comprei cartões postais e saí ligeiramente frustrada por não ter conseguido um que traz a palavra dengo. "Todo mundo quer um dengo, né? Por isso levaram todos os postais!", brinquei com o funcionário.
Há alguns anos, eu certamente não teria conversado tanto por São Paulo. Aliás, a ida à capital paulista foi a chance de voltar a um badalado bar, famoso por sua coxinha. Já havia estado lá há muitos anos com uma colega de profissão, mas, na época, aprisionada na ideia de que não poderia sair jamais da dieta, pedi um frango grelhado e salada. Ri daquela história por muitos anos e, desta vez, voltei lá e provei as famosas coxinhas - devidamente aprovadas!
Também deu tempo para reencontrar um querido amigo, que eu vi criança, e está prestes a se casar. Ele e sua noiva, que é minha xará, me receberam com tremendo carinho, me fazendo sentir em casa mesmo a quilômetros de distância. Conversamos muito sobre a vida e rimos durante idas e vindas em um festival de rua em Pinheiros. Ainda terminamos a noite constatando que somos feitos de elos, como aquele que uniu os nossos pais, há muitos anos.
Para completar a minha estadia, uma curiosidade: eu nunca tinha ficado no quarto número 1 de nenhuma pousada ou hotel. Mas foi o que aconteceu desta vez. Na hora de ir embora, fiquei batendo papo com a funcionária com quem eu mais conversei durante a minha hospedagem por lá. Durante a nossa despedida, eu me lembrei de perguntar seu nome: Cida, abreviação de Aparecida. Ela contou que seu pai, devoto de Nossa Senhora Aparecida, fez uma promessa, já que ela ou a mãe poderiam ter morrido no parto. E as duas sobreviveram. Lembrei que a minha mãe também era muito devota da santa e enxerguei ali mais um, entre tantos sinais, de que não sigo sozinha. E saí cada vez mais convicta de que histórias e mundos novos estão sempre ao nosso redor. Basta que a gente abra o coração para a chance de encontrá-los.