O batuque da chuva batendo impiedosamente no chão e os uivos do vento que castigava as parreiras, as três aqui do meu quintal, silenciaram por algum tempo o som da rua (dos motores, buzinas...). E, sem sair do lugar, voltei por um instante para a Água Santa que conheci ainda como a estância das minhas férias de menino.
Vosmecê pode até não saber, mas aqui, amigo, era tudo roça. Poucas ruas com calçamento. Ah, e tinha as vendinhas nas esquinas, com peças de carne seca e bacalhau pendurados nas portas.
Os barulhos eram outros, das águas da Serra do Preto Forro, e tinha aquele som bem conhecido do trote que anunciava a chegada do Tabeco. Um sujeito alto, magro, branco, que morava no alto da Serra, numa área invadida, e tinha uns 60 anos. Ele usava um chapéu grande e botinas. Carregava um chicote e cigarro de palha na boca. Tabeco, todas as manhãs vinha chegando, montado em seu cavalo, puxando a mula carregada de laranjas, que vendia na rua. Era uma figura.
Já a carroça, puxada a burro, tinha a mulher que vendia leite fresquinho diariamente. O amolador de facas e tesouras aparecia, mensalmente. A região era coalhada de chácaras. As que minha tia-avó frequentava eram a do seu Francisco e do seu Manoel. E era tudo anotado no livro do fiado.
Pertinho, tinha o hospital (existe até hoje) que mantinha internados os doentes mentais. E que perambulavam pelas ruas, uniformizados, pedindo cigarros e cachaça. Às vezes, até comida.
Anos 50, apareceram umas caminhonetes, fazendo a ligação de passageiros dos trens, entre o Engenho de Dentro e Largo do Abaixo - onde hoje existe o Presídio Ary Franco.
Com o tempo outros barulhos foram ganhando espaço e se tornando rotina. Como o da Pedreira Santa Luzia, que mais tarde viria a fornecer as pedras para as construções da Ponte Rio-Niterói e o Metrô. As explosões, às 7, 11 e 17 horas, diariamente, eram verdadeiros relógios. Quando os deslocamentos de ar quebravam vidraças dos moradores, era só chegar por lá. O pagamento dos prejuízos era feito na hora.
Nos Verões, as janelas das casas ficavam abertas nas noites quase frescas.
Todos se conheciam. A maioria, por apelidos carinhosos. Todos precedidos pelos "seu fulano" ou "dona beltrano". Carnaval? Só na Cidade ou na Chave de Ouro. Aliás, a padaria que emprestou o nome ao local fechou tem uns 3 meses.
As "peladas" de futebol aconteciam aos domingos nas manhãs. Ih, eram mais de cinco campinhos, de terra batida. Nada de tênis ou chuteiras. Todos descalços e com calças curtas.
Manhãs de domingos também, a maioria dos vizinhos se encontravam nas duas igrejas católicas da região. E os programas radiofônicos? Ora, Rádio Nacional, dia e noite. Dava eco devido ao número de ouvintes nas residências.
O padeiro trazia o pão nosso de cada dia e o livro dos "penduras" Ele chegava, percorrendo as ruas, empurrando uma velha bicicleta. Tinha horário fixo.
Mas, de repente, o barulho da chuva é cortado pelo do carro que, agora, passa vagaroso, trazendo para dentro do meu quintal, e dos ouvidos, o volume alto, latejante e inconfundível do funk que sai da caixa de som instalada na mala do veículo. Isso para vender ovos.

Hoje em dia, temos a total poluição sonora. Até helicópteros passam voando baixinho. Vizinhos abusam do som, dia e noite. Bem, já uso protetor de ouvidos. A alegria chega com os cantos dos pássaros. Ainda bem que emitem sons altos. Amém.