Arte Kakay (20/08/2026)Imagem gerada com IA
“De resto, que necessidade teríamos de fazer tanto esforço? Somos reis, tudo o que desejamos é já nosso.”
Italo Calvino, conto O Rei à escuta.
Italo Calvino, conto O Rei à escuta.
Nós nunca podemos desprezar a força da ignorância em várias situações e ocasiões. Quando eu morava em Patos de Minas, com 16 anos, e sem conhecer o mundo, eu pensava que o prédio Alvorada, com 6 andares, o único da cidade, era um exemplo de arquitetura e pujança. Ser conhecido pelo ascensorista do único edifício com elevador e porta pantográfica era um sinal de prestígio. Andar de elevador era um grande programa.
Certa vez, chegou à cidade uma paulista linda e charmosa. Todos os meninos caíram de amores. E um clima de acirrada disputa se estabeleceu. Eu, julgando ter uma vantagem, dediquei-me à conquista. A única coisa que eu achava que sabia fazer era contar histórias e recitar poesia. Logo, encantei a moça e parti para o trunfo: convidei-a, felizmente, sem explicar o real motivo, para uma surpresa. Ela topou e saímos os dois para a aventura.
Combinei com o Zuza, ascensorista, que iria levá-la para andar de elevador às 18h. Meio emocionado, entro no elevador com ela e, quando ele começa a subir, sinto que ela não está impressionada. Surpreso, perguntei: “Você mora em SP, em um prédio?”. Ela respondeu: “Sim”; e eu: “Em qual andar?”. E ela, mortal : “No 29º…” Ainda bem que o elevador era lento e, quando chegamos ao 6º andar, eu já tinha uma história toda na cabeça. Coisa de criminalista de Tribunal de Júri, tudo sem ensaiar e sem preparar. Com um pôr do sol envolvente, uma vista linda do último piso, algumas poesias e uma história triste inventada na hora, selamos ali mesmo nosso começo de namoro.
Não sei por que me lembrei dessa história quando vi o lançamento da campanha do Flávio Bolsonaro em Copacabana. Ele, em um resumo rápido, prometeu, na essência do discurso, repetir o governo do pai, o presidiário Jair Bolsonaro. Ou seja, apostando pesado na ignorância dos bolsonaristas.
Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento e discernimento sabe que os 4 anos da gestão fascista foram um desastre. Em todas as áreas: saúde, educação, segurança, cultura, economia, relações internacionais e respeito às minorias, às mulheres e aos negros. Enfim, um governo de terra arrasada que só prestigiou, enriqueceu e favoreceu grupos de parte da elite que, a vida toda, cravou as unhas no povo brasileiro. E o pai e seus principais assessores, ministros e generais estão presos, cumprindo penas de até 27 anos em regime fechado. Alguns estão condenados e foragidos. Só têm como programa entregar o Brasil aos EUA para garantir a liberdade dos que já estão condenados e dos que sabem que serão condenados.
Para tanto, abrem mão da soberania nacional e estão dispostos a permitir a ingerência do Trump nas eleições. Esse é o discurso de campanha, apostando tudo na ignorância e na enorme experiência de uma pesada fábrica de fake news. A minha expectativa é que, como os líderes são bizarros e incultos, não tenham um recurso opcional, como a poesia que usei, e que a campanha do Lula tenha competência para expor e explicar, mesmo para os mais ignorantes, o que significa prometer repetir a catástrofe que foram os 4 anos do governo fascista.
Impossível não nos lembrar de Tomasi di Lampedusa, no romance Sereia:
“Não acredite nas fábulas inventadas sobre nós; não matamos ninguém, só amamos.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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