Enquanto passava o café, percebi que era observado, não por um, mas dois pares de olhos. Eram as gatas que vivem conosco na caverna. Primeiro pensei: foram atraídas pelo aroma do café, mas quase imediatamente me lembrei que foram as duas que me despertaram. Sim, quem tem sabe disso: gatos são uma espécie de despertador biológico de cabeceira. Não importa quão profundo é o sono, eles dão um jeito de tirar você dele.
E elas não estavam na cozinha apenas me observando. Faziam questão que eu percebesse que tinham os olhos em mim. Ou seja, larguei a produção do café pra priorizar o dejejum das moças.
É como diz o ditado, “malandro é o gato que já nasce de bigode.”
Curioso. Quase sempre que associam um bicho ao bicho homem é pra derrubar, ofender. Fazem isso quando chamam alguém de burro, de vaca, de piranha.... Nem mesmo o cachorro que, dizem, é o melhor amigo do homem, é poupado: seu nome está associado ao oposto da amizade: ele é o canalha no dicionário do agressor.
Isso sem falar do caso do macaco, que aí a ofensa é crime racial, e ainda assim, quase toda semana assistimos a episódios lamentáveis protagonizados por essa escória involutiva da raça humana: o preconceituoso.
Mas, de todos os bichos que me lembro, só o gato mesmo, consegue se desvencilhar das malditas pechas que colam em certos bichos como carrapatos. E digo carrapato, não pra ofende-los. Porque colam mesmo na pele.
Não sei se é porque, dizem, têm sete vidas, esses felinos quase domésticos estão associados a inúmeras variantes.
Por exemplo, quando se trata da beleza humana, eles são gatos e gatas. Já os ladrões são chamados de gatunos. Se alguém se dá realmente bem, então diz-se que “deu o pulo do gato”.
Se o sujeito é dorminhoco então é “gato de armazém”. E, se é malandro, e costuma delegar aos outros o trabalho que deveria ele mesmo fazer, então o indivíduo é um “gato mestre”.
Até pra nome de cantora já serviram; amigo pode não saber quem foi Marisa Vértulo Brandão, mas, com certeza, já ouviu a voz suave da cantora e compositora Marisa Gata Mansa.
Mas algumas das expressões estão realmente associadas às manias desses felinos. “A curiosidade matou o gato.” Essa então, quantos casos de gatos que caem da janela porque estavam tentando ver o que acontecia na casa do vizinho ou na rua?
Mas, nesses casos, quando sobrevivem, não voltam a cometer o mesmo erro. Daí a frase famosa “gato escaldado sente medo de água fria”.
E, por extinto, se fazem confundir. À noite, todos os gatos são pardos.
É isso aí, os gatos são belos, são espertos, e parecem mesmo viver pra seus humanos. Mas é preciso conquistá-los. Todos os dias.
A Yune, uma das minhas gatas, é prova disso. Ela vivia na propriedade aqui ao lado, onde a proprietária não permitia que seus felinos entrassem em casa. Como todo gato, Yune estava sempre bisbilhotando a vida aqui desse lado. E percebeu que os gatos que aqui viviam tinham vida de reis. Não demorou pra fazer amizade com Fred, hoje já falecido. Certa noite, despertei com os dois no meu quarto. Foram inúmeras as tentativas da vizinha de resgatar a felina. Mas, em todas as vezes, a Yune voltou pra cá.
E ainda há quem pense que gatos têm donos...
Pra esses incautos, alerto: Não compre gato por lebre!