Kakay27-08-2026Arte Gerada por IA
“O coração, se pudesse pensar, pararia.”
Pessoa, na pessoa de Bernardo Soares no livro do Desassossego
Pessoa, na pessoa de Bernardo Soares no livro do Desassossego
Portugal me acolheu muito generosamente. Por um tempo, pouco antes da pandemia, por razões profissionais, fui muito a Lisboa. Meu cliente era uma pessoa única: inteligente, boêmio, culto e amante de arte. Tornou-se um amigo e um companheiro das noites. Passei a amar fado e as minhas madrugadas sempre se confundiam com o raiar do dia. Ver o sol nascer, meio escondido, no rio Tejo, evocava-me Pessoa e eu me sentia um pouco português.
Frequento Portugal desde a época em que o país era quase rural. Tudo muito simples e com aquele jeito cartesiano do português, como se fosse um pedaço de Minas Gerais. Hoje, quando se anda nas ruas ou nos sofisticados restaurantes, a diversidade das línguas que se ouvem impressiona. O francês quase virou um idioma nativo.
Quando retornei a Lisboa depois do isolamento da pandemia, no dia em que cheguei, tive uma festa surpresa com 30 fadistas. Minha companheira das noites intermináveis de fado, Celeste, irmã de Amália Rodrigues, com 95 anos, já tinha partido. E tantos amigos que se forjaram no silêncio do fado. Sim, existe um silêncio que precede e acompanha o fado. Esse silêncio abraça e aconchega os que amam o fado. Saber ouvir é um aprendizado permanente. Lembro-me do poeta Leão de Formosa: “Aperfeiçoa-te na arte de escutar, só quem ouviu o rio pode ouvir o mar”.
O afeto português evidencia-se na maneira carinhosa com que você é abordado em todos os cantos. Dois restaurantes em Lisboa têm fotos minhas nas paredes; mais de um tem garrafas de vinho com a minha assinatura. E, suprema glória, em um apartamento com vista para o Tejo, há uma pequena biblioteca com meu nome, Kakay. E com livros especiais de Pessoa que, eu tenho certeza, frequenta a casa em certas madrugadas. Eu já o senti por lá, assim como, vez ou outra, percebo seu vulto na Rua Direita ou na Rua Augusta.
E, para minha imensa e silenciosa alegria, Paris está a 2 horas de voo. Saber que Paris está assim tão perto é uma segurança afetiva. Posso sair do Solar dos Presuntos, passar na livraria mais charmosa do mundo, Ler Devagar, e ir jantar em casa em Paris, dormindo na minha cama. E fazer desse caminho uma doce opção, que não pareça fuga.
Falo isso com o coração apertado de quem sabe que, se o fascismo voltar, o Brasil será pequeno para os democratas. Sei do crescimento da ultradireita em Portugal, com o Chega, e na França, com a Le Pen. Mas dói mais quando é na nossa casa. Por isso, até outubro, vamos fazer um movimento simples pela Democracia, pelo respeito aos direitos dos invisíveis, pelos direitos humanos, pelos negros, pelas mulheres e por nós.
Lembrando-nos do grande Leminski: “Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além”.
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay




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