Pianista abriu a apresentação de Kamasi Washington, no Circo Voador - Tânia Artur / Divulgação
Pianista abriu a apresentação de Kamasi Washington, no Circo VoadorTânia Artur / Divulgação
Por THIAGO ANTUNES
Rio - A música instrumental e suas muitas variações carregam diversos significados e sensações particulares a quem ouve. Jonathan Ferr ambiciona que seu jazz urbano atravesse a cidade, rejeitando a pecha de elitista colada ao gênero e defendendo sua volta às ruas por meio do afeto. O pianista de 30 anos, que adotou o sobrenome artístico "em contraste" com o usual Ferreira, norteia sua carreira fazendo diversos movimentos através desse sentimento. Um deles é expandir a sonoridade do chamado jazz urbano, força motriz do seu disco de estreia, 'Trilogia do Amor', lançado no fim do mês passado após um intenso trabalho de maturação — foram dois anos e meio entre apresentações, incluindo festivais internacionais, até a formatação em estúdio. 

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Capa do disco 'Trilogia do Amor' Reprodução
Cena do curta 'A Jornada' Reprodução
Pianista abriu a apresentação de Kamasi Washington, no Circo Voador Tânia Artur / Divulgação
Ferr fará shows em festivais como Locomotiva e Rock in Rio João Victor Medeiros / Divulgação
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Do despertar da paixão pela música até o convite para um show no Rock in Rio em setembro, o músico vendeu água sanitária e cloro pelas ruas de Madureira para pagar por aulas de piano e tocou com bandas até encontrar sua sonoridade. "Percebo que muitas pessoas, jovens, que nunca ouviram jazz e assistiram meu show, despertam interesse para essa sonoridade", destaca. O DIA conversou com Jonathan Ferr sobre carreira, música, cinema e outras ambições. Confira:
O DIA - De que forma começou o teu despertar para a música e para o piano especificamente?
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Jonathan Ferr: Meus pais ouviam música desde sempre, tinham muitos vinis. O fato deles serem de uma família evangélica, fez com que todo mundo lá em casa ouvisse muita rádio também. Eu ouvia muita coisa dentro de casa quanto na igreja. Quando criança, queria ser baterista, vivia batucando em panelas da minha mãe. Um dia vi uma capa de disco com um pianista e crie um fascínio por aquilo, me despertou muita curiosidade. Logo, meu pai me deu um tecladinho de brinquedo que todo mundo usava. Comecei a tirar músicas de ouvido, tocar sozinho e foi aí que minha família percebeu que tinha alguma coisa ali e começaram a me incentivar. Aos 9 anos eu já estava tocando sozinho, autodidata mesmo, e depois passar a fazer aulas perto de casa. Meus pais pagaram um tempo e, quando não puderam mais, comecei a vender água sanitária e cloro na rua.
Como foi esse processo?
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Enxergo como um movimento empreendedor. Eu ganhava mesada dos meus pais, então usei esse dinheiro para comprar cloro e água sanitária e vender para amigas da minha mãe. Não era algo que atrapalhava minha educação ou algo assim, sempre fazia duas vezes por semana para garantir minhas aulas de piano. Muita gente comprava para ajudar. Depois consegui bolsa de estudos e fui indo.
E a infância em Madureira? É um lugar marcante para o samba. Você se influenciou por isso?
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Aprendi muita coisa e conheci muita gente em Madureira. Tudo que vivi influenciou minha carreira. Acho que o samba influencia, mas está de outra maneira na minha música, as pessoas que ouvem o disco e o show, percebem que há alguma coisa de suingue, samba-funk e tem uma influencia nesse lugar. O samba vem dessa ideia da música preta, vejo como um lugar geral. Acho que na verdade está tudo muito grudado, sou resultado de tudo que escutei. É difícil mensurar onde está cada coisa. Alguns falam que faço um jazz psicodélico, dentro do contexto de ritmos. E vejo muito isso também no som da Banda Black Rio, que ouvi muito também.
E o gosto pelo jazz?
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Ouvia muito rock na adolescência, ouvi rap aos 18 anos, e conforme fui me aprofundando na música, pela Escola de Música Villa-Lobos, aprendi a ler partitura, lia sobre música erudita. Até que um professor em uma disciplina de apreciação nos colocou para ouvir A Love Supreme, do John Coltrane, que mudou muito a minha escuta. Esse disco mudou a minha vida, é realmente algo revolucionário. Quanto mais escuto, mais o entendo. Tem muita coisa espiritual ali. Pensei: 'caramba, que sonoridade é essa?' E a partir de então fui ouvindo Miles Davis, Count Basie, McCoy Tiner. Gosto muito de Ed Motta, ele é uma jazzista brasileiro que me toca muito. Fora a Banda Black Rio tem o Azymuth também, ouvi muitas coisas do Arthur Maia (falecido ano passado). Realmente vejo o jazz como a música do futuro, que me traz liberdade artística. Sempre fui muito pesquisador, de catar coisas em sebos, CDs, vinis... também comecei a ler sobre para me inteirar. Aí foi tudo meio que natural, toquei com bandas até achar a sonoridade que queria. Vi muita gente fazendo coisas do mais do mesmo e queria buscar minha identidade, algo com que  as pessoas se conectassem mesmo. 
Daí partiu o conceito de jazz urbano do seu disco?
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Sim, eu queria buscar essa coisa inovadora, dentro do hip hop e o soul, fazer um liquidificador mesmo. Tenho influência de artistas de fora, mas com sotaque brasileiro, uma característica de carioca. Uma coisa que o jazz pode fazer mesmo, que é atravessar a cidade. O meu som tem isso, da pessoa poder ouvir literalmente no trajeto para o trabalho, por exemplo. Dependendo do caminho, a pessoa pode ouvir o disco algumas vezes. Não tem essa coisa engessada que geralmente atribuem ao jazz. Da forma que vejo, nos lugares que circulo, há muita gente fazendo coisas com o jazz, mas não dentro desse conceito. 
Como foi feito o disco? Pretende fazer outras trilogias?
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'Trilogia do Amor' se completa por si só. Ele de desenvolveu após eu voltar de alguns shows na Europa, fiz  algumas composições por lá e voltei para finalizar. Mas comecei em 2017, então foram dois anos e meio nesse processo. Quanto ao disco, pensei em três capítulos, como uma experiencia sensorial. A pessoa sai do trabalho, vai pra casa de fone e ouvindo de trem e metrô. No vinil tem lado A e B bem definidos. As três partes se dividem em 'A Jornada', 'O Renascimento' e 'A Revolução'. Em paralelo, fiz um curta-metragem para 'A Jornada', que percorreu muitos festivais pelo Brasil e funciona como uma extensão do disco. O (jazzista) Sun Ra foi uma enorme influência nesse sentido. Pensei tudo como narrativa negra, afrofuturista mesmo, que é colocar o protagonismo que o negro nunca teve como ponto central. 
Sobre o conceito de afrofuturismo, como ele se conecta com sua obra?
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Por exemplo, os meus avós quando criaram meus pais, da maneira que eles conseguiram, é um exemplo de afrofuturismo. Acho que é algo que engloba várias coisas, além da estética. Tem o campo social também. Eu, enquanto homem negro, conto a minha história na perspectiva que tenho e posso usar o que quiser. Acho que é importante criar uma imagem no inconsciente coletivo da nova geração. Eu cresci sem referências negras, o que impacta de uma forma negativa. Hoje, as crianças que vêm chegando já conseguem ter acesso a uma outra narrativa. Uma ideia que é possível ter autoestima e estar nos lugares.
Acho que sou um dos poucos que trabalho com essa referência e já consegui ter alguma relevância. Então, quero que meu trabalho reflita em outras pessoas negras, periféricas ou não. A resposta muito positiva é que, nos shows, muitos jovens dizem que 'nunca ouviram jazz', 'nunca pensaram em gostar de jazz' se conectando com o que faço. 
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Como foi arregimentar a banda para o disco e as participações?
A Tânia Artur, que é minha empresária, me influenciou muito. Quando tive dúvidas, ela me disse que era possível. Aí criei um trio, o Jonathan Ferr Trio. Mais do que somente músicos bons, queria construir uma relação de família mesmo. Eu e os músicos que tocam comigo somos bons amigos, nos encontramos para conversar, falamos de problemas...e eu sabia o que queria com o disco, e todos têm as mesmas referências que eu. Fiz os arranjos, inclusive de cordas, que trouxe uma densidade junto às experiências dos outros integrantes. O Donatinho (filho de João Donato) eu já conhecia do projeto Jazz Out, de trazer essa coisa do jazz para a rua novamente. A gente foi se aproximando, criando uma amizade. E aí ele me mostrou uns sintetizadores com uns timbres históricos e fez uma coisa para uma música chamada 'Luv is the way' (O amor é o caminho, em tradução livre) e aí disse que ele ia assinar também (risos). A Alma Thomas, novaiorquina radicada no Rio, pensei em exatamente alguém com o timbre dela, uma coisa meio gospel. Ela gravou em 30 minutos e ficou maravilhoso. A Mari Milani, neta do Fracisco Milani, também conhecia e chamei para gravar algo mais espiritual. O resultado é emocionante. Além disso, montei um coral para a faixa 'Sonhos', que tem muita gente boa.
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E sobre o curta para o disco, alguma vontade de enveredar pelo cinema?
Estou seguindo o fluxo. Quando fui dirigir esse trabalho, foi uma perspectiva muito baseada em coisas que vi. Tinha feito curso de roteiro, sou muito cinéfilo. Quando chegou essa oportunidade de fazer uma coisa bacana, já tinha entendendo o queria fazer. Estou com os roteiros prontos para 'O Renascimento' e 'A Revolução', em fase de pré-produção. Devemos começar a rodar lá para agosto e fica pronto até o fim do ano. O bom de 'A Jornada' foi a aceitação no circuito de festivais, além das premiações e aceitação da crítica. Quero, no futuro, fazer algo pela perspectiva afrofuturista, mas está tudo na mente ainda.
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Como foi abrir o show de Kamasi Washington no Circo Voador?
Foi incrível, eu digo que fui muito sortudo. O Kamasi me influenciou muito, inclusive falei isso pra ele. Em 2017 quando tinha entrado em estúdio, assisti outro show dele Theatro Municipal. A apresentação foi muito marcante, inclusive essa ideia de botar cordas foi um estalo que tive assistindo ao show. Eu não achava que seria possível, mas ele me mostrou que dava. Mal sabia que dois anos depois estaria no mesmo palco que ele. Depois, ainda nos falamos por Instagram, ele me elogiou e deu conselhos. Tive a oportunidade de tocar para um público de jazz e a repercussão foi muito boa. Foi meu primeiro show de 2019, então foi um pontapé marcante. Sem falar no Circo Voador, que é uma casa muito representativa no Rio.
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Você foi convidado para tocar no Rock in Rio. Qual sua expectativa?
Eu vejo o palco como um lugar muito espiritual, sagrado. E gosto de criar essa sensação de que você está saindo de uma igreja ou qualquer outro lugar espiritual. É o que procuro fazer, por achar que precisamos recuperar de volta o lugar do amor, do afeto, fortalecendo essas relação para estar bem. Eu e a banda pensamos de igual forma, vamos fazer a melhor performance no Rock in Rio. Eu penso que o melhor show é sempre o próximo, mas estou planejando um roteiro bastante especial. Destaco também que somos a única banda desse gênero dentro do festival, já que não existem grupos similares. Estou muito honrado e a galera pode esperar um show muito forte. Antes disso, vou tocar no dia 21/06 no Festival de Jazz de Rio das Ostras e, no dia 10/08, no Festival Locomotiva, em Piracicaba, com um pessoal da pesada. Mas, sem dúvidas, a apresentação no Rock in Rio é um divisor de águas.
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Assista ao clipe de 'A Jornada':