Rafael NogueiraDivulgação

Gosto da ideia de um Réveillon que seja uma espécie de balanço íntimo. Eu penso nisso como filósofo-historiador: o tempo não é apenas “o que passou”, é também aquilo que pede comemoração no sentido literal, lembrar juntos, e aquilo que obriga a reflexão quando o calendário, de repente, vira espelho.
Em 2025, uma dessas datas que não deveriam passar batidas foi o bicentenário do reconhecimento internacional da Independência do Império do Brasil. Para nós, a Independência é 1822; para a Europa, a nossa independência se torna um fato político consolidado com o Tratado do Rio de Janeiro, também chamado Tratado de Paz, Amizade e Aliança, assinado em 29 de agosto de 1825, data que marca a chancela que reorganiza o tabuleiro, muda o modo como o Brasil entra no sistema internacional e como Portugal fecha (com custo e mediações) a ferida do rompimento.
E aí entra, como comemoração do jeito certo, a reedição de clássicos que nos devolvem o sentido do acontecido. O Reconhecimento do Império, de Oliveira Lima, nessa edição de capadura, edição de luxo num ato civilizatório. O Brasil precisa reaprender a olhar para si mesmo com seriedade, e um dos caminhos é voltar aos nossos melhores intérpretes quando o calendário abre essa fresta.
Também em 1825, e, portanto também com bicentenário em 2025, nasceu Dom Pedro II, em 2 de dezembro de 1825, no Rio de Janeiro. Primeiro imperador “carioca”, porque o anterior era português, e talvez o nosso maior exemplo de chefe de Estado que levou a sério a ideia de responsabilidade histórica. Num país viciado em reduzir virtude a fama, a simples hipótese de virtude de verdade soa como escândalo. E é por isso que me interessa tanto esse movimento editorial que vai na contramão do nosso vício de relativizar sempre as qualidades dos grandes: há, por exemplo, um título em circulação de pré-lançamento, As Virtudes de Bom Pedro, de Roberto Michetti, pela LVM.
E, olhando já para 2026, o Brasil terá outro bicentenário que costuma ser esquecido por quem ama gritar democracia sem gostar de instituições: a abertura do primeiro Parlamento do Império, com a sessão inaugural da Assembleia Geral Legislativa em 6 de maio de 1826, data que marca, na prática, o início do funcionamento legislativo conjunto de deputados e senadores. Isto é, 2026 é o ano dos 200 anos do Senado e da Câmara na forma como passaram a operar no Império. E aqui cabe a lembrança de que existe um modo de comemorar isso como estudo. O meu livro sobre a Constituição de 1824 vai justamente nessa linha, porque sem a moldura constitucional de 1824 o Parlamento de 1826 é só um fato solto. Está em breve em reedição, também pela LVM.
Agora, se o Brasil tem seus bicentenários, 2026 também será empurrado por um “superaniversário” estrangeiro: 250 anos da Independência dos Estados Unidos (1776–2026). E eu acho curioso como esse tema volta, não só em livros, mas no audiovisual, que é o nosso grande catecismo popular contemporâneo. A Netflix liberou uma série de 2014 que trata de espionagem na Revolução Americana, TURN: Washington’s Spies (e vale como porta de entrada, como narrativa de clima e intriga). Mas, se é para recomendar uma obra realmente insuperável, eu continuo achando difícil superar John Adams: não pelo “didatismo”, mas pela capacidade de mostrar política como drama moral, com virtudes, feiuras, custos, família, ambição e serviço público no mesmo quadro.
Nessa mesma linha de “ver e pensar”, eu colocaria no seu réveillon um filme como Valor Sentimental (Sentimental Value), de Joachim Trier. Ele tem uma coisa raríssima: existencialismo nórdico com qualidade cinematográfica e um bom humor especial, que não é palhaçada nem cinismo, mas graça, uma inteligência que sorri sem perder a gravidade.
No fundo, esse réveillon “entre livros e filmes” é uma forma de governar a própria atenção, que é o primeiro território que a vida moderna nos toma. A pergunta não é “o que eu consumi em 2025”, mas “o que me formou em 2025”. E, quando 2026 vier com seus bicentenários brasileiros e seus aniversários americanos, a melhor resposta que a gente pode dar ao tempo é simples, quase antiga: lembrar juntos do que importa, estudar com disciplina, e entrar no ano seguinte com desejos que não sejam só sonhos, mas direção.