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“Porque é que para a dor nos evocastes?
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: Homens, por que é que nos criastes?”
Antero de Quental
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: Homens, por que é que nos criastes?”
Antero de Quental
Mesmo sendo a Copa mais estranha que já vi, fica um pouco de vazio com o término. É certo que a politização promovida por Trump, o servilismo irritante do Presidente da FIFA, os problemas com a proibição de jogadores do Irã, o veto ao árbitro somaliano, a revista humilhante em algumas seleções e tantas outras arbitrariedades fizeram com que muitas pessoas, eu inclusive, optassem por ver os jogos pela televisão, negando-se a ir aos EUA de Trump. A atitude violenta e antiesportiva da Argentina na final levou a FIFA a abrir um inquérito, e há uma petição online (“Argentina Out”) com cerca de 23 milhões de assinaturas que pede a exclusão do país da competição.
E também, de certa forma, a Copa do Mundo deste ano expôs o racismo no futebol, um problema grave e vergonhoso, potencializado e amplificado pelas redes sociais.
O episódio envolvendo a senadora paraguaia Celeste Amarilla, após a eliminação do Paraguai pela França por 1x0, em que fez comentários racistas contra o capitão francês, Kylian Mbappé, repercutiu no mundo. As denúncias de atos violentos e racistas de torcedores argentinos contra torcedores do Egito e do adorável Cabo Verde serviram para cultivar certa antipatia pela seleção argentina.
A própria FIFA apresentou dados que evidenciam uma escalada dos abusos. A imprensa noticiou que o Serviço de Proteção das Redes Sociais da entidade identificou 89 mil postagens agressivas apenas na fase de grupos, um aumento de 13 vezes em relação à última Copa no Catar. E as motivações raciais representaram 11% das mensagens ofensivas. O grupo supremacista branco americano Ku Klux Klan enviou, ao longo de toda a competição, imagens de pessoas negras sendo enforcadas. E os emojis de macacos proliferaram. Se isso servir para aprofundar as medidas contra o racismo, pode ser uma saída.
Mas o futebol é um grande negócio e, para muitos, a imagem que fica é a da exuberância dos números que a Copa do Mundo apresenta, e os recordes foram históricos. A FIFA arrecadou aproximadamente US$ 15 bilhões; só a bilheteria e a hospitalidade geraram cerca de US$ 3 bilhões. E o público presente nos 104 jogos totalizou 6.810.966 torcedores, com taxa de ocupação de 99,73%. A estimativa oficial é de que a audiência global girou entre 5 e 6 bilhões de telespectadores.
Para nós, brasileiros e amantes do futebol, o que ficou foi só tristeza. Uma seleção sem coração, sem garra e sem talentos. A imagem de um Neymar, com seus relógios milionários, sem jogar nada, é um contraste muito forte com o futebol espetacular de um Yamal, com sua simplicidade e gestos inequívocos de solidariedade e empatia. Não se sabe exatamente em que curva o Brasil se perdeu. Resta aos torcedores voltar ao Campeonato Brasileiro para ver o meu Cruzeiro dar show com o Matheus Pereira e Kaio Jorge. É o que nos resta.
Lembrando-nos de Pessoa:
“Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.”
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay



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