Gastão Reis, colunista de O DIA divulgação

Quando comparamos o desempenho do agronegócio brasileiro com a indústria de transformação nacional, surpreende o fato de se ter feito a coisa certa no agronegócio, mas não no caso da indústria. Para enquadrar o tema, um breve retrospecto da indústria manufatureira no plano internacional permite ver a questão de modo mais amplo.
Entre 2000 e 2017, o valor dos produtos manufaturados teve um salto de 6,3 trilhões para 13,2 trilhões de dólares. Mais que dobrou. No Brasil, de 2008 a 2014, de acordo com o IBGE, a participação dos manufaturados caiu de 16,5% para 10,9%, uma queda brutal de quase seis pontos percentuais em apenas seis anos. Em 2024, continua na mesma: 10,8%!
O Brasil fez feio mesmo em sua órbita regional. México, Argentina e Venezuela resguardaram a participação de suas indústrias em seus PIBs, respectivamente, em 17,8%, 15,3% e 13,5%. É fato que a contribuição do setor manufatureiro para a produção econômica mundial, com base em estatísticas nacionais uniformizadas pelas Nações Unidas, era de 25% em 1970, tendo declinado para 16% em 2017. No caso brasileiro mostrado acima, o mergulho foi mais fundo ainda: 10,9%, em 2014.
No plano internacional, o mercado de ações refletiu a queda, valorizando mais as empresas de serviço em face das maiores empresas manufatureiras. Em 2019, o Facebook tinha um valor de mercado de 575 bilhões de dólares, ao passo que a Toyota, maior produtora de carros de passeio do mundo, atingia um valor em torno de um terço do Facebook. Mas é fundamental ter em mente que a indústria manufatureira continua sendo muito importante para a saúde econômica de um país. E a razão é muito simples: nenhum outro setor gera tantos empregos bem remunerados. O Facebook, em 2019, empregava 43 mil pessoas, ao passo que a Toyota batia na casa dos 370 mil no ano fiscal de 2019, quase 9 vezes mais. Na Europa, a SAP, maior fabricante de software, valia cerca de 60% mais do que a Airbus, maior fabricante de jatos do continente.
Não obstante a queda de participação no PIB, as quatro maiores economias do mundo continuam sendo as quatro maiores potências manufatureiras. Em 2018, responderam por 60% da produção mundial do setor. China, com 30%; EUA, com cerca de 17%; seguidas de Alemanha e Japão. Interessante é que o setor manufatureiro difere muito em termos de contribuição ao PIB: 29% na China; 21% no Japão e na Alemanha; e apenas 12% nos EUA. Já em termos per capita, a classificação é a seguinte, em 2018: Alemanha com USD 10.800; Japão com USD 7.900; EUA com USD 6.800 e a China com apenas USD 2.900.
Os dados acima confirmam a importância crítica da produção manufatureira no plano mundial, mesmo com a queda na sua fatia no PIB. O caso brasileiro é único no mundo, exibindo uma espécie de esquizofrenia em matéria de política econômica acertada para o agronegócio e errada no caso da indústria de transformação. A raiz do problema reside na carga tributária absorvida por cada setor: apenas 6% no agronegócio, e de mais de 45% na indústria ao longo de décadas. A desindustrialização foi obra, em boa medida, da inconsequência da política tributária definida para cada setor.
Por que tamanha diferença na carga tributária de cada setor? A razão básica está na estratégia política adotada pelo agronegócio e na ingenuidade do setor industrial na defesa de seus interesses, onde não havia peso político para frear a golodice do governo em matéria de extração tributária. O agronegócio, e não é de hoje, tem uma bancada de 200 deputados federais que se reúne toda terça-feira na defesa de seus interesses, mantendo a carga nos 6% já mencionados. A indústria, sem peso político no Congresso, perdeu quase metade do que produzia para pagar impostos. A única redução ocorrida foi por iniciativa do ministro Paulo Guedes, que a diminuiu para cerca de 32%.
Mas nem tudo está tão sombrio no caminhar da indústria de transformação brasileira. Tive a oportunidade de ouvir o presidente da CNI – Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, em evento ocorrido na FIRJAN - Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, em 14/08/2026. E também na excelente entrevista dada por ele a Marcio Gomes da CNN, em Nova York (link: share.google).
Desde o início, ficou claro que se tratava de uma pessoa articulada e muito bem informada quanto às medidas necessárias para reconfigurar a imagem da indústria junto à população e redinamizar sua participação no PIB nacional. Ele teve o cuidado de buscar apoio sólido na McKinsey, renomada consultoria internacional, para não dar passos em falso no objetivo de modernizar a indústria nacional e se livrar de continuar estacionado naqueles (quase) 11% de participação no PIB, já há cerca de 10 anos, bem abaixo da média mundial de 16%, segundo dados comparáveis da ONU.
Em seguida, ele mencionou as vantagens de usar a computação quântica, que vai muito além do que um supercomputador tradicional pode fazer. Trata-se de uma área avançada da ciência que usa as leis da física quântica para processar informações numa velocidade vertiginosa. É capaz de resolver problemas e gerar soluções que levariam muitos anos em bases tradicionais.
O ponto alto da palestra dele na FIRJAN foi quando elogiou o que vem acontecendo no agronegócio, que tem tido a capacidade de incorporar técnicas de ponta na agricultura, sem defasagem em relação ao resto do mundo. Mas a situação na indústria é bem diferente. Sofremos mesmo um processo de desindustrialização. O “x” da questão, que não chegou a ser mencionado explicitamente na palestra do presidente da CNI, estava implícito: a baixa carga tributária do agronegócio liberou grande volume de recursos para investimento na modernização do setor, o que não ocorreu na indústria. O agronegócio se livrou da sina da indústria de ter que entregar ao governo, sob a forma de tributos, cerca de metade do que produzia ao longo de décadas, esvaziando sua capacidade de investir e de se modernizar. Foi a atuação política do agronegócio no Congresso que manteve sua carga em 6%, dever de casa que a indústria não conseguiu levar a bom termo. Mãos à obra.
Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Políticos: Você no controle”. Ou pelo link: youtube.com
Gastão Reis é economista e palestrante
Contato: gastaoreis2@gmail.com