A Copa do Mundo já tem um ídolo: o Vozinha! O goleiro do pequeno e estreante país de Cabo Verde conseguiu parar a gigante Espanha, uma das seleções favoritas ao título. E Vozinha não impressionou só pelo número de gols que conseguiu evitar. Com certeza, o apelido contribuiu para alavancar a empatia que Josimar José Évora Dias (esse é o nome dele) conquistou em todo o planeta. Principalmente quando foi anunciada a razão: criado pela avó, era para ela que ele corria toda vez que se via encrencado. Por isso, os outros meninos da rua, o chamavam de Vozinha. Mas o que era para ser apenas gozação, implicância, com os anos virou orgulho.
E assim Vozinha virou também o assunto da reunião semanal dos veteranos do Principado de Água Santa.

Afinal, quem nunca experimentou um apelido na infância ou mesmo depois? Aliás, a história da vó de Vozinha me fez lembrar da minha: a doce Beatriz. Eu ainda era garoto quando comecei a trabalhar no Jornal Última Hora. Naqueles tempos, o dono do jornal, Samuel Weiner era inimigo do Carlos Lacerda, que se tornou governador da Guanabara. E de vez em quando a polícia do Lacerda cercava a redação do jornal. Numa das vezes, a confusão armada, ninguém podia entrar ou sair pela porta principal, o que dificultava inclusive o trabalho dos fotógrafos que estavam registrando a confusão.

Pra ajudar e, claro, ficar bem na fita com a chefia, me ofereci para levar e buscar os filmes (aquelas tiras plásticas flexíveis cobertas por compostos químicos sensíveis à luz que depois precisavam ser revelados) das máquinas analógicas.

Conhecedor da região e moleque, eu saía pelos fundos do prédio, pulava o muro para o vizinho e de lá alcançava a rua por trás. Nós morávamos na época ali perto, na Rua São Cristóvão. Ao saber do tumulto minha avó correu para o local e gritava para a polícia: “deixem-me pegar o meu netinho que trabalha aí, ele é o cordão do meu coração!”

Entrei em pânico: me vi sendo arrastado para casa pela velhinha, sob as gargalhadas de policiais e repórteres. Para não ser flagrado por Beatriz, tive que andar agachado no meio da confusão. Escapei da minha avó, mas não da brincadeira. Por um bom tempo, os colegas passaram a me chamar de “corda do meu coração”.

Enquanto acendia a brasa do carvão, o Bira lembrou de um antigo fotógrafo amigo nosso que chegou a morar uns tempos por aqui:
— Qual era mesma a razão para o apelido do Joel Cruz Credo?
— A falta de sorte. O amigo parecia atrair coisa ruim: notícias, problemas pessoais, até mesmo de saúde.
O Ronaldo, cujo nome Braga parece até pseudônimo, tinha na juventude um amigo conhecido por “João Podes-Crer”.

Isso porque era tão maluco, que era difícil acreditar em suas ações. Certa vez, do nada, pulou ao mar da Baía de Guanabara, do alto da barca que fazia a travessia Rio-Niterói. Ao ver a situação, Ronaldo entrou na brincadeira:
— Homem ao mar, homem ao mar!! — anunciou!

Lembramos também dos apelidos dos fora-da-lei daqueles tempos: tinha o Mata-rindo — esse, eu diria, autoexplicativo.

Mas tinha também o Toco-de-vela. Eu já comentei aqui na coluna sobre ele. Era um policial matador, que levava dezenas de tocos de vela no paletó para o trabalho. Assim, quando executava uma vítima, acendia uma vela do lado. Se o vento apagasse, era porque aquela alma não tinha salvação. A maioria das chamas o vento apagava...