Rafael NogueiraDivulgação

Paralelos históricos são perigosos quando servem a tiranias, ideologias e idolatrias, mas são inestimavelmente úteis quando servem de parâmetro. É com essa prudência que proponho comparar a recente caminhada de Nikolas Ferreira com três marchas que moldaram a história política do século XX: a Coluna Miguel Costa-Prestes, a Marcha do Sal de Gandhi e a jornada de Selma a Montgomery, liderada por Martin Luther King Jr.
Comecemos pelo que a névoa romântica brasileira insiste em esconder. A Coluna Prestes, que cruzou o interior do país entre 1925 e 1927, foi uma marcha armada que, conduzida por jovens oficiais e tenentistas rebeldes contra a República oligárquica, atravessou cerca de 25 mil quilômetros pelo Brasil profundo — um feito que inspira respeito, mas que hoje seria desnecessário, quando não precisamos de presencialidade para furar a maior parte dos bloqueios de comunicação.
Uma marcha armada não se sustenta por dois anos e meio como quem faz turismo. Ela vive de requisições forçadas, de “contribuições” que o camponês, o pequeno comerciante, o sujeito isolado no mato aprendeu a chamar pelo nome correto: extorsão sob medo. A memória popular do interior brasileiro registra a aproximação de tropas como a chegada de uma tempestade. Há relatos de gado escondido, de mulheres afastadas, de promessas feitas e desfeitas. O fuzil, quando não serve à defesa, mesmo a serviço de uma causa que se diz justa, costuma ser isca para o pior do homem.
É por isso que a caminhada de Nikolas, ainda que menor em quilometragem, pôde ser maior em civilidade. Ela é, por definição, desarmada. Não é uma “coluna”, termo militar, mas um passo civil, de gente comum, sob o regime da transparência e da responsabilidade. O ato público, sem intimidação, faz do desgaste físico mensagem política de interesse público.
Aqui entram Gandhi e King, mestres da não-violência como arma superior. Gandhi marchou em 1930 contra o monopólio britânico do sal: 24 dias e mais de 300 quilômetros para desmoralizar um império sem disparar um tiro. O corpo exposto era o argumento. A marcha vence porque desarma o adversário, expondo ao mundo a desproporção entre o poder armado e o povo em movimento.
Com Martin Luther King Jr. o princípio é o mesmo. A marcha de Selma a Montgomery, em 1965, clamava por direitos civis. Manifestantes não-violentos foram tratados como cidadãos de segunda classe, humilhados e reprimidos. A força de King estava na seguinte evidência: se o Estado, diante de gente desarmada que pede direitos, responde com cassetete e cavalaria, ele se condena no tribunal da opinião pública. A não-violência obriga o poder a mostrar sua face. A própria caminhada, de Selma a Montgomery, somou cerca de 54 milhas — aproximadamente 87 quilômetros —, em cinco dias.
É sob essas lentes que devemos ver o paralelo. Nikolas não é Gandhi, nem King. E o Brasil não é a Índia colonial ou o Alabama segregacionista. Mas a semelhança, limitada porém real, reside no esforço de transformar o corpo em argumento e, sobretudo, no fato de que a caminhada não se apoia no instrumento clássico da má política latino-americana — a intimidação —, e sim na exposição. O nosso algoz do momento é a tentação de uma juristocracia cujas decisões escapam do voto e do direito, e para a qual uma parcela do país — à direita — é tratada como suspeita por definição, vivendo uma espécie de subcidadania, com direitos condicionais, voz vigiada, punições exemplares, medo de falar.
“Ah, mas Nikolas não corre risco.” É ingênuo pensar que o risco só existia no passado. Em tempos de radicalização política, uma caminhada pública pode ser convite ao atentado, ao cerco, à sabotagem. A história recente nos ensinou que a violência política é realidade. Vimos a tentativa contra Donald Trump, o atentado a Charlie Kirk, e nosso país naturalizar uma facada em candidato presidencial com rapidez indecente. Quem caminha neste ambiente está dizendo: “eu não aceito que o espaço público seja monopólio do grito e da ameaça”, nem do medo, nem do silêncio forçado.
Se a Coluna Prestes buscou a rebelião armada, a caminhada disputa o sentido de justiça, liberdade e limite do poder sem recorrer à força. Nikolas caminha sob o aparato moral das mãos limpas.
Paralelos não devem ser encarados como equivalências, mas como instrumentos que mostram quem somos por contraste. E o contraste aqui é cristalino: entre o Brasil da coerção e o Brasil da caminhada, só um deles merece, de fato, virar futuro.