Thainá Duarte pede desculpas por aceitar papel de mulher trans no cinemaReprodução / Instagram

Rio - Anunciada como intérprete de uma personagem trans em "Geni e o Zepelim", Thainá Duarte, uma mulher cis, recebeu diversas críticas e ataques da comunidade LGBTQIA+, que cobra por mais inclusão no mundo cinematográfico. Nas redes sociais, a atriz contou o motivo pelo qual aceitou o papel e revelou que não fará mais parte do elenco da adaptação cinematográfica da musica composta por Chico Buarque em 1978.
"Ao longo da minha carreira, a maioria das minhas personagens foram abusadas, perseguidas, vítimas de violência doméstica, de relações abusivas, prostituídas, estupradas, mortas à facada, mortas amarradas em árvores apaulada, silenciadas... sobretudo silenciadas. Isso me fez olhar de fora a visão que o audiovisual tem e consequentemente a visão que ele cria com o imaginário sobre um corpo como o meu", iniciou ela em seu relato. 
Em seguida, a atriz contou que teve uma conversa com Anna Muylaert, diretora do longa, sobre o motivo dela ter escolhido retratar Geni como uma mulher cis, ao invés de trans. "Ela queria fazer uma releitura, falar sobre a floresta, falar sobre a Amazônia, com um paralelo com o feminino, um feminino que é ferido, machucado e ela queria fazer isso com uma Geni cis. Também me tranquilizou quando ela me disse que tava em conversa com pessoas da comunidade trans, enquanto ela escrevia e desenvolvia esse projeto.", explicou Thainá.
Depois da conversa com a diretora, ela disse que ficou tranquila quanto à interpretação do papel. "Dentro dessas circunstâncias, eu acreditei que a minha experiência como atriz pudesse contribuir de forma positiva para essa releitura e tudo isso deu o fundamento para que eu pudesse tomar a decisão de aceitar esse papel".
No entanto, assim que a atriz foi anunciada como protagonista, a comunidade LGBTQIA+ criticou a escalação, cobrando por mais inclusão. Thainá, então, pediu desculpas por ter aceitado o papel. "Eu sinto muito que essa escolha tenha machucado tanto a comunidade trans, porque agora eu entendo melhor o tamanho dessa reivindicação. E longe de me colocar na defensiva, eu estou me colocando do lado de quem tá ferido. Porque eu reconheço o lugar de fala, eu reconheço a urgência, eu reconheço a dor de tá pedindo pelo mínimo, que é respeito. E me dói pensar que, mais uma vez, Geni foi apedrejada em praça pública aberta a debate e que isso tenha causado tantas feridas como causou", lamentou.
Porém, em meio às críticas e pedidos por inclusão, a atriz revelou que também foi atacada com comentários maldosos depois que foi escalada para viver Geni. "Uma coisa que eu acho que não justifica foram alguns dos ataques que eu recebi, mensagens de ódio como: 'transfóbica oportunista', 'você é nojenta', 'você merece morrer'. Mensagens que suponham que eu não estava aberta ao diálogo, e eu estou, e que me tiraram o ar sequer para poder responder.
Está doendo aqui, está doendo bastante. E eu espero que a atriz que vai interpretar a Geni interprete tão bem, com tanta verdade, que isso consiga sanar um pouco da dor que a gente tá sentindo aqui também. Eu reafirmo o meu compromisso com o aprendizado, eu reafirmo o meu compromisso com a escuta, eu reafirmo o meu compromisso com a luta por equidade de todas as formas e que essa experiência que a gente tá passando sirva de ponto de inflexão para o audiovisual. Com todo o meu respeito e solidariedade", finalizou.
Diretora pede desculpas
Ainda sem anunciar quem entrará no lugar de Thainá Duarte, a diretora Anna Muylaert confirmou que a atriz não faz mais parte do elenco e pediu desculpas à comunidade LGBTQIA+. Além disso, ela afirmou que readaptou o roteiro para que Geni voltasse a ser uma mulher trans.
"Fazer esse filme, essa história, com uma personagem como uma mulher cis foi um erro, foi um equívoco. E eu quero pedir muitas desculpas. Realmente, muita desculpa a todas as pessoas da comunidade trans que sofreram, se sentiram apagadas, se sentiram atacadas na sua própria identidade por causa dessa ideia. Por favor, me desculpem. Eu tive uma visão errada, mas nós refletimos e, claro, vamos mudar o rumo das coisas, nós vamos trocar a personagem e readaptar o roteiro para uma personagem trans", iniciou em vídeo publicado nas redes sociais.
"Desculpa, claro, para a atriz Thainá Duarte, que, por causa de uma ideia minha, foi tão exposta a haters na internet, que eu entendo que seriam agressões a qualquer atriz cis que estivesse nesse papel, ocupando esse lugar. Mas ela sofreu esses ataques pessoalmente. Então, desculpa, Thainá", se desculpou Anna com a atriz.
Em seguida, a diretora explicou que o longa não será uma adaptação da peça "Ópera do Malandro", de Chico Buarque, nem no conto "Bola de Sebo", de Guy de Maupassant, - que Buarque se baseou para escrever a música -, mas sim da canção "Geni e o Zepelim", de Chico. 
"Eu queria mais uma vez agradecer a todos que me ajudaram a entender a dimensão do ícone que é a Geni. E eu quero dizer que eu, como uma diretora cis, vou fazer todo o possível para honrar essa personagem trans, e vou dar o melhor de mim para fazer com que a Geni depois de 40 anos, que vem tomando pedra, tenha um final de glória, como a gente criou para ela. Espero que todo esse debate e também esse filme possa ser uma construção de uma ponte entre vários grupos no Brasil e, quiçá, no mundo", finalizou.
 
 
 
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