Em musical, Preta Gil revela histórias de infância e conta como lidou com bullying, racismo e gordofobia

Essas e outras histórias da cantora estão sendo contadas todos os fins de semana no Teatro XP Investimentos, no Leblon

Por Juliana Pimenta

Preta Gil
Preta Gil -

Preta Maria. Esse foi o nome que Gilberto Gil escolheu para sua quarta filha. Mas, ao chegar ao cartório, o cantor recebeu uma negativa do tabelião. "Preta não é nome de gente", ouviu lá em 1974. Em contrapartida, Gil indagou: "Tem Branca, tem Rosa, tem Clara, por que é que Preta não pode?". Com elegância, o cantor venceu a discussão e ali começava a trajetória de inclusão e empoderamento da menina de nome esquisito.

Essa e outras histórias sobre a infância e adolescência de Preta Gil estão sendo contadas todos os fins de semana no Teatro XP Investimentos, no Leblon, onde a atriz, cantora e apresentadora estrela 'Mais Preta do que Nunca', seu próprio musical. "No ano passado, comecei a esboçar um livro de memórias e aprendizados, mas achei que ainda não seria a hora de lançar. Resolvi então unir as duas coisas quando completei 45 anos. Esse espetáculo tem muito de mim, das minhas histórias, mas também traz temas e assuntos comuns a muita gente. A gente chora e ri todas as noites, tem sido uma experiência maravilhosa", destaca a artista.

Preta, preta, pretinha

Preta e os irmãos eram as únicas crianças negras da escola de elite onde estudavam no Humaitá. Sobre a época, a cantora relata episódios de bullying, racismo e revela como conseguiu lidar com a pressão de ser quem era. "Eu sempre fui assim: quanto mais falam de mim, mais rebolo", brinca, ao lembrar que a infância e a adolescência não se resumem aos episódios tristes.

Crescendo nos anos 1980, ou na Era de Ouro do Pop, Preta acredita que o espetáculo pode ser uma boa oportunidade para que os mais jovens conheçam um pouco do seu xodó: a cultura pop produzida nesse período. "Os anos 1980 foram fantásticos. Quem viveu sabe, e quem não viveu ainda é rodeado por tanta referência e coisa boa que aquela década produziu. No espetáculo, falo das minhas referências, que têm de tudo: Frenéticas, Gretchen, Menudo, Dominó, Mulher Maravilha, RPM, Paralamas do Sucesso… E até modismos como tênis All Star e mochila da Company", explica a cantora que, durante o espetáculo, revela os bastidores e costumes da família Gil no pós-tropicalismo.

Meu corpo quer você

Conversando de forma íntima com o público durante todo o espetáculo, Preta faz uma pausa para dizer quem é. Fugindo do lugar comum de ouvir o que os outros dizem dela, ela mesma se define: mulher, negra, gorda e bissexual. Nesse momento, a cantora desce do palco e dá a oportunidade para que os espectadores façam o mesmo. "É a minha parte preferida. Eu vou até a plateia e peço para que se apresentem e cantem no nosso karaokê", diz Preta, que vê a peça como um local de interação física com o público.

"Foi pensando nesse contato mais próximo que fiz esse espetáculo. Gosto de me comunicar, e o teatro permite esse retorno ali ao vivo, na hora, olho no olho", revela Preta.

Andar com fé

Na peça, Preta também se emociona ao falar da morte prematura do irmão Pedro, aos 20 anos, e como essa perda afetou sua carreira artística. Em todo o momento, a cantora elogia sua família e exalta o amor pelo filho, Francisco, e pela neta, Sol de Maria. "Não há nada mais importante para qualquer pessoa do que sua família. Sou muito privilegiada de fazer parte de uma família de amor e união. Sol de Maria é a luz na vida de todos nós, o tempo que tenho eu dedico a ela", destaca a vovó coruja.

 

DE BEM COM O ESPELHO

Se em seu maior sucesso ('Sinais de Fogo') Preta Gil interrogava o próprio espelho, atualmente ela é a responsável por inspirar milhares de mulheres a se amarem e promoverem a autoaceitação. "Tento ser eu mesma, acreditar em mim. Aprendi a não ouvir quem tentou me julgar ou colocar pra baixo, e isso acabou virando sinônimo de 'empoderamento'. Não há conselho que sirva mais a todos que amar a si mesmo, se respeitar, se colocar acima de qualquer julgamento", argumenta a cantora, enquanto prega mais sobre o amor próprio.

"O padrão não é o seu. Você é único e está aqui para ser feliz. Não pode sofrer para tentar caber numa fórmula irreal. Amar a si mesmo é a base da vida para sermos felizes e assim amaremos e respeitaremos o outro. Saber se cuidar é parte disso", defende.

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