Na semana que passou um amigo de infância, o Carlinhos, apareceu de surpresa para engrossar o time de anciões aqui do Principado de Água Santa. Conheço o sujeito do tempo em que vivíamos na Vila Fernandes, pelas bandas de São Cristóvão. A chegada trouxe de volta a nostalgia da infância do século passado, quando não havia celulares e as brincadeiras eram vividas, e não apenas visualizadas.
Um tempo, meus amigos, que o chão era a rua e os espaços, muitas vezes desenhados com giz para marcar, não limites, mas a brincadeira. Juntando quadrados em forma de cruz com um semicírculo no extremo, nós tínhamos a amarelinha. Jogávamos uma pedra em cada um dos quadrados e pulávamos até lá com apenas um pé. Ganhava quem chegasse ao final, sem pisar na linha.
Com outros riscos no chão, o espaço crescia e virava o campo de queimado. Jogo disputado por dois times que lançavam bolas uns contra os outros. Se a bola tocasse no jogador e caísse, ele era obrigado a deixar a quadra. Ganhava o time que sobrevivesse.
Ibiapina lembrou das competições de bola de gude, jogo de botão e pião em que passávamos horas agachados. E sempre juntava torcidas dos dois lados.
O papo ficou animado e mudamos do quintal para a mesa da cozinha, onde um bolo de fubá feito na hora pela patroa, trouxe de volta o aroma das tardes.
— Brincar era sinônimo de diversão e exercício — defendeu Fred. Brincando, aprendíamos a respeitar as regras, a perder e a ganhar, ríamos uns com os outros e ainda ficávamos em boa forma física.
Dono de oficina, Júlio lembrou dois brinquedos que saíram das peças de automóveis: os carrinhos de rolimã e as boias, improvisadas com as velhas câmaras de pneus. Isso virou febre nas praias. E quantas  brincadeiras eram feitas com elástico. Ou mesmo as que só exigiam um par de pernas: pique-cola, pique-esconde, pique-bandeira. E aquela de namorar: quem nunca pediu a maçã (opção do beijo) na brincadeira pera, uva ou maçã?
Carlinhos me lembrou das festas que nossas famílias faziam lá na Vila Fernandes. A junina era a minha favorita: tinha fogueira, barracas, danças e até casamento. A animação levou o grupo a criar o dia da infância perdida. Combinamos de fazer um piquenique com os netos no mais tradicional ponto de encontro das famílias do passado: a Quinta da Boa Vista.
Um programa completo, com direito a visita ao Zoológico (já reabriu depois que descobriram um caso de gripe aviária?), e brincadeiras nos gramados bem tratados da Quinta. Mas se chover, também está combinada a visita ao Museu Nacional.
Eu adorava o esqueleto daquele dinossauro gigante que tinha na entrada. Pena que boa parte do acervo se perdeu no incêndio. Lembro que nossas avós brigavam com a gente para largar a televisão:
— Desliga essa tevê, levanta daí e vai para rua brincar — elas diziam!
Imagina o que Beatriz (minha avó) diria se visse o neto o dia inteiro com a cara grudada no celular e desconectado da vida?
Quem sabe, um dia, esse aparelho não volte a ser apenas uma forma de a gente se comunicar para combinar de se ver pessoalmente? Olho no olho, de preferência.