Luarlindo Ernesto é o autor da colunaArte O Dia
Não sei se foi influência do vento forte que retornou à região nesta semana, mas a notícia se espalhou feito rastilho de pólvora e foi difícil contê-la: a informação era de que o Principado é uma área de terras raras. Terras, não figuras, como sempre acreditei. A corrida aos imóveis foi rápida e rasteira, mas por aqui não há mais propriedades para alugar ou vender. Imediatamente, um vizinho acionou o outro, e a reunião dos veteranos do Principado de Água Santa foi antecipada.
Por um lado, essas notícias costumam provocar abalos sísmicos no mercado imobiliário, com aumentos vultuosos e depois quedas impressionantes, caso a informação não se confirme. Mas, para além da questão econômica, que tipo de vizinhança teríamos? De gente? Não. Provavelmente de escavadeiras.
— Enquanto atiçava o fogo da churrasqueira, Júlio aproveitou para jogar lenha na discussão:— Isso me lembra a corrida do ouro em Serra Pelada! Para quem nasceu depois de 1980, Serra Pelada foi o maior garimpo manual a céu aberto do mundo, localizado no município de Curionópolis, lá no estado do Pará. O ouro foi achado em 1979, na Fazenda Três Barras, e provocou uma corrida que transformou a região numa espécie de formigueiro com mais de 100 mil garimpeiros cavando a cratera à mão. Foi uma loucura. Foram extraídas dezenas de toneladas de ouro, com dezenas de milhares de pessoas trabalhando em condições extremas, e isso durou até 1992.
O cheirinho das primeiras levas de churrasco saindo da grelha atraiu mais amigos para a discussão. E, com eles, a cerveja gelada que faltava para animar a conversa.
— A situação está se repetindo agora na Amazônia com os garimpos ilegais atrás de metais raros. A nova corrida já atraiu até traficante de drogas — alertou Ibiapina.
— Isso sem levar em consideração o pato Donald Trump, que anda de olho nas nossas riquezas para fazer frente à sua guerra pelo domínio da tecnologia com a China — disparou Fred, o suíço, que além de construtor oficial de apetrechos domésticos, dá bons pitacos como nosso analista de relações internacionais.
Bem, seja quem for — garimpeiro, traficante ou enviado do Trump —, na caverna ninguém vai fazer buraco. Aliás, vou deixar a Chiquinha, essa cadela delirante que ataca as visitas como se fossem guloseimas, para cuidar do meu quintal.
Já estávamos antevendo o povo com enxadas, pás e picaretas nas costas, andando pelas calmas ruas aqui do Principado. Imaginamos até a proliferação de bares e lojinhas de “compro ouro” e a inevitável presença das meninas assanhadas em seus bordéis mal construídos e extravagantemente cheirosos. Aqui nem população de rua se encontra, nem mesmo debaixo da ponte da Linha Amarela. Aliás, nesse canto do Rio de Janeiro não existe sequer loja de penhores. O único bar grande, que funcionou durante anos em frente ao presídio, fechou por falta de fregueses. Como permitir que uma nova caça ao garimpo transforme esse paraíso em uma nova terra devastada de ninguém?
Depois de muita discussão, veio finalmente o esclarecimento sobre o pequeno mal-entendido. Ao ouvir a conversa de dois corretores que trocavam confidências ao sabor de um cafezinho no botequim aqui perto, um ouvinte atento, mas apressado, entendeu errado a afirmação: “esta é uma região de terras raras”. Eles não falavam sobre o mineral, mas sim sobre a falta de imóveis para negociar no bairro. Acontece!

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