kakay5fevonlineARTE KIKO

“E, se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.”
Clarice Lispector
Corria o ano de 2002 e eu estava em um hangar privado esperando um avião para ir encontrar um governador, meu cliente. O telefone toca e eu ouço uma voz inconfundível: era o Presidente Sarney. Nunca tinha falado com ele, mas reconheci a voz. Ele, muito educadamente, perguntou se eu poderia ir ao Maranhão para falar com a Roseana Sarney. Ela era candidata à Presidência da República e estava sendo injustamente massacrada no caso Lunus. Era a máquina paulista moendo gente e reputações. A guerra pela Presidência é sempre cruel. Advoguei para alguns presidentes e conheço um pouco as intrigas, quase mortais. Só avisei ao governador e mudei de hangar.
Quando cheguei em São Luís do Maranhão e fui recebido por dona Marly e pelo Presidente, não tinha ideia da dimensão pessoal, política, amorosa e histórica do que significa conviver com o Presidente Sarney. Lá se vão 24 anos e meu respeito e minha admiração, amor mesmo, só crescem. Uma sorte na minha vida. É como, de repente, fazer parte da história, muito mais do que de uma história.
Com algum tempo advogando para a filha Roseana e depois para ele próprio, pude viver de perto com uma personalidade fascinante. Culto, bem-humorado e com olhar aguçado para todas as questões. Um observador arguto e muito antenado. Tão logo me senti mais próximo, fiz questão de convidá-lo para jantar em minha casa e disse, com sinceridade, que tinha sido um grande crítico político dele. E ele, claro, respondeu-me que sabia disso desde o início. Recordo-me de recitar Chico Buarque no jantar, com o verso: “e se a sentença se anuncia bruta, mais que depressa a mão cega executa, pois que senão o coração perdoa”. No caso do Presidente, não havia nada a perdoar, só agradecer a sua amizade.
E é só por isso esta singela homenagem. Nos tempos corridos, de mídia 24 horas e de polarização política, muitas vezes nos esquecemos de dizer só um oi amoroso. Só um registro do nada, de uma saudade, da falta de tempo de encontrar... Como se precisasse de um protocolo para simplesmente encontrar e falar da vida. Lembro-me de ir visitá-lo na Ilha de Curupu e de ele ter dado de presente ao meu filho de 2 anos uma camiseta com o título de Barão de Curupu. E de ter feito uma mandinga maranhense para que meu filho começasse a falar. Naquela idade ele ainda não falava. O Presidente pegou uma galinha, dessas que andam soltas no quintal, com um monte de pintinhos, e colocou um deles na boca do meu filho: ele gritou na hora e começou a falar. Coisas dos tambores de São Luís do Maranhão.
Depois, pude acompanhar a lealdade dele não só ao Presidente Lula, mas também ao ex-ministro José Dirceu. Com uma classe e elegância insuperáveis. Certo dia, na perseguição implacável da fascista Lava Jato, ousaram pedir sua prisão. Um ato insano do enredo vulgar e criminoso orquestrado pela equipe política daquela Operação. Eu estava almoçando em Londres com o André Esteves quando me avisaram do absurdo. Fiz questão de ligar pra ele e dar a notícia, comunicando que, naquele momento, estava indo ao aeroporto para voltar ao Brasil. Mesmo perplexo, atônito e indignado, ele me disse: “Vamos nos apresentar para prestar qualquer esclarecimento, em 60 anos de vida pública nunca respondi a um inquérito sequer, mas como homem público tenho satisfação a dar à sociedade”. Óbvio que foi tudo arquivado, mas ficou o exemplo.
Ao acompanhá-lo no depoimento à Polícia Federal, o que mais me impressionou foi a altivez, sem arrogância. A certeza de que, enfrentar os momentos de fascismo lavajatista, fazia parte da sua história, que é imensamente maior do que qualquer abuso. Por isso, fica aqui o singelo registo de carinho e amizade. Não teria a ousadia de escrever um artigo sobre ele, mas sempre cabe a homenagem sincera de afeto e admiração sem limites.
Lembrando-nos de Manoel de Barros: “Meu filho você vai ser poeta! Você vai carregar água na peneira a vida toda”.
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay