Gastão Reisdivulgação
Se fosse feita mais uma pesquisa sobre segurança pública junto à população do Rio de Janeiro, ou mesmo em outras cidades do País, o grau de insatisfação dos munícipes com o desempenho das polícias seria muito elevado.
Pesquisas realizadas 10, ou 20, ou até 30 anos atrás, deram resultados muito semelhantes. Situações como esta revelam que existe um problema estrutural, vale dizer, permanente na área de segurança pública no Patropi.
Dado esse panorama angustiante, resolvi pesquisar qual seria a raiz do desempenho medíocre nessa área. Um método clássico é buscar um modelo de forças policiais que funcionem bem, gerando uma reação de aprovação na população. Um requisito normal é que haja dedicação exclusiva de seus membros, uma escala de trabalho diário, com treinamento físico regular, exercícios de tiro frequentes e bom entrosamento com a população. O policial precisa estar em boas condições físicas e mentais para enfrentar os criminosos.
O modelo descrito no parágrafo anterior é rotineiro nos países de língua inglesa. E não deve ser muito diferente em países europeus. Mesmo nos nossos vizinhos latino-americanos, há países que, em linhas gerais, as polícias atendem a tais requisitos com o devido rigor, ou relativamente próximos ao que seriam os padrões ideais para que uma força policial fosse eficiente e eficaz.
Vamos agora fazer uma comparação do modelo ideal com o que ocorre no Brasil em matéria de segurança pública. A primeira constatação é que estamos longe de atender aos referidos requisitos. Minha primeira surpresa foi tomar conhecimento de que a escala normal de trabalho é de 24 por 72 horas de folga. É claro que existem exceções como a do BOPE – Batalhão de Operações Policiais Especiais no Rio de Janeiro que, na prática, não segue exatamente a escala comum de 24 por 72 horas. A jornada é fatigante e exigente ao máximo do policial. Na verdade, atende ao modelo acima que funciona.
O desempenho do BOPE como força policial é visto pela população como um grupo de policiais bem treinados e qualificados para dar combate ao crime, normalmente em situações especiais. Forças semelhantes existem em outros países como a famosa SWAT (Special Weapons And Tactics) nos EUA, especialmente treinada para operações de alto risco como resgate de reféns capturados por terroristas e outras situações perigosas análogas.
Seria exagerado exigir que as PMs ou as polícias civis atendessem ao mesmo grau de exigência dessas forças especiais. Até mesmo porque tal não ocorre nem nos países cuja população está satisfeita em matéria de segurança pública. Resta então buscar qual seria a razão básica de uma polícia civil que, em média, só desvenda um homicídio em cada três casos, quando a média em outros países bem avaliados é de dois em cada três. O desempenho das PMs também deixa muito a desejar nas pesquisas.
Em linhas gerais, todos concordamos que bons profissionais têm foco no que fazem. Sua carga de trabalho em sua especialidade é normalmente de oito horas diárias, ou até mais, em situações que assim o exigem. É fato que técnicos que trabalham em plataformas de petróleo em alto mar têm um regime de 15 dias de trabalho por 15 dias de folga em função de fatores muito específicos, em especial os ligados à estabilidade emocional de quem fica isolado de familiares e amigos durante meio mês todo mês.
A rotina de trabalho das PMs, da polícia civil e rodoviária de 24 por 72 horas se enquadraria em situação semelhante, levando em conta o lado extenuante da profissão de policial? Se recorrermos a um comparativo com as polícias de outros países razoavelmente bem resolvidos na área de segurança pública não vamos encontrar nada parecido com o que ocorre no Patropi. Mundo afora, os policiais trabalham normalmente 8 horas diárias seis dias por semana, pouco mais ou pouco menos.
Examinemos com mais vagar que problemas essa escala, aparentemente única no mundo, de 24 por 72 horas poderia causar. Na verdade, ela enseja mais de um problema sério. O primeiro deles é a falta de foco no que deveria ser o trabalho dos policiais. Quem trabalha numa escala de 24 por 72 horas tem três dias de folga para fazer qualquer outra coisa desde que não conflite com sua atividade específica de policial. Na prática, outras atividades podem se tornar mais lucrativas do que a de policial. O risco de perda de foco é evidente.
Examinemos com mais vagar que problemas essa escala, aparentemente única no mundo, de 24 por 72 horas poderia causar. Na verdade, ela enseja mais de um problema sério. O primeiro deles é a falta de foco no que deveria ser o trabalho dos policiais. Quem trabalha numa escala de 24 por 72 horas tem três dias de folga para fazer qualquer outra coisa desde que não conflite com sua atividade específica de policial. Na prática, outras atividades podem se tornar mais lucrativas do que a de policial. O risco de perda de foco é evidente.
Outro problema sério é que a escala de 24 por 72 horas exige um contingente bem maior de policiais. Ainda me recordo da reclamação de um coronel da PMERJ que se queixava do fato de para ter 100 homens na rua precisava ter 300 fora de serviço em casa. Obviamente, passavam mais tempo longe do foco que deveriam manter. Competência no que fazemos depende da proximidade que temos com nossa principal atividade. É difícil imaginar que um policial em casa por três dias consiga manter a rotina exigente de um quartel.
Os referidos e graves problemas estão na raiz da mudança da escala de trabalho da PM do estado de São Paulo para 12 por 36 horas. Não parece ser a ideal, mas dificulta bem mais que o policial venha a exercer outra atividade no dia e meio de folga que tem. Outra razão é que a de 24 por 72 horas induz o policial a sentir necessidade de algumas horas de descanso nas 24 horas de trabalho direto em vigília. Não é o caso da nova escala de 12 horas seguidas de trabalho, que são suportáveis sem sonecas. E menos ainda quando é de oito horas diárias.
Os referidos e graves problemas estão na raiz da mudança da escala de trabalho da PM do estado de São Paulo para 12 por 36 horas. Não parece ser a ideal, mas dificulta bem mais que o policial venha a exercer outra atividade no dia e meio de folga que tem. Outra razão é que a de 24 por 72 horas induz o policial a sentir necessidade de algumas horas de descanso nas 24 horas de trabalho direto em vigília. Não é o caso da nova escala de 12 horas seguidas de trabalho, que são suportáveis sem sonecas. E menos ainda quando é de oito horas diárias.
O exemplo de São Paulo tem a virtude de caminhar na direção correta quanto à escala de trabalho de policiais mundo afora, em especial em países em que os cidadãos e cidadãs se sentem seguro(a)s ao caminhar nas ruas de sua cidade. Resumo da ópera: tarda a hora das PMs, polícias civil e rodoviária seguirem o exemplo de São Paulo de modo a ter mais foco em sua atividade e melhorar significativamente seu desempenho e sua imagem junto à população. Pelo menos, estaríamos mais próximos da solução ideal.
Nota: Digite no Google “Gatão Reis: Inteligência no combate ao crime”, ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=bF3cv83Vm98
E-mail: gastaoreis2@gmail.com

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