Kakayonline19marARTE KIKO

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva.”
Mia Couto
Corria o ano de 1989, Lula disputava o segundo turno da eleição presidencial com Collor. Depois de uma enorme baixaria, provocada pelo então candidato Collor, com acusações falsas, Lula se sentiu na obrigação de vir a Brasília, um dia antes do debate final, para se explicar perante a Conferência Nacional dos Bispos. Recebi um telefonema do grande Sigmaringa Seixas, amigo, oráculo de muitos de nós e grande consultor do Lula. O Sig era amado e respeitado por todos. E, ciumento, fazia uma barreira de proteção junto ao Lula. Filtrava quem poderia privar da intimidade do Lula. Como a viagem era de urgência, o PT e a organização da campanha não tinham um carro de quatro portas para buscar Lula no aeroporto, levá-lo à CNBB e trazê-lo de volta para pegar o avião para participar do fatídico debate - manipulado pela Globo e que selou a vitória do Collor. Como minha então sogra tinha um Monza quatro portas, Sig pediu que eu emprestasse o carro. Claro que emprestei, mesmo sabendo que não deveria acompanhar o Lula, nem mesmo como motorista, segundo palavras do Sig, porque eu advogava muito para empreiteiros e banqueiros! Esse era o PT de 1989.
Na minha visão, olhando para trás, Lula felizmente perdeu a eleição. À época, hoje penso assim, Lula e o PT não tinham condições de governar o Brasil. Essa derrota, na hora certa, começou a pavimentar a história do Lula, até que ele se tornou o grande estadista que é hoje. Sem sombra de dúvidas, o maior líder da história do Brasil e um político que é respeitado e admirado em todo o mundo. Um líder mundial.
Nunca fiz política partidária e não sou petista, mas votei no Lula em todas as eleições. Reconheço que os governos dele mudaram a cara do Brasil. Qualquer pessoa séria, no fundo, reconhece isso. Só de tirar o país do mapa da fome já valeu o voto. Porém, devemos estar atentos para um fenômeno mundial: o crescimento e o recrudescimento da ultra direita. Não foi apenas no Brasil que um retrocesso se instalou com a eleição de um fascista despreparado, agressivo, misógino e racista como o Bolsonaro. Acompanhamos, preocupados, o crescimento da barbárie em vários países. Basta observar o que o Trump fez e faz nos EUA e no mundo. Não só está conseguindo promover a debacle da hegemonia norte-americana, jogando os EUA em um abismo, como está desestabilizando a paz mundial. E vários outros países seguem a cartilha fascista. Um risco para a estabilidade do mundo.
Com tudo isso, ocorreu no Brasil uma perigosa e indesejada polarização. O país está dividido. Boa parte da população abomina a ultra direita e tem horror ao que significa o bolsonarismo. O Bolsonaro não tem nenhuma densidade. Ele é muito ignorante, frágil e mentiroso para representar uma ameaça. Mas, produto desta época, ele conseguiu emplacar o bolsonarismo. Um câncer que se instalou em parte da sociedade brasileira com diagnóstico de metástase.
Não há nenhuma comparação possível entre Lula e Bolsonaro. Lula é um estadista respeitado no mundo todo, pela direita e pela esquerda. Até porque ele, Lula, nunca foi um político de esquerda stricto sensu. O Bolsonaro é um fracasso, um fantoche. Mas o bolsonarismo é forte e perigoso. É necessário entender essa diferença para compreender o mal que essa polarização faz para as instituições democráticas.
Uma das bases do bolsonarismo é a divulgação de fake news. Existe uma aversão trabalhada contra o Lula para fortalecer o anti-lulismo. E, claro, depois de 3 governos, é fácil trabalhar a hipótese de fadiga de material. Mesmo o Lula estando no auge da sua competência, produtividade e maturidade, conseguindo cada vez mais honrar o Brasil mundo afora. A verdade é que a ultra direita não admite sentar na mesma sala das universidades criadas pelos governos Lula, com pessoas que fazem parte dos invisíveis sociais. O ódio dominou a extrema direita e dividiu o país. Agressivamente.
Por isso, nós, democratas, devemos estar abertos a sempre discutir o Brasil. A buscar, com todas nossas forças, encontrar caminhos para não permitir a volta do fascismo. Eu penso que o Lula deve ganhar no primeiro turno, pois o bolsonarismo não tem nenhum projeto para sustentar em uma eleição presidencial. Acreditam mais no ódio que alimentam contra o Lula. Uma verdadeira obsessão.
Assim, é bom que os fascistas saibam que, se o Lula quiser, existem opções que derrotariam os bolsonaristas aloprados. Imagine uma chapa com Haddad presidente e Roseana Sarney vice? Um paulista consagrado na cabeça de chapa e uma vice, mulher nordestina, que foi quatro vezes governadora do Maranhão, senadora e deputada.
Devemos espantar o ódio e não trabalhar com a obtusa polarização que impede as discussões democráticas. É hora de mostrar o que foi feito e discutir projetos para o país. O brasileiro não merece a divisão que é alimentada por quem não tem o que mostrar ou o que oferecer. Parte dos fascistas golpistas está presa e só nos resta mostrar ao Brasil que estamos no rumo certo, mesmo com a ultra direita incendiando, literalmente, o mundo irresponsavelmente. Vamos apoiar quem trabalha, botar a bola no chão e mostrar que, numa reeleição, o mando de campo é de quem está no poder.
Lembrando-nos do grande Winston Churchill:
“A diferença entre os humanos e os animais, é que os últimos nunca permitem que um estúpido lidere a manada.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay