Morreu o vizinho conhecido pelo apelido 'Na Cabeça'. O cidadão, já aposentado, tinha a doença de alcoolismo. Sujeito pacato, bom de conversa, não era mal-educado e não incomodava ninguém. E, sabe-se lá a razão, tinha um algo especial: mesmo nas piores alucinações etílicas, fornecia palpites, diários, de apostas para os amigos. Bons palpites. Isso porque , era atormentado com visões de animais. Alguns, até entrava em luta corporal. Dizia que os bichos o atacavam, porém nunca chegou por essas bandas, lanhado ou machucado.
De qualquer maneira, uma coisa é certa. Quase sempre, ou sempre, o sonho/visão era palpite do bom para a jogatina. Daí o apelido de 'Na Cabeça'. É certo que ele vivia só na casa de herança da falecida esposa, sem filhos e sem parentes. E assim teve também um triste fim, que não foi mais solitário porque os amigos de fezinha, e de copo, não o abandonaram no final. Aliás, fizeram uma vaquinha das boas para emplacar um sepultamento digno de rei.
Foi um gurufim inesquecível na área. Bebidas, comidinhas, cantorias, garçom de luvas e bandeja e até orações. Amigos, acreditem: a sala do velório e o cortejo final atraiu muita gente. Na hora de baixar a sepultura, a cantoria da velha guarda "Vou deixar saudades" emoldurou a cena.
Foi uma festa (fúnebre, claro) tão bacana que até mesmo os acompanhantes de outros enterros se juntaram ao do Na Cabeça. E, creiam, eu vi quando vizinho colocou garrafa de aguardente no caixão. Foi um pouquinho antes da prece que antecedeu o cortejo, da capela mortuária até aquele ponto do campo santo. Prometi que jamais revelaria a identidade do homem que praticou o ato.
Foi uma festa (fúnebre, claro) tão bacana que até mesmo os acompanhantes de outros enterros se juntaram ao do Na Cabeça. E, creiam, eu vi quando vizinho colocou garrafa de aguardente no caixão. Foi um pouquinho antes da prece que antecedeu o cortejo, da capela mortuária até aquele ponto do campo santo. Prometi que jamais revelaria a identidade do homem que praticou o ato.
No regresso até ao Principado da Água Santa, o bar, pertinho do presídio, ficou cheio. Como no gurufim, a vizinhança voltou a 'beber o defunto'. Céus, as águas, não tão santas, rolaram a tarde inteira.
A morte do vizinho foi um abalo geral. Afinal, além do amigo, muitos ali perderam o melhor palpiteiro de apostas de toda região. A lembrança de seu dom fez com que, um dos mais sóbrios, erguesse a voz, em meio ao burburinho de músicas, piadas e lembranças sobre o falecido, para perguntar:
- Um minuto de atenção, por favor, porque o assunto é urgente!
A morte do vizinho foi um abalo geral. Afinal, além do amigo, muitos ali perderam o melhor palpiteiro de apostas de toda região. A lembrança de seu dom fez com que, um dos mais sóbrios, erguesse a voz, em meio ao burburinho de músicas, piadas e lembranças sobre o falecido, para perguntar:
- Um minuto de atenção, por favor, porque o assunto é urgente!
Quando enfim veio o silencio e lhe foi dada a palavra, meio emocionado, o amigo perguntou à turma:
- Alguém anotou o número da sepultura?
- Alguém anotou o número da sepultura?
Silêncio profundo no ambiente. Uns 20 segundos depois, a triste constatação. Ninguém havia tomado nota.
Ih, virou discussão generalizada.
Ih, virou discussão generalizada.
Depois de mais algumas rodadas de cervejas, azeitonas e bolinhos de batatalhau, foi formada a turma que voltaria ao cemitério. Nada de telefonar para a secretaria do campo santo. O grupo destacado para voltar ao local do sepultamento, para anotar o número da sepultura até cumpriu o combinado.
Mas, diferentemente de todos os palpites dados em vida, o derradeiro não funcionou. Ninguém ganhou. Cismado, o Adilsinho decidiu retornar ao cemitério para checar. Na mosca: de tão bêbados, os amigos anotaram o número da sepultura errada. Até mesmo na hora de baixar ao túmulo, 'Na Cabeça' descansou sobre o número vencedor!

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