Churrasco e sopão estão manjados. Melhor apostar no cozido à portuguesa, feito no fogão de lenha, saboreando um vinho no lugar da cerveja — pensei.
Até o momento, o melhor do campeonato mundial de futebol tinha sido a tevê de 50 polegadas que o Fred trouxe aqui para o Principado de Água Santa. Até mesmo as jogadas mais desastradas ficaram parecendo coisa de bamba.
Época chuvosa, o telão foi instalado na varanda, que é coberta por conta do perigo das chuvas. Então, a reunião não é mais ao ar livre, mas ao ar coberto e encanado. E nada de banquinhos para assistirmos aos jogos: temos agora confortáveis poltronas. É, prezamos muito pelo conforto.
O Júlio deu a ideia de o sopão ser batizado com vinho, à moda do interior: a mistura do caldo do cozidão com o vinho português, de preferência, é uma maravilha. Todo mundo suando em pleno inverno.
E por que não o famoso quentão para homenagear a nossa querida moda caipira? Fogueira, sopão e vinho tinto ou verde misturados ajudam a aquecer a alma! A proposta nos fez desistir do cozido.
O assunto da reunião de quarta-feira, como não poderia deixar de ser, foi a Copa do Mundo. Mas, como alertou o Júlio, seguido de aplausos dos outros conselheiros, com o término do campeonato virá a costumeira distribuição dos santinhos de candidatos. Haja limpeza de rua. Sim, porque, afinal, a campanha eleitoral deste ano está batendo à porta. E se preparem, pois nunca tivemos tantos "santos" concorrendo entre si, e todos eles distribuindo santinhos de todas as cores, tamanhos e materiais.
Aliás, esse é daqueles anos cheios de eventos: tivemos também o show da Shakira e, já, já, teremos o Rock in Rio. E todos aqueles artistas, programações, acampamentos em portas de hotéis, maratonas de fãs cantando o dia inteiro a playlist dos ídolos etc.
Diante de tanto movimento na cidade, nós aqui do Principado estamos pensando em organizar um retiro quase espiritual de recuperação das energias. Das energias alheias, porque nós mesmos não fazemos parte nem das marchas das campanhas, nem das maratonas dos fãs-clubes musicais.
Corre o risco de tudo isso ainda vir acompanhado pelo El Niño, o tal fenômeno que não é o Ronaldo, mas vem causando mais do que o ídolo nos seus melhores anos.
Mas, voltando à reunião de quarta-feira, dia da vitória brasileira, trabalhamos desde cedo para ajudar a seleção canarinho. Para evitar problemas na defesa, decidimos eliminar o frango do churrasco. Afinal, eu não gosto de frango nem na mesa, nem no gol do Brasil. E para garantir que o dia seria de festa, Fred, o suíço mais carioca que eu conheço, trouxe para a reunião do Principado uma comida com nome estranho: stovies.
— Mas que diabo é isso? — perguntou, desconfiado, Ibiapina.
— É uma sopa escocesa, feita com batatas, cebolas e gordura de carne, colocadas em camadas em uma panela e cozidas lentamente até que as batatas se transformem em um purê cremoso com pedaços macios de carne — explicou Fred, sendo interrompido pela gargalhada dos conselheiros.
— Quer dizer que a boa e velha sopa do Cavalo Cansado tem esse nome na Escócia? Pensei que por lá o nome fosse algo como “tired horse” — questionei, gastando no inglês.
Diante dos três a zero, encerramos a noite com boas doses de um escocês 12 anos legítimo. E sem gelo! Como combinado na semana passada!

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