Milene Ferreira da SilvaDivulgação
Horas depois, a imagem era outra: olhos roxos, um dente quebrado, o braço imobilizado e o choro de quem foi vítima da violência irracional que tomou conta dos arredores do Maracanã. Monalisa havia sido agredida brutalmente por supostos torcedores do Flamengo antes do clássico contra o Vasco. O motivo? Estava com a camisa do time do coração e vendia doces para sobreviver e sustentar um projeto social.
"Não são torcedores, são vândalos"
Em um vídeo publicado no dia seguinte, já com sinais visíveis da agressão, Monalisa desabafou:
“Eu tive que deixar minhas coisas pra trás, me machuquei, tomei uma porrada no olho, caí e quebrei meu dente. E a gente não tá falando de time aqui, tá falando de caráter. Torcedor de verdade torce, não agride trabalhador. Esses são vândalos.”
Ela explicou que, apesar da dor física, o pior foi o sentimento de impotência: “Eu sai de casa tão feliz, acreditando que ia conseguir comprar ração, remédio. Voltei machucada, sem meus doces, sem meu carrinho, sem meu isopor. Mas com fé e com esperança.”
Guaratiba, o abrigo e os 80 animais
Monalisa mora a mais de 50 km do Maracanã. Saiu de Guaratiba, onde vive em uma casa modesta que também abriga cerca de 80 cães — muitos deles vítimas de abandono, maus-tratos ou doenças. O trabalho é árduo: ela cuida dos animais sozinha, alimenta, leva ao veterinário e ainda prepara os doces que vende nas ruas e em dias de jogo.
“Eu já fui ajudada por flamenguistas, botafoguenses, tricolores… Tenho muito respeito por todos os clubes. Já ganhei ração do Botafogo, recebi ajuda do goleiro Fábio, do Fluminense, que me doou R$ 1.500. Mas agora, fui agredida por quem deveria ser gente, não inimigo”, disse.
E finalizou: “Eu não vou parar. Se alguém puder doar um carrinho, um isopor, eu volto a vender. Não por mim, mas por eles, pelos meus cachorros. E eu peço: paz nos estádios. A gente quer torcer, trabalhar, viver. Só isso.”
A resposta: solidariedade verdadeira
A história de Monalisa viralizou. Em poucas horas, torcedores dos quatro grandes clubes do Rio começaram a se mobilizar. Campanhas de arrecadação, doações diretas, vaquinhas e até rifas foram criadas para ajudá-la a recuperar o isopor, o carrinho, os doces perdidos — e seguir lutando por seus animais.
“Flamenguistas, vascaínos, botafoguenses, tricolores… Todos me ajudaram. Graças a Deus e a vocês, já comprei R$ 2 mil em ração, remédio de carrapato, ganhei cesta básica. Arrecadamos uma quantia para dar entrada na nossa obra. Meu abrigo vai virar baile!”, comemorou em outro vídeo, com o olhar ainda inchado, mas cheio de gratidão.
Nota oficial do Vasco e pedido por justiça
O Vasco da Gama publicou uma nota oficial em repúdio às agressões sofridas por Monalisa e a outros torcedores nas últimas semanas. O clube lembrou que a violência não é um ato isolado e cobrou das autoridades uma apuração rigorosa e punição exemplar.
A nota também convocou a torcida vascaína a apoiar o projeto de Monalisa e reafirmou o papel do clube na luta contra a violência e pela paz nos estádios.
Torcedores rubro-negros também se manifestam: “Isso não nos representa”
Pablo Barreto Schier de Moura
"Independente de torcida específica, é muito triste presenciarmos esse tipo de violência, ainda mais com uma trabalhadora e torcedora do seu time de coração. Como torcedor e apaixonado pelo meu time, Flamengo, ressalto minha indignação a este acontecimento.."
Nathalia Marques, 38 anos
"Como torcedora do Flamengo, manifesto meu total repúdio à covarde agressão sofrida por uma vendedora vascaína no entorno do Maracanã. O futebol é paixão, rivalidade e festa, mas nunca pode se confundir com violência ou intolerância. Vestir a camisa de um clube não deve ser motivo para ataques físicos ou morais, e atitudes como essa envergonham a verdadeira torcida rubro-negra, que é feita de respeito, tradição e amor ao esporte."
Milene Ferreira da Silva
“Sou torcedora, mãe de torcedor e advogada, e repudiamos com veemência a agressão sofrida pela ambulante no jogo do Flamengo. A violência praticada por pessoas vestidas com a camisa do clube é inaceitável e não representa a verdadeira paixão pelo esporte. Futebol é respeito, união e alegria — nunca agressão.”
Onde está a compaixão que dizemos defender?
Monalisa não é só uma vendedora nem apenas uma torcedora. Ela é uma protetora. Uma dessas pessoas raras que acordam cedo abrem mão de si mesmas e enfrentam a cidade com um isopor na mão para garantir comida, ração, remédio e dignidade para animais descartados pela sociedade.
A agressão que ela sofreu não é um caso isolado. É sintoma de uma cultura que normaliza o desrespeito, contra mulheres, contra os pobres, contra os que cuidam. Uma cultura que ainda não entendeu que amar futebol não tem nada a ver com ódio ao diferente.
Mas se há algo que a proteção animal nos ensina todos os dias, é a resistência. Monalisa resiste. E nós, junto com ela.
Que esse episódio sirva de alerta. Que os verdadeiros torcedores, e os verdadeiros humanos, levantem a voz. Porque lutar pelos animais é, acima de tudo, lutar por um mundo mais justo, mais seguro e mais sensível para todos.
Cristina Cruz
Colunista da “É o Bicho” | Protetora de animais
Como ajudar Monalisa





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