Gastão ReisArte Gerada por IA

Um amigo meu, em viagem ao Chile, enviou-me um Zap no qual dizia, a respeito de Lula, que só faltava a ele jogar dinheiro de helicóptero. Trata-se da melhor metáfora para caracterizar o atual desespero de Lula & (má) Cia. do PT. O "Lulinha paz e amor" foi esquecido. Voltou o Lula "Guerra sem Paz", a ponto de ameaçar, em comício em praça pública, o governador eleito em primeiro turno, afirmando que Minas Gerais vai ficar um "cemitério de obras paralisadas" se ele, Lula, não for eleito. A memória fraca de Lula omitiu-lhe o fato de que a vantagem em diversas pesquisas aponta para a vitória da oposição.

O conto do vigário de Lula tem raízes profundas no populismo, que volta a mostrar suas garras terríveis junto à credibilidade dos menos avisados, que se deixam levar por histórias da carochinha. Tarda a hora de acordarmos para o passo de cágado do Patropi nas últimas décadas de PIBs medíocres. A marcha lenta comanda o triste espetáculo de um país que se especializou em adotar políticas econômicas equivocadas há décadas.

É hora de ler e reler o livro “O Mito do Governo Grátis”, do economista Paulo Rabello de Castro (PRC), publicado em 2014 pela Edições de Janeiro. O subtítulo traz um alerta: “O mal das políticas econômicas ilusórias e as lições de 13 países para o Brasil mudar”. Logo abaixo vem a definição de governo grátis: aquele que promete distribuir vantagens e ganhos para todos, sem custos para ninguém; um fenômeno político que está na raiz do declínio do vigor da economia brasileira e na estagnação de seu processo produtivo.

Não é possível, em poucas páginas, expor em detalhes essa obra fundamental, mas é possível lançar mão do capítulo 4, cujo título — “Brasil: sete pecados capitais do governo grátis” — nos fornece um roteiro a seguir, fazendo um contraponto com as crenças lulistas e do PT de que benesses podem ser distribuídas sem custos para a população. Esta situação nos faz relembrar o humorista português Raul Solnado sobre a Revolução dos Cravos: “O florista mandou a conta”. No nosso caso, a conta é inflação alta e baixo crescimento.

Antes, porém, de passar Lula pelo polígrafo dos sete pecados capitais do governo grátis — que ele negaria —, cabe registrar alguns fatos apontados por PRC. Os 855 quilômetros da Ferrovia Norte-Sul, que custaram bilhões ao país, foram construídos com trilhos de baixa qualidade importados da China. As obras de transposição do rio São Francisco foram iniciadas antes de o projeto executivo ter sido aprovado, um caso clássico que leva à elevação brutal de custos. O caso emblemático do desperdício foi a compra da refinaria de Pasadena, no Texas. A Petrobras pagou US$ 350 milhões por 50% da refinaria, valor muito superior aos US$ 42,5 milhões pagos pela empresa belga Astra Oil pela refinaria inteira.

Vamos agora ao polígrafo para tirar a limpo se Lula passaria incólume sem cometer os sete pecados capitais do governo grátis, examinando um a um.

Primeiro pecado: Investimentos empacados. PRC resume bem o drama: “Os governos do Plano Real substituíram as emissões inflacionárias pelas tributações deflacionárias no financiamento da gastança nacional. Só que os gastos públicos, sempre crescentes, nunca se traduziram em maior investimento”. Os governos Lula se caracterizaram pelo baixo investimento. Logo, cometeu o primeiro pecado, embora trombeteie o contrário.

Segundo pecado: Desprezo pela Petrobras. A empresa tem, sem dúvida, um histórico de sucesso — sempre mais fácil quando se trata de petróleo. Mas não há como negar seu uso político no combate à inflação. Trocado em miúdos: reajustes de preços da gasolina e do diesel abaixo da elevação dos preços do petróleo e do próprio etanol, que perdeu competitividade no período Lula-Dilma. Lula pecou mortalmente aqui também.

Terceiro pecado: Apagaram o setor elétrico. O setor elétrico sob influência estatal direta foi o que mais sofreu em termos de baixo investimento. Pequenos apagões ocorreram desde 2010 por atraso crônico de investimento no setor. Houve o mesmo problema de reajustes de tarifas abaixo do necessário para controlar artificialmente a inflação. Petrobras e Eletrobras respondiam juntas por cerca de 20% da formação bruta de capital fixo (investimento) do país. Mais uma vez, um pecado capital cometido no período Lula-Dilma.

Quarto pecado: Indústria mal defendida. Políticas equivocadas para a indústria levaram ao seu brutal encolhimento entre 2008 e 2014, período em que sua participação no PIB caiu de 16,5% para 10,9% — uma perda de quase um ponto percentual a cada ano, sem conseguir se recuperar plenamente até hoje. O câmbio apreciado, favorecendo os importados, ajudava a segurar a inflação e a inflar temporariamente o poder aquisitivo dos salários. Contudo, as medidas realmente necessárias para elevar a competitividade e a produtividade da indústria não foram tomadas. Lula continuou de mãos dadas com o populismo do governo grátis.

Quinto pecado: Obsessão por superávit primário e juros altos. O pecado mortal aqui foi a geração continuada de receitas via impostos para pagar o serviço da dívida com juros na estratosfera. Salta aos olhos a origem do subinvestimento ao longo de décadas, castrador de taxas de crescimento bem mais elevadas. Mais um pecado capital de Lula ao acreditar no governo grátis.

Sexto e sétimo pecados: Inflação resistente e o fim do crescimento. No período anterior ao Plano Real de 1994, a elevada e resistente inflação e o crescimento pífio davam as cartas. Na verdade, muito pouco mudou estruturalmente nas últimas décadas. A marcha lenta continua a comandar a festa. Os quase 20 anos no poder da trinca Lula-Dilma-PT reforçam as mazelas do mito do governo grátis. O polígrafo, pela sétima vez, acusou as contradições de Lula.

Populismo e governo grátis são irmãos gêmeos para a infelicidade geral das nações. Lula acredita não só em governo grátis, mas também em governo mágico. Mentiras, corrupção e falta de caráter não podem ser a base do nosso almejado futuro. Mãos à obra.
Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Políticos: Você no comando”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=pB8MRrtGRPs
Gastão Reis é economista, palestrante e escritor
Contato: gastaoreis2@gmail.com