Tereza Seiblitz na peça CaranguejaRenato Mangolin / Divulgação

Rio - Aos 61 anos, Tereza Seiblitz retorna aos palcos inspirada na experiência que teve em "Renascer" (1993), quando interpretou a personagem Joaninha e gravou cenas em um manguezal. Mais de três décadas depois, aquela vivência se transforma no ponto de partida para o espetáculo "Carangueja", idealizado e protagonizado pela artista, em cartaz no Teatro Poeirinha, em Botafogo. A peça marca um novo ciclo na trajetória da atriz ao unir questões ambientais, maternidade e identidade feminina.
"Quando entrei de corpo inteiro nesse manguezal para gravar 'Renascer' me veio a nítida sensação de que eu estava no útero da Terra. Um verdadeiro berçário de espécies animais e vegetais", lembra Tereza.
A produção mostra a transformação simbólica de uma mulher em carangueja. Escrito em 2015, o texto surgiu das leituras de Tereza na graduação em Letras. Em cena, a atriz usa materiais como tecido, madeira e argila, enquanto diferentes vozes, como de rádio ou jornal, conduzem a personagem por uma metamorfose entre o humano e o animal.
"Acho que uma das mensagens dessa travessia é uma experiência de maternidade alegre, assertiva e diversa, fora dos padrões morais humanos ocidentais. A fêmea copula com muitos machos durante o período da andada e acaba parindo todos os filhotes. Isso vai de encontro à linhagem sanguínea e às noções de propriedade", afirma a artista.
Mais do que metáfora biológica, a obra também assume caráter político. "Gostaria que o máximo de pessoas pudesse experimentar o que eu senti quando entrei no manguezal, a profunda ligação dos nossos corpos humanos com o corpo vivo da Terra. Desejo que, a partir dessa sensação, mais gente humana esteja conectada com o planeta que nos acolhe, que vibra, se move e responde a todos os nossos movimentos e ações sobre ele", comenta. 
"Ainda tem gente que acha que é só um monte de lama, suja, e quer logo botar um mármore e construir um shopping em cima. A questão é complexa, existem muitos interesses envolvidos", acrescenta. 
O espetáculo fica em cartaz até o dia 27 de agosto no Rio. Depois, Tereza pretende levar a peça para outras cidades e espaços alternativos. "Quero circular com Carangueja pelo Brasil e apresentá-la onde houver escuta, vontade, conexão. É uma obra que pulsa. E eu também", destaca.
Retorno à TV e maturidade 60+
Após mais de 20 anos longe da televisão, Tereza voltou às novelas "Volta Por Cima" (2024), da TV Globo. Também integrou o elenco da segunda temporada da série "Justiça", do Globoplay. "O afastamento não foi intencional. Eu gosto de fazer TV. Gosto de novelas. É uma dramaturgia brasileira que fazemos muito bem e que pode discutir muitos assuntos. Nesse tempo sem novelas, fiz muito teatro. Sempre segui o que estava me interessando e sempre tem alguma coisa me interessando! O desafio é organizar o tempo para tentar aprofundar e realizar tudo", diz, aos risos.
A trajetória da artista nas telinhas começou em 1990, como Laura em "Barriga de Aluguel". Ela também deu vida à Jerusa, em "Pedra sobre Pedra" (1992), Joaninha, em "Renascer" (1993), e a protagonista Dara, em "Explode Coração" (1995), todas escritas por Glória Perez. Participou ainda da minissérie "Hilda Furacão" (1998), episódios de "Você Decide" e da novela "Malhação" em 2002, seu último trabalho antes da longa pausa.
Hoje, a atriz defende a ampliação de narrativas que incluam desejo, prazer, autonomia e complexidade para personagens femininas acima dos 50 anos. "Dramaturgias que construam cenas com borogodó para todas as idades. As pessoas vivem as coisas todas. E não falo só de sexo ou relacionamento amoroso. Vibro quando vejo cenas que exploram os desdobramentos do cotidiano, das escolhas", conta.
Tereza reconhece que o aumento de autoras mulheres é um indicativo positivo. "Nos anos 90 dei sorte de fazer três trabalhos escritos pela Glória Perez. Agora, em 'Garota do Momento', da Alessandra Poggi, a personagem da Palomma Duarte (Lígia) teve um arco muito bom de se ver. Falou de desejo, maternidade, mudanças no corpo… tudo isso sem deixar o amor e a sexualidade de lado". 
Mãe de três filhos — Manuela, formada em cinema, fruto da relação com André Gonçalves; Vittório, estudante de música, de sua união com Luiz Fernando Carvalho; e Juliano, estudante de economia, do casamento com o músico Kiko Horta — Tereza valoriza o contato com a arte desde a infância. "Me sinto muito agradecida por ter podido expor essas crianças à arte o tempo todo, nas menores coisas, no cotidiano mesmo. É uma delícia ver como cada um metaboliza as coisas", frisa.
Futuro
Mesmo com uma carreira sólida e multifacetada, Seiblitz segue movida por desejos criativos. A atriz planeja retomar as aulas de dança e montar um novo espetáculo. Desta vez sobre uma mulher internada em um Centro de Terapia Intensiva (CTI) que mistura suas memórias com as da filha enquanto reflete sobre a finitude, e, quem sabe, transformar "Carangueja" em um filme gravado dentro de um manguezal. "Nunca deixei de ter vontades. Acho que sou uma eterna grávida de sonhos", afirma.
O interesse por projetos audiovisuais também permanece vivo. "Neste momento estou totalmente dedicada à estreia da temporada independente de 'Carangueja' no Poeirinha, mas amo audiovisual. Quero fazer muito cinema e televisão. Meu sonho é estar num set como os do John Cassavetes, com muito ensaio e plano sequência, sem cortes, direto na emoção", projeta.
Serviço
'Carangueja'
Terças e quartas, às 20h
Local: Teatro Poeirinha
Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Ingresso: A partir de R$ 40