Aos 27 anos, Sarah Poncio (Solidariedade), que conquistou mais de 26 mil votos em sua estreia na política, foi empossada como deputada estadual na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro há um mês após o deputado Tande Vieira (PP), de quem era suplente, assumir a Prefeitura de Resende. Com quase 4 milhões de seguidores nas redes sociais, a influenciadora digital promete focar seu mandato em políticas públicas para mulheres, incluindo saúde pública e busca de igualdade de gêneros, e inclusão digital.

SIDNEY: A senhora está exercendo o seu primeiro mandato. Quais são os desafios e expectativas na estreia como deputada?

SARAH PONCIO: O maior desafio é transformar dor e necessidade em políticas públicas que realmente mudem vidas. Quando uma mãe espera meses por uma consulta para o filho, um idoso passa dias em um hospital sem atendimento adequado, uma mulher sofre violência dentro de casa e não tem para onde ir são problemas urgentes, e não podemos aceitá-los como normais. Para você ter uma ideia, o Estado do Rio bateu o recorde de tentativas de feminicídios em 2024. Registramos o maior número nos últimos oito anos. O meu mandato nasceu desse compromisso com quem mais precisa. Estou aprendendo, sim, mas com a certeza de que política deve servir para cuidar, proteger e trazer justiça para aqueles que foram esquecidos.

A senhora assumiu compromisso com a saúde pública e equidade no acesso. O que será feito?

Ninguém deve ser tratado como menos importante por ser mais humilde. Saúde é um direito básico, e ver pessoas morrerem à espera de um exame ou de um leito é inaceitável. O que eu defendo é um sistema que olhe para as pessoas como seres humanos, não como números. Isso passa por garantir atendimento mais próximo das comunidades, combater a escassez de médicos e fazer com que cada real investido em saúde chegue onde realmente precisa. Meu compromisso é com uma política que trate cada vida com o respeito e a dignidade que merece.

Quais são as melhores políticas para as mulheres no combate às desigualdades e apoio à maternidade?

As mulheres têm carregado, ao longo da história, o peso de desigualdades e injustiças que não podem mais ser ignoradas. Hoje, muitas de nós ainda somos punidas no ambiente de trabalho por engravidar, menosprezadas em reuniões e temos nossa voz silenciada. Isso precisa mudar. Acredito que políticas públicas de combate à violência são fundamentais, mas a transformação real exige uma educação ampla e inclusiva, que promova a igualdade de gênero desde cedo. Devemos garantir a inclusão das mulheres no mercado de trabalho com remuneração igualitária, criando meios para que os meninos de hoje não se tornem os agressores de amanhã. Além disso, é crucial abordar o abandono parental de maneira efetiva, reconhecendo que são muitas as camadas a serem trabalhadas para que a mudança aconteça de verdade. Hoje, avançamos com pequenos passos, mas é necessário acelerar esse progresso para construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Muitos idosos se sentem invisíveis na sociedade. O que precisa ser feito para ganharem qualidade de vida?

A maneira como tratamos nossos idosos diz muito sobre quem somos como sociedade. Essas são pessoas que deram tudo de si: trabalharam, cuidaram de famílias, ajudaram a construir o mundo em que vivemos hoje. E, no entanto, muitos passam seus últimos anos solitários, esquecidos, sentindo que não têm mais valor. Isso parte meu coração. Há um dado que me entristece. Todos os anos, temos mais de 3,5 mil casos no Rio de lesão corporal dolosa contra idosos. Isso é muito grave. Cada ser humano merece amor, dignidade e um lugar onde se sinta seguro e respeitado. Precisamos olhar para os idosos não como um fardo, mas como fontes inestimáveis de sabedoria e experiência. Garantir que tenham acesso à saúde, a espaços de convivência, a um sistema de suporte real não é um favor, é uma questão de justiça. Eles nos ensinaram tanto ao longo da vida. Agora, cabe a nós garantir que seus últimos anos sejam vividos com o carinho e o respeito que sempre mereceram.
Seu primeiro projeto de lei como deputada tem um impacto direto nos jovens. Qual é o objetivo central da proposta e por que essa pauta foi a  sua prioridade?
Acredito que a educação não deve estar limitada ao espaço físico da escola. O aprendizado acontece em sala de aula, sim, mas também na arte, na cultura, nas experiências que expandem a visão de mundo. Meu primeiro projeto de lei visa impactar diretamente os jovens, ampliando o vale-educação de 60 para 80 passagens mensais, garantindo que mais estudantes tenham autonomia para chegar onde realmente precisam. Mas ir e voltar da escola não pode ser a única possibilidade. Por isso, o projeto também propõe o fim da restrição das linhas de ônibus apenas ao trajeto casa-escola-casa. O jovem precisa ter acesso a museus, teatros, bibliotecas, grupos de estudo, cursos livres porque educação é muito mais do que um conteúdo didático, é vivência. E nada mais justo que o Estado apoie esse acesso, garantindo que cada estudante do Rio de Janeiro possa aprender além dos muros da escola e construir um futuro com mais oportunidades.

Depois de formados, os jovens reclamam de dificuldades em entrar no mercado de trabalho. Há algo que possa ser feito imediatamente?

Muitas vezes, jovens são vistos como inexperientes ou despreparados, quando na verdade, falta algo muito simples: uma chance real. O Estado do Rio tem a maior taxa de desemprego entre os mais jovens em toda Região Sudeste. Precisamos mudar essa realidade. Não podemos permitir que uma geração inteira se sinta invisível. Precisamos abrir caminhos, oferecer oportunidades, não só promessas. Isso significa programas de primeiro emprego que realmente funcionem, acesso à educação que forme para o presente e o futuro, e um ambiente que incentive o talento e a criatividade dos jovens. Mas, acima de tudo, precisamos ouvi-los. Os jovens sabem o que querem, sabem do que são capazes. Só precisam de alguém que acredite neles. Meu compromisso é fazer com que não sejam apenas um número em estatísticas, mas protagonistas das próprias histórias. Porque quando um jovem tem oportunidade, ele não muda apenas a sua vida, ele transforma o mundo ao seu redor.

Vivemos um ambiente de polarização. O diálogo entre diferentes acabou?

Se o diálogo acabar, a esperança também acaba. Precisamos lembrar que, por trás das opiniões diferentes, existem pessoas. Pessoas com histórias, com dores, com desejos de um futuro melhor. O problema não está em pensarmos diferente, mas em não ouvirmos uns aos outros. A política deve servir para unir, não para dividir. É preciso restaurar a empatia, o respeito, a capacidade de conversar sem transformar tudo em ódio. Eu acredito no diálogo porque acredito que ainda podemos construir um país mais justo para todos.