Quem nunca esteve em uma mesa na qual um tipo espertalhão, casquinha ou flopado (quebrado, na linguagem das redes sociais) não tenha tentado aplicar o golpe do “esqueci a carteira”? Pois é, com o advento do Pix, essa artimanha caiu em desuso. Hoje, muitos andam por aí carregando celulares descarregados ou fingindo que perderam o aparelho para tentar passar a vez na hora de pagar a conta.
Pois aqui na caverna, temos um velho conhecido que resolveu inovar. Os mais céticos entre nós andam dizendo que é o novo conto do vigário. No caso, o conto do amigo, que guarda a má fama de ser tão mão-fechada que cumprimenta a todos levantando o queixo.
Como não pode alegar que anda desprevenido – dinheiro, asseguro, o malandro tem, só não gosta de gastar –, ele inventou uma nova versão, uma espécie de pegada contrária do velho golpe da carteira ausente. Mas, antes de revelar aqui o segredo, em respeito à velha amizade e porque também não faço o gênero delator, vou usar um nome fictício para identificá-lo. Afinal, eu conto o milagre, mas não revelo o santo.
Vou chamá-lo pela alcunha fictícia de... Sérgio. Ele não sai de casa sem a carteira. Esteja certo. Mas leva dentro dela apenas uma nota de R$ 200, que apresenta sempre depois de tomar um único chope ou café.
— Tem troco?
E não adianta dizer que aceita cartão ou Pix.
— Infelizmente, não ando com cartão e tirei os aplicativos de banco por segurança.
Seguro mesmo está aquele dindim na carteira.
Segundo outro amigo nosso, que mora lá para as bandas de Laranjeiras, o recorde de desuso de uma mesma cédula foi de duas semanas. Imaginem que, nesse mundo de hoje, em que até para dar bom-dia morador de rua vem pedindo Pix, Sérgio conseguiu atravessar 14 dias só exibindo a sua nota de R$ 200 e seu sorriso largo no rosto esculpido em madeira legítima para conseguir que outro lhe bancasse os mimos.
Para que o golpe não falhe, ele revela para os mais íntimos, só marca encontros no início do expediente. Mas não o dele, o do estabelecimento comercial.
Não foi à toa que a artimanha já lhe rendeu o apelido de Mister M. Afinal, é o mago da pão-durice.
E de tanto os amigos zoarem: “Diga, Mister M, revele o segredo dessa magia!”, certa feita, depois de cinco chopes patrocinados pelos colegas de mesa, ele guardou a nota — que faz questão de exibir a cada chope — e tirou da cartola um segredo do passado...
Foi outro amigo, conhecido dos tempos em que Sérgio morava no também fictício bairro de Santa Teresa, quem o inspirou. Naquele tempo, em que o real valia uma nota de um dólar, o tal malandro aplicava o mesmo golpe, utilizando uma nota de R$ 50. Uau! Põe tempo nisso!
Mais um chope gratuito e Sérgio soltou, não os R$ 200, mas outro segredo: para a artimanha funcionar, a cédula tem que estar novinha, preservada. Por isso que, antes de sair de casa, o forreta faz questão de passar a ferro o seu amado e supervalorizado dinheirinho.