Quem nunca teve uma mania? Eu sou de um tempo em que as pessoas tinham manias ou esquecimentos; hoje, apresentam condições médicas e psiquiátricas. Mas naquele tempo ninguém sabia disso. É para homenagear esses amigos antigos, os "malucos beleza", que escrevo estas mal traçadas linhas.
Eu tinha um colega de trabalho, meu compadre, que tinha toda sorte de mania. A gente dizia que ele era sócio-atleta do Pinel. Entre seus hábitos, estava o de adentrar a redação falando bem alto para todo mundo ouvir e entender: “Eu não sou maluco não!”. Era quase como um cartão de apresentação.
Certa vez, em plena redação, ele me pediu ajuda para tomar sua medicação: um calmante forte que tomava em gotas. Mas, naquele dia, cismou de reduzir a dose.
— Luar, me ajuda a cortar uma gota ao meio?
E eu ia discutir? Disse a ele: "me dá uma tesoura que eu corto para você". E, claro, fingi que cortei. Ele tomou a medicação, mas, aparentemente, não fez efeito não.
Pois o malandro cismou de colar comigo, mudando até mesmo o horário de trabalho para ficar o dia todo na minha companhia. E ainda pegava uma carona de volta para casa. Dormia a viagem inteira e, quando eu parava em frente à casa dele, saía do carro, mas segurava a porta para pôr o assunto em dia, àquela hora da noite.
Teve um tempo em que ele realmente andou surtando e ficou sem condições de trabalho, mas não faltava um dia sequer. Ia até lá apenas para me acompanhar. Uma vez chegou à minha casa, em Água Santa, às 6h45, para que a gente pudesse ir junto para a redação!
E foi assim por muitos anos, até o dia seguinte à morte dele. Sim, porque cheguei bem cedo ao velório, com a capela ainda vazia. Apenas eu e ele. E não resisti. Acho que eu estava no automático, porque olhei para um lado e para o outro, apenas para me certificar de que éramos só nós dois, e perguntei: "vai meia gota de Rivotril aí?".
Outro amigo meu querido mora lá para as bandas do Leblon. Mas a mania dele é outra: é o rei da arrumação. Nos bares, quando almoçamos, ao final ele reúne os pratos e os copos para adiantar a tarefa do garçom. Para a mulher dele, trata-se de um típico caso de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mais conhecido pela sigla TOC, condição que descreve quem gosta de tudo muito arrumado e no lugar certo — do jeitinho que ele colocou.
Ele me contou que o dia em que mais trabalha é o dia da faxineira. É a mulher deixar o espaço para ele entrar e reorganizar tudo. E reclama sempre com a patroa:
— Ela mexeu na minha coleção de novo.
— Não mexeu não. Sua coleção de aviõezinhos está no lugar — responde sempre a mulher, provocando ainda mais o companheiro.
— Aviõezinhos? São espaçonaves da Frota Estelar da Federação Unida dos Planetas e de civilizações alienígenas — responde ele, um colecionador de Star Trek muito organizado.
Bem, no outro dia, o jeito do amigo acabou gerando uma situação inusitada. A faxineira tinha esquecido na casa uma bolsa com uma calça e uma camisa. No dia seguinte, ela passou por lá sem ter certeza se havia esquecido a sacola no serviço ou se a havia perdido. Não a encontrando, saiu de lá chorosa com a perda da roupa novíssima, que comprara antes de entrar em serviço.
Ao voltar para trabalhar na semana seguinte, qual foi a surpresa da faxineira ao puxar as roupas lavadas e secas do baú para passar a ferro: estavam lá a calça e a camisa, novíssimas e, agora, lavadíssimas.
O amigo continuou negando ter visto a bolsa: "O que eu vi foram duas peças de roupa fora do lugar para eu lavar!".

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