Dan Stulbach protagoniza nova montagem de peça 'O Mercador de Veneza', de ShakespeareRonaldo Gutierrez / Divulgação

Rio - Dan Stulbach está de volta aos palcos com um papel controverso e desafiador na nova montagem de "O Mercador de Veneza", clássico de William Shakespeare (1564-1616), que estreia nesta quinta-feira (22), no Teatro Nelson Rodrigues, no Centro. À frente de um elenco de 12 atores, o artista dá vida ao agiota judeu Shylock, já vivido por nomes como Al Pacino, Laurence Olivier e Pedro Paulo Rangel.
"Ele é um personagem bastante complexo e intenso. Isso é um desafio muito legal — e é justamente um dos motivos pelos quais eu quis fazer esse personagem", diz Stulbach. "Ele não está em cena o tempo inteiro, mas cada momento é muito forte, muito presente e distinto do anterior. As coisas acontecem rápido no espetáculo. A dificuldade é, também, o maior prazer: dar vida a esse cara tão intenso", acrescenta.
Nesta adaptação, a trama se distancia da Itália do século 16 e se ancora em um mundo moderno e distorcido, onde intolerância, racismo e ganância se entrelaçam de forma ainda mais contundente. Shylock, tradicionalmente visto como vilão, assume o protagonismo da narrativa, que agora é contada a partir de seu ponto de vista.
"A gente vive um momento em que tolerância e diálogo são questões urgentes, tanto no Brasil quanto no mundo. Aceitar mudar de opinião, ouvir o outro, respeitar as diferenças. A peça fala justamente disso. É uma obra avançada para o seu tempo — dentro da própria literatura do Shakespeare — porque trata do preconceito com as minorias de maneira elegante. Eu já queria fazer um Shakespeare e achei esse mais atual e necessário que todos os outros. Então, se eu tiver que escolher, diria que o direito à diferença e à tolerância é o que mais me toca", destaca o artista. 
Apesar da longa trajetória nos palcos, essa é a primeira vez que Dan encena uma peça completa do dramaturgo inglês. A experiência marca um novo capítulo artístico dele após o sucesso da comédia "A Morte Acidental de um Anarquista", no Rio, e da peça "Meu Deus", com Irene Ravache.
"Esse é o primeiro 'Shakespeare inteiro' que eu faço. Já tinha feito cenas e exercícios, mas uma peça completa, não", revela. "Cada uma [das peças anteriores] é completamente diferente da outra. E é isso que eu busco: não repetir. Procurar sempre um desafio novo", ressalta.
Conhecido nacionalmente desde "Mulheres Apaixonadas" (2003), onde viveu o violento Marcos, o ator trilhou uma carreira de peso na televisão e no cinema. Ainda assim, ele garante que é no palco que se sente mais à vontade.
"O teatro sempre foi minha casa, meu início. É onde eu posso escolher os projetos, partir de mim. No teatro, eu já trabalhei com luz, limpei palco, fiz de tudo. Gosto do ritual, da espera, do depois. É também onde o ator tem mais domínio do que está sendo dito, a relação com o espectador é direta. Tenho mais controle sobre a experiência do público. E tudo que eu quero é isso: que as pessoas saiam diferentes do que chegaram. Que seja uma experiência que toque", comenta.
Novelas 
Afastado das novelas desde "Pantanal" (2022), na TV Globo, Dan fala sobre a possibilidade de retornar aos folhetins. "Toparia, sim. O maior desafio, para mim, seria mais logístico — equilibrar a vida pessoal, já que minha base está em São Paulo e as gravações, geralmente, são no Rio. Mas isso é algo que dá pra conversar. Se tiver um personagem interessante, uma história legal, um bom diretor, não teria por que não aceitar. Uma novela exige muito da gente. Costumo brincar que dá o mesmo trabalho fazer uma novela que faz sucesso e uma que não faz. São os mesmos dez meses de dedicação. Então, que pelo menos seja prazeroso", afirma ele, que opina sobre a onda de remakes. 
"Acho que está tudo certo. Os textos originais são ótimos — como 'Vale Tudo', por exemplo — e não vejo problema em refazê-los. Nada está sacramentado para sempre. Trazer essas histórias de volta pode ser uma forma de reacender debates, apresentar essas questões para uma nova geração. Seja uma história que eu já tenha feito ou apenas assistido, acho que tá valendo", pontua. 
Com mais de três décadas de carreira, o ator entrega o que o faz aceitar ou recusar um papel: "Quando o personagem não me diz nada. Quando não há desafio. Às vezes é uma questão de agenda, especialmente no teatro, que compromete muito tempo. Mas, em geral, é isso: se eu não me interesso nem em assistir ao projeto como espectador, perco o sentido de fazer. Claro, às vezes o personagem em si não é tão interessante, mas as pessoas envolvidas são — e aí compensa. Cada projeto é único. Mas o principal critério é: ele me move de algum jeito?".
Cinema
Recentemente, Stulbach esteve presente em dois projetos cinematográficos marcantes: "Ainda Estou Aqui", longa brasileiro vencedor do Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional, como Bocaiuva Cunha, e no longa "Fé Para o Impossível", em que mergulhou em um universo espiritual inédito. 
"'Ainda Estou Aqui' foi um desafio artístico imenso. E não só pela repercussão, pelos prêmios e o Oscar, mas pela emoção do público — ver o cinema lotado, os aplausos, as mensagens. Já o outro filme teve uma pegada diferente. Uma aproximação com o universo espiritual, que eu não conhecia tanto. São experiências muito distintas, mas que me marcaram profundamente", conta.
Maturidade
Aos 55 anos, o artista vive um momento de plenitude profissional e pessoal. "Ainda bem que a maturidade chegou. Me vejo num momento mais tranquilo, com mais possibilidades de trabalho, convites legais, reconhecimento… e tudo isso te acalma um pouco. Quando a gente começa nessa profissão — como em qualquer outra — você tem essa urgência de encontrar um lugar, de ser visto, de mostrar que o seu trabalho tem valor, que tem alguma relevância", comenta. 
"Acho que maturidade é isso: é essa calma. É parar de desperdiçar energia com o que não tem importância. No começo, a gente fica muito sensível à opinião dos outros — todas elas, as boas e as ruins — e com o tempo, você aprende a qualificar melhor essas opiniões. Maturidade também é perder o medo de ser sincero, até numa entrevista como essa. Tentar sempre dar respostas honestas, sem medo do que vão pensar. É entender o equilíbrio entre o que o público espera de você e o que você quer propor para ele. É não se acomodar em fórmulas repetidas, e continuar buscando o novo. Pra mim, esse é o sentido da profissão", completa. 
Próximos passos
Após a temporada no Rio de Janeiro com "O Mercador de Veneza", Dan já tem compromissos pela frente: "A peça virou o centro da minha vida nos últimos meses. A estreia no Rio é muito especial — e, claro, dá aquele alívio. Minhas últimas temporadas no teatro têm sido muito boas, tomara que continue assim. Estou curioso para saber o que o público vai achar, mas estou muito feliz com o que construímos."
O cronograma de trabalho inclui cinema e planos de carreira internacional. "Depois da temporada no Rio, tenho um filme previsto para o final de julho. Além disso, vou viajar para fazer alguns registros de trabalho no exterior — vídeos, testes, contatos com agências. Como eu falo inglês e espanhol, quero plantar essas sementes lá fora também. Então, nesse intervalo sem a peça, vou aproveitar pra investir nisso."
Depois, a turnê da peça volta a todo vapor. "Vamos para Recife, Curitiba e, em seguida, São Paulo. Por enquanto, não tenho nada fechado na TV". 
Serviço:
'O Mercador de Veneza'
De 22 de maio a 15 de junho de 2025
Quintas, às 19h; sextas, às 20h; sábados e domingos, às 18h
Local: Teatro Nelson Rodrigues
Endereço: Av. República do Paraguai, 230, Centro
Ingressos: a partir de R$ 15