Rafael NogueiraDivulgação
Já faz tempo que a política brasileira se explica mais pelas artes cênicas do que pela ciência política, uma vez que é feita de personagens barulhentos e de sangue frio, de frases pré-fabricadas, de atos inacreditáveis, de promessas em profusão, de comédias e tragédias, e, no fim, de atuação, músicas, figurinos, cenários e roteiros feitos, treinados e decididos no bastidor. Já não podemos mais votar com a ingenuidade de supor que Executivo e Legislativo, por serem eleitos, são o miolo do poder. Hoje, o eleitor lúcido presta atenção nas aposentadorias do Supremo Tribunal Federal. E faz sentido.
Vejam o que recebi num grupo de WhatsApp: “considerando a composição do STF, agora é mais importante o Flávio ganhar do que fortalecer qualquer direita alternativa”. E o curioso é que o cidadão não disse isso por paixão pelo Flávio, nem por devoção aos Bolsonaro, nem por fé em programa de governo. Disse por cálculo institucional de longo prazo. É o voto útil migrando da encenação de campanha para os bastidores da toga. Num país em que a caneta de poucos pesa mais do que o voto de muitos, o entra-e-sai do Supremo vira assunto de primeira grandeza. Quem ganha indica; quem indica molda; quem molda segura o rumo por muito tempo.
O cálculo vai muito além de evitar “perder uma eleição”. Perder essa janela é ver o adversário emplacar ministros jovens o bastante para atravessarem décadas e mais décadas, fechando um arranjo que só muda em ritmo geológico. Some-se a isso a razoável suspeita de que certos desajustes econômicos serão agravados. Esses rombos, uma vez criados, não se desfazem com indignação em rede social. Eis a realpolitik brasileira: não escolher o melhor, mas evitar o pior.
Chegamos a esse ponto quando o país percebeu, com a sabedoria que só a pancada ensina, que o centro de gravidade se deslocou. Ninguém nega o peso do Planalto e do Congresso, mas é cego, louco ou tolo quem não admite que boa parte das decisões realmente decisivas migrou para a esfera judicial — às vezes por mecanismos previstos em lei, às vezes por expansões interpretativas, noutras vezes por decisões individuais que viram realidade antes que o debate termine. Que cena é mais comum hoje do que a do parlamentar que aprova uma lei, comemora, posa para foto, aí alguém judicializa, e pronto? Como diria Joaquim, meu filho de um ano e nove meses: “cabô”. É como se o trabalho do Parlamento fosse rascunho, porque é o Supremo quem, na prática, faz a redação final.
Sem algum nível de influência no Supremo, vitórias políticas são episódicas, sempre passíveis de revisão. Sem alguma voz ali dentro, as derrotas se tornam cada vez mais custosas, e custosas por tempo demais. Daí nasce esse novo tipo de voto útil em que o eleitor se comporta como investidor em crise, comprando proteção, e deixando o sonho para quando as contas estiverem minimamente em ordem.
Essa estratégia convive com uma constatação, para alguns, humilhante: o “princípio unificador” da direita ainda é um só personagem, de nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. O mesmo cujo entorno, segundo dizem com cada vez mais frequência, maltrata os próprios aliados. “É injusto, é irritante, mas vão ter de engolir”, diz o realista no grupo de WhatsApp. Há, no fundo, uma intuição conservadora verdadeira aí: ordem é o chão onde se pisa; se o país chegou ao ponto de decidir voto pelo jogo de supremas cadeiras, é porque a próxima eleição ganhou vulto de plebiscito existencial, em que a derrota é sentença longa demais para quem preza por seu projeto de vida, por seu patrimônio, por sua família.
O remédio, se ainda existe remédio, é recolocar cada poder no seu lugar, com limites claros, freios efetivos, menos espaço para decisões que valem mais do que votos e leis. Enquanto isso não acontece, o eleitor calejado seguirá fazendo contas 'menos-pioristas'. E votará, não como quem escolhe um líder, um governante, um estadista, mas como quem escolhe o síndico pensando no porteiro do prédio. Afinal, no Brasil de hoje, a portaria manda mais do que síndico e assembleia juntos.

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