Araras-canindé soltas na Floresta da Tijucadivulgação
O retorno das araras só foi possível graças ao trabalho realizado pelo Refúgio das Aves, unidade de reabilitação de animais silvestres localizada no Parque Três Pescadores, em Aparecida (SP), anexo ao complexo do Santuário Nacional da Padroeira do Brasil. O local acolheu e preparou-as para o retorno à natureza, sob cuidados técnicos de biólogos e veterinários especializados.
“Atendemos a todos os critérios sanitários e comportamentais exigidos pelo projeto Refauna. Ver essas araras voando na Floresta da Tijuca é a confirmação de que nosso trabalho está gerando resultados concretos”, celebrou Juliana Fernandes, bióloga do Refúgio das Aves.
Aclimatação e papel ecológico
As araras seguem em aclimatação em viveiro instalado no parque. A soltura definitiva ocorrerá entre quatro e seis meses, e as aves continuarão a ser monitoradas por radiotransmissores e anilhas coloridas. O último registro da espécie em vida livre na capital fluminense data de 1818.
Além do impacto visual de sua plumagem azul e amarela — cores que remetem à bandeira nacional —, as araras-canindé desempenham papel essencial na dispersão de sementes, contribuindo para a regeneração da Mata Atlântica. Inicialmente, serão alimentadas com frutas e ração, mas serão gradualmente incentivadas a consumir frutos nativos. Ninhos artificiais foram instalados no viveiro para facilitar a adaptação.
Novos filhotes e recuperação da fauna
As araras enviadas ao Rio são as primeiras reintroduzidas à natureza pelo Refúgio das Aves, mas não são os únicos avanços alcançados desde a inauguração do centro, em julho de 2024. Em menos de um ano de operação, o espaço já registrou nascimentos de sete pombas-asa-branca (Patagioenas picazuro) e dois filhotes de maritacas (Psittacara leucophthalmus), demonstrando a eficácia do trabalho de recuperação e reprodução de espécies silvestres.
Casais de araras e outros psitacídeos também se formaram no local, incluindo indivíduos com deficiências físicas, como o periquitão-maracanã “Biquinho” e “Toquinha”, vítimas de maus-tratos. “Cada nascimento aqui é um passo rumo à restauração das relações ecológicas que mantêm os ecossistemas funcionando”, reforça a bióloga Juliana.
Refúgio contra o tráfico de Fauna
O Refúgio das Aves abriga atualmente cerca de 135 animais de 27 espécies diferentes, todos oriundos de resgates, apreensões ou entregas voluntárias. O espaço foi concebido como um polo de reabilitação, pesquisa e educação ambiental. Entre os hóspedes, estão tucanos, iguanas, corujas, siriemas, jabutis, papagaios, marrecos, socós e cutias.
Os animais são recebidos de centros como CETAS, CRAS e zoológicos. Passam por triagem clínica e comportamental, recebem atendimento veterinário e, após quarentena, são encaminhados para recintos amplos onde se preparam para eventual soltura.
“O Refúgio funciona como uma ponte entre o resgate e a liberdade. Muitos desses animais chegam feridos, com traumas físicos e psicológicos. Reabilitá-los é uma missão complexa, mas essencial”, explica Juliana.
Conservação integrada à fé e à educação
Integrado ao Parque Três Pescadores, o Refúgio das Aves compartilha espaço com atrações ligadas à história da devoção mariana, como a réplica da Vila dos Pescadores e o Porto do Itaguaçu — local onde a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada em 1717. O parque também abriga um percurso ecológico com painéis educativos sobre a fauna e flora locais.
Desde sua inauguração, o parque já plantou mais de 430 árvores — 180 delas em Área de Preservação Permanente (APP), às margens do Rio Paraíba do Sul. O espaço oferece ainda oportunidades para estágios e pesquisas em parceria com universidades da região.
Combate ao tráfico de animais
Segundo dados da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), cerca de 38 milhões de animais são retirados ilegalmente da natureza por ano no Brasil. O comércio clandestino movimenta, globalmente, cerca de US$ 2 bilhões anuais.
Iniciativas como o Refúgio das Aves contribuem diretamente para frear esse mercado criminoso, ao promover a reabilitação e a devolução dos animais à natureza, além de conscientizar a população sobre os impactos dessa prática. “Estamos formando uma geração mais atenta à biodiversidade e à importância da coexistência com a natureza”, conclui Juliana.
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