Gastão Reisdivulgação

Durante milênios, foi uma tarefa nada fácil combater a mentira na política. As armadilhas contra a verdade estavam por toda parte. Dificuldades sérias de acesso às fontes, filtragens de quem controlava os canais de difusão da informação, censura y otras cositas más eram barreiras atuantes para saber o que realmente estava acontecendo. A duras penas, a humanidade conseguiu, nos países realmente democráticos, conquistar a liberdade de expressão, de pensamento e de imprensa.
Mesmo nos dias atuais, nem sempre o que é publicado nos jornais ou veiculado pelas rádios e canais de TV merece crédito total do grande público. A questão central é como verificar se as informações fornecidas pelos meios de comunicação são fidedignas. Quem lê jornais com certa malícia pode observar a tendenciosidade com que uma notícia é dada ou simplesmente ocultada aos leitores e às leitoras. No Brasil, um jornal de circulação nacional admitiu publicamente que é de esquerda, ou seja, em certa medida, escancarou sua tendenciosidade — coisa que, em princípio, deveria ser evitada.Indo direto ao ponto: estamos falando da profusão das fake news, tanto na mídia tradicional como nas redes sociais. Estas vêm sendo, sem dúvida, um instrumento eficaz para furar o monopólio da transmissão do que deveria ser noticiado pela grande mídia falada, escrita e televisionada. Entretanto, as próprias redes sociais, por sua vez, puxam a brasa para sua própria sardinha, conferindo à informação certo viés, seja de direita ou de esquerda.
A boa notícia é que o panorama começou a mudar para melhor de alguns anos para cá. Surgiram no mercado as agências e serviços de fact-checking (verificação de fatos, em tradução livre). Brooks Jackson era um jornalista americano que trabalhava na CNN em Washington, DC. Seu chefe lhe pediu que fizesse uma checagem das notícias políticas na reeleição de George Bush pai. Passou, então, a fazer um acompanhamento das que estavam sendo divulgadas na época. Jackson conferia a cada uma delas um V (de verdadeiro) ou um F (de falso). O sucesso foi de tal ordem que permitiu o nascimento do Ad Police, a primeira plataforma de fact-checking em televisão que fazia uso dos Vs e dos Fs para separar o joio do trigo. Pouco depois, em 2003, Brooks Jackson criou a página www.factcheck.org, ativa até hoje e muito consultada por usuários no mundo todo.
Pouco depois, em 2007, houve novo avanço com a criação de uma nova métrica, o truth-o-meter (o verdadômetro, medidor do grau de verdade de um fato ou notícia), por iniciativa de outro jornalista, Bill Adair, vencedor do prêmio Pulitzer em 2009. A boa notícia é que passamos a ter um instrumento de verificação da verdade bem mais sofisticado, aquele que é capaz de peneirar as inverdades parciais nas entrelinhas. Mesmo no Brasil, já temos empresas que atuam nessa área para evitar a compra de gato por lebre. Em 2014, surgiu um blog. Das 374 frases ditas por todos os candidatos a presidente, 48% veiculavam algum tipo de desinformação ou até mesmo informação de má qualidade. Temos ainda o Truco, da Agência Pública, e outra chamada Aos Fatos. E ainda a Agência Lupa, pioneira na venda de verificação da verdade no Brasil. A Lupa é membro da International Fact-checking Network.
Vejamos agora o que acontece em matéria de contar mentiras com os presidentes Trump e Lula, que, pelo jeito, como veremos, são confrades da mesma irmandade na luta a favor da mentira na política. Nos EUA, existe uma longa tradição de o presidente fazer uma prestação anual de contas ao Congresso sobre a economia: o que seu governo fez ao longo daquele ano que passou, no caso 2025 (Presidential address to the USA Congress - 2025). É algo que sobrou da tradição parlamentarista inglesa, onde a prestação de contas do Primeiro-Ministro ao Parlamento é semanal — vale dizer, bem mais eficaz. Desta vez, Trump surpreendeu a mídia americana pela avalanche de mentiras ditas ao bater de frente com os fatos e os números. Uma das afirmações mais bombásticas foi a de que teria herdado uma catástrofe econômica de Biden, seu antecessor. Na verdade, as estatísticas oficiais do governo americano nos informam que o país vinha crescendo entre 2% e quase 3% no final de 2024.
O FMI (Fundo Monetário Internacional) estimou que os EUA cresceram mais em 2024 do que qualquer outra nação do G7. Em matéria de preços crescentes, Trump disse que o país sofreu a pior inflação dos últimos 48 anos. Na verdade, o fato concreto foi que a inflação de 9,8% em 2022 resultou da pandemia da Covid, tendo depois caído para 3% na época em que Trump tomou posse pela segunda vez. Não satisfeito, Trump disse ainda que o Ministério da Eficiência Econômica detectou bilhões de dólares de fraudes nas contas do governo anterior. Nada disso foi constatado por dados oficiais americanos que confirmassem tal acusação. Mencionou ainda suas iniciativas em prol da paz. Não obstante, o que se observa é um governo em que a guerra continua com maior ou menor intensidade. Internamente, trata-se de um governo que vem batendo recordes de rejeição em reiteradas pesquisas.
Nessa questão de mentiras seriais, Trump e Lula estão de mãos dadas, não obstante as diferenças políticas que os separam. Em entrevista dada a jornalistas nos últimos meses, Lula conseguiu proferir a seguinte pérola: “Nunca houve rombo fiscal em meu governo”. E ele estava se referindo a este terceiro mandato. No passado, em mandato anterior, ele até teve o cuidado de adotar medidas para manter sob controle a dívida pública. Mas, agora, economistas sérios vêm denunciando o déficit público bilionário do governo Lula em cada um de seus três primeiros anos deste mandato. Armínio Fraga classificou a situação fiscal como desastrosa. Disse mais: Lula "chutou o pau da barraca" em matéria de contas públicas, e alertou sobre os riscos de uma recessão para 2027. De modo similar a Trump, sua rejeição também vem crescendo.Moral da história: a mentira tem perna curta, mas são os países, lá e cá, que acabam pagando a conta.