Gastão Reisdivulgação
O ‘nós contra eles’ se tornou uma expressão bem conhecida no Patropi. Na verdade, é uma variante do motor (enguiçado) da História, ou seja, a luta de classes, expressão queridinha de Marx. Lula, em tempos não tão idos, dizia que era o que ele havia aprendido com o Mouro, que provavelmente nunca leu. Em “Memórias de Adriano” (1951), romance histórico da escritora francesa Marguerite Yourcenar, ela nos fala deste imperador romano, que lamentava os tempos de guerra como fator impeditivo do comércio e do desenvolvimento.
Não é preciso uma experiência de destroncamento de cérebro para entender que a luta de classes tem parentesco próximo com os tempos bélicos. A receita política para desenvolvimento é relativamente simples: sentar à mesa e negociar, civilizadamente, os interesses das diferentes classes sociais.
A Argentina é um triste exemplo de país que viveu tempos áureos na primeira metade do século XX, até a chegada ao poder de Juan Domingo Perón, que esbanjou irresponsavelmente a riqueza acumulada até então. Após sua queda e deportação em 1954, a polícia encontrou em sua casa, em dinheiro vivo, 20 milhões de dólares, equivalentes hoje a 200 milhões da moeda americana. E a punição foi viver um exílio dourado no melhor hotel de Madri...
Foi um longo processo de decadência, de mais de meio século, em que peronistas, à esquerda e à direita, levaram o país à bancarrota. Ainda me recordo da terceira esposa de Perón, Isabelita, que, como vice-presidente, assumiu o poder em 1974 após a morte de Perón. O famoso Pasquim, com sua conhecida irreverência, estampou a seguinte manchete: “Isabelita, de rumbeira a presidente”. Ela não tinha a menor experiência administrativa, menos ainda condições de assumir a presidência. Deu no que deu: severa crise econômica, extrema violência política, pressagiando a ditadura militar de triste memória.
Na terra brasilis, rumores vêm surgindo de que Lula estaria acariciando a ideia de dar uma guinada à esquerda, se for eleito para um terceiro mandato. Ou seja, ele aparentemente pretende soprar a brasa do ‘nós contra eles’ para seguir adiante na ideia falida de Marx. Ele deveria, com urgência, estudar o que aconteceu com a Argentina para não cair no pecado mortal da perda de tempo histórico, uma crueldade por que já passaram diversos países latino-americanos. A conferir em breve.
Como fator agravante, temos uma situação concreta de um (des)governo do próprio Lula em sua reiterada gastança bilionária, denunciada por economistas com a cabeça no lugar. O ajuste das contas públicas não poderá ser empurrado com a barriga sob a pena de alimentar um grave processo inflacionário no futuro. Trata-se de uma arapuca armada pelo próprio Lula em que ele pode vir a ser vítima de si mesmo. Se tais considerações passarem por sua cabeça, não seria surpreendente se ele viesse a alegar problemas de idade e saúde para não concorrer a um quarto mandato presidencial.
Lula poderia também recorrer à prata da casa, aos alertas de Mario Henrique Simonsen, ministro da Fazenda no governo Geisel, sobre nossas asneiras reiteradas. Vale a pena transcrever suas sábias palavras: “Um dos maiores obstáculos ao crescimento das nações subdesenvolvidas reside na sua extraordinária capacidade de cometer erros de política econômica... erros provocados pela ignorância dos princípios elementares de economia e pelo desconhecimento dos êxitos e fracassos das experiências aplicadas em outros países”. As burradas peronistas são um alerta quanto a caminhos equivocados.
Certa feita, um sobrinho de Churchill, o famoso Primeiro-Ministro inglês durante a Segunda Guerra Mundial, se bandeou para a oposição. O comentário sagaz dele, como sempre, foi o seguinte: “Meu sobrinho vai ajudar a elevar o QI da Oposição”. E aqui adentramos ao problema permanente de crescermos abaixo dos demais países em termos de renda real per capita, perdendo assim posição relativa, e desperdiçando a oportunidade de pisar no acelerador do investimento público. Infelizmente, sem a ajuda do sobrinho do Churchill...
Certa feita, um sobrinho de Churchill, o famoso Primeiro-Ministro inglês durante a Segunda Guerra Mundial, se bandeou para a oposição. O comentário sagaz dele, como sempre, foi o seguinte: “Meu sobrinho vai ajudar a elevar o QI da Oposição”. E aqui adentramos ao problema permanente de crescermos abaixo dos demais países em termos de renda real per capita, perdendo assim posição relativa, e desperdiçando a oportunidade de pisar no acelerador do investimento público. Infelizmente, sem a ajuda do sobrinho do Churchill...
O Brasil muito se beneficiaria se a esquerda se desse conta de sua incompetência administrativa. O ex-governador petista Pimentel, de Minas Gerais, passou o cargo a Romeu Zema, deixando o funcionalismo público com salários em atraso, devidamente colocados e mantidos em dia pelo novo governador. O ministro Flavio Dino do STF, quando governador do Maranhão, se celebrizou por uma gestão medíocre em seus dois mandatos seguidos. Poderia continuar dando exemplos dessa disfuncionalidade operacional da esquerda, mas apenas criticar não nos permite sair do atoleiro.
Tenho um primo jornalista que, na década de 1960, viveu por três anos na Suécia. Obviamente, teve tempo de estudar e conhecer peculiaridades da história política sueca. Na primeira metade do século XX, um partido socialista conseguiu chegar ao poder e ali permanecer por 40 anos seguidos através de eleições regulares e democráticas. Segundo ele, o referido partido mudou a cara da Suécia. Este fato se encaixa com um comentário do meu Prof. Otávio Gouvea de Bulhões, em suas aulas de Macroeconomia, quando afirmou, para minha surpresa, em 1968, que a Suécia, no início do século XX ainda era um país subdesenvolvido.
A maturidade política de um país exige alternância de poder, marca registrada de países com democracias consolidadas. O lado primitivo dos posicionamentos de Lula se revela ao classificar partidos de oposição como fascistas, negacionistas e de extrema-direita. Na verdade, este tipo de mentalidade do ‘nós contra eles’ só contribui para o atraso do País. O cerne do problema, como ressaltou o ministro Simonsen, é a elevada dose de bobagens que contaminou a política econômica brasileira. E que vem dando sustentação à nossa marcha lenta já de algumas décadas.
É urgente reverter a queda ocorrida no QI nacional nos últimos anos, inclusive no que tange à condução da política econômica em bases sólidas e capazes de nos livrar do atraso relativo continuado em que nos metemos desde a década de 1980. Mãos à obra!
Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Economia Esqui-zofrênica”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=_jqMlxDReBA
E-mail: gastaoreis2@gmail.com
Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Economia Esqui-zofrênica”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=_jqMlxDReBA
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Gastão Reis é economista e palestrante

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