Gastão Reisdivulgação

A Princesa Isabel, que teria sido nossa D. Isabel I, imperatriz do Brasil, foi Regente do Império nas três longas viagens feitas por D. Pedro II ao exterior, somando um período de cerca de quatro anos, quase o tempo de um mandato presidencial. Ao longo de suas profícuas regências, orquestrou medidas e leis, como a Lei do Ventre Livre, de 1871, pela qual lutou de corpo e alma, o primeiro censo demográfico,em 1872, sempre elogiado pela qualidade técnica, e ainda assinou a Lei Áurea, de 13 de maio de 1889, que extinguiu a escravidão no Brasil, libertando os 20% de descendentes de africanos ainda escravos.
P1 – Antes de mais nada, como devo tratá-la, Alteza ou Majestade?
R1 – Que tal mantermos os pés na dura realidade, caro Gastão. Fui, de fato, Princesa Imperial do Brasil, tendo recebido uma educação primorosa sob a batuta da Condessa de Barral, que falava várias línguas e era uma mulher experiente e dura negociadora. Por mais de oito anos (1856-1864/1865), tivemos contatos diários em que muito aprendi com ela. Além de ter os melhores professores em todas as áreas da administração pública, direito administrativo, diversos idiomas como francês, inglês, alemão e latim, economia, história, geografia, filosofia e ciências, como matemática, física e química. Diria que me saí muito bem também em química.
P2 – Fale um pouco mais, Alteza, sobre a Condessa de Barral. Como era o seu dia a dia com ela?
R2 – Para você ter uma ideia de como levou a sério minha educação, ela chegou em Petrópolis na véspera do início das aulas para não perder tempo. Era uma preceptora durona, mas amável, versátil em vários idiomas, teve um salão em Paris, onde recebia a nobreza europeia. E, como eu, teve uma educação de homem, como se dizia na época, em funçao da morte de seu irmão mais velho, em paralelo comigo, que também perdi dois irmãos mais velhos nos primeiros anos de vida, D. Afonso Pedro (1847) e D. Pedro Afonso (1850).
P3 – Contrariamente ao que é dito sobre V. A., como sendo uma pessoa ingênua e pau mandado por seu marido, o Conde D’Eu, dá para concluir o grau brutal de injustiça de que sua pessoa foi alvo em franca discordância com os fatos que moldaram sua vida. O que tem a dizer sobre isso?
R3 – Aqui, junto ao Criador, venho acompanhando os absurdos ditos a meu respeito. Houve mesmo quem dissesse que só me interessei pela abolição seis meses antes de assinar a Lei Áurea. Ora, eu assinei a Lei do Ventre Livre em 1871(!), e sempre fui abolicionista, desde jovem. Meu marido, nascido na França, levantava informações importantes para minha tomada de decisões, mas também sabia discordar dele quando necessário. Era exatamente o que fazia a rainha Vitória da Inglaterra com seu marido, Príncipe Alberto, de origem alemã, a ponto de colocar frente à frente as escrivaninhas de ambos. Na Inglaterra, a rainha Vitória nunca foi acusada de pau mandado do marido. Já aqui...
P4 – Nessa linha de acusações infundadas, o que V. A. tem a dizer sobre as relações íntimas da Condessa de Barral e D. Pedro II?
R4 – Historiadores sérios, brasileiros e estrangeiros, os chamados brasi-lianistas, simplesmente afirmam que nunca foi o caso. A Barral era casada e profundamente religiosa. Amor platônico? Talvez. Mas nada além disso.
P5 – Também foi dito que se dava ao trabalho de varrer igrejas ao invés de se preocupar com tarefas mais importantes. Qual a razão de fazer isso?
R5 – Sempre me espanto com o grau de desconhecimento de nossa própria História, aquela escrita com H maiúsculo, decorrente do apagão proposital pela república de nosso passado monárquico, obviamente muito ligado às tradições portuguesas. O que eu fazia era simplesmente repetir aqui o que as damas da nobreza faziam lá em Portugal, em demonstração de fé e humildade. Nunca fui carola, apenas uma mulher de fé profunda e católica.

P6 – Como foram suas andanças em viagens à Europa com seu marido em que visitavam fábricas e estreitavam ligações familiares com os parentes dele na França?
R6 – Sempre preocupados com o Brasil e seu desenvolvimento, aproveitávamos a oportunidade para visitar fábricas inglesas no auge da Revo-lução Industrial. Aprendi muito. Quanto aos familiares e amigo(a)s de meu marido, não fui notada como alguém de beleza estonteante, mas fui reconhe-cida como pessoa capaz de manter conversas inteligentes e espirituosas.
P7 – É fato que D. Pedro II e V. A., sempre que possível, se negavam a sancionar as sentenças de morte?
P7 – Sim, comutávamos a pena para prisão perpétua. Houve comigo um episódio jocoso por me recusar a sancionar uma sentença de morte. Meu ministro da Justiça me relembrou da resposta de minha avó, D. Maria I, diante de um pedido de clemência da mãe de um condenado à morte. A resposta dela foi a seguinte: “Como mãe, eu entendo seu drama, mas como rainha não tenho como agir de outro modo.” Respondi-lhe, de pronto: “Mas minha avó era louca, ministro!”.
P8 – Como foi sua luta a favor da Lei Áurea?
R8 – Muito difícil e dura em que me vali do que aprendi com o Condessa de Barral e com meu pai em seus “Conselhos à Regente”, onde me transmitia sua longa experiência como imperador. Forçei a saída do Barão de Cotejipe, que era mulato, e o substituí por João Alfredo Correia de Oliveira, em março de 1888, que já havia me ajudado a passar a Lei do Ventre Livre em 1871. E, assim, pusemos um ponto final na escravidão no Brasil.
P9 – Como enfrentou o golpe militar de 15 de Novembro de 1889 e sua visão sobre o Brasil de hoje?
R9 – Com serenidade, mas triste e decepcionada. Fomos embarcados às 3 horas da madrugada num navio por evidente medo dos golpistas de uma rebelião popular. Quanto ao Brasil de hoje, vejo o País com muita apreensão. Ao contrário de ouvir o povo toda semana, uma tradição da monarquia, deixaram o Povo a ver navios sem ser consultado. A escassez de plebiscitos diz muito sobre o medo da república de ouvir o povo. A monarquia parlamentar poderia ser uma saída como instrumento de respeito ao Povo e ao dinheiro público, como ocorria no Império. E mantenho, sem pestanejar, minha fé na grandeza d’alma do Povo Brasileiro.

Nota: Digite no Google título da minha palestra “O legado da herança luso-afro-indígena”. Ou link: https://www.youtube.com/watch?v=uuLxB3Mysns&t=22s


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Gastão Reis é economista e palestrante