Rio - Maria Eduarda de Carvalho é uma das estrelas do espetáculo "Vermes Radiantes", em cartaz no Teatro das Artes, na Gávea, até domingo (27). Na produção, que marca a primeira montagem brasileira do celebrado texto do dramaturgo inglês Philip Ridley, a atriz interpreta Jill, uma personagem multifacetada, envolta em contradições e situações inesperadas na busca incessante por realizar seu sonho.
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"Jill é uma personagem super complexa, que me coloca em um lugar de ambiguidade: seu lado perverso revela uma humanidade que nenhum de nós se sente confortável em admitir que pode carregar dentro de si, pelo menos em alguma medida. Ela é, acima de tudo, um grande desafio", afirma a atriz de 42 anos.
Com direção de Alexandre Dal Farra, "Vermes Radiantes" é uma tragicomédia que mergulha nas tensões de um casal, Jill e Ollie (Rui Ricardo Diaz), diante da promessa de ascensão social. Ao serem contemplados pelo governo com uma nova casa em um bairro afastado, eles enxergam a chance de realizar antigos sonhos. A única exigência feita é que os dois façam uma grande reforma no imóvel. Mas o que parece simples se revela cada vez mais estranho e desafiador, conduzindo os personagens a situações inesperadas que colocam à prova seus desejos, limites e, sobretudo, sua ética.
A atriz reflete sobre as semelhanças entre a fantasia retratada na peça e os dilemas da vida real. Para ela, o espetáculo evidencia conflitos que, de forma silenciosa, fazem parte do cotidiano. "Nós estamos o tempo todo negociando nossos limites, nossos desejos e até nossos pactos silenciosos com a ética", observa. A intérprete de Jill acrescenta que o teatro tem justamente o poder de expor essas tensões e de trazer à superfície aquilo que muitas vezes preferimos ignorar no dia a dia.
A protagonista comenta que o sarcasmo presente no enredo é sua parte favorita em atuar nesse universo tão diferente. "No palco, poder transitar entre o riso e a dor sem pedir licença é libertador. O humor foi minha porta de entrada, porque gosto muito da ironia, desse riso que escapa no meio do desconforto".
Outro artista que também é colega de cena de Maria Eduarda é o diretor musical Marco França que, além de executar a trilha sonora, faz participações na obra como um funcionário da prefeitura. A atriz faz questão de enaltecer os parceiros e conta que apesar de terem escolas de atuação diferentes, os três se complementam e se divertem juntos.
"Marco vem da palhaçaria, Rui é um ator mais dramático, enquanto eu transito pela dor e pelo humor sarcástico. Nos complementamos em cena. Nosso jogo é muito rico! E as bobagens que eles falam no camarim são hilárias!", destaca a artista.
Carioca, ela diz que trazer a peça ao Rio é como atuar na sala de casa. Depois de uma temporada de sucesso em São Paulo, a receptividade da plateia da cidade maravilhosa com o espetáculo foi positiva. "Foi linda! O público foi amplamente caloroso", vibra.
Carreira & Maternidade
Mamãe de Luiza, de 15 anos, Maria Eduarda admite que conciliar a maternidade com a vida intensa na atuação é um desafio. "A maternidade e a culpa andam de mãos dadas", desabafa. A atriz compartilha a incômoda sensação de estar sempre em dívida com algo. Para lidar com essa pressão, ela encontra na terapia uma aliada: "A psicanálise me ajuda a sofrer menos".
Com a rotina intensa, momentos simples em família, como o café da manhã com a filha, são os que possuem mais valor na vida dela. No entanto, a adolescência de Luiza trouxe uma nova realidade. "A verdade, é que depois que ela se tornou uma adolescente, não tem mais café da manhã em família e estou vivendo uma crise existencial sem precedentes", confessa a atriz em tom divertido, mostrando a complexidade de se adaptar ao crescimento da filha.
Versátil, a artista admite que escrever e produzir seus próprios projetos é uma tarefa árdua, mas considera parte essencial da jornada artística. Atualmente, ela se dedica na produção de "Vermes Radiantes", mas já olha pro futuro com entusiasmo, revelando que já tem novos planos.
"Estou focada em levar a peça para o maior número de pessoas possível! Mas, sim, tem coisa nova vindo aí", diz em tom de mistério. Com a agenda cheia, ela prefere manter a calma: "Vamos com um projeto por vez!", finaliza.
Serviço:
Peça Vermes Radiantes Sexta-feira e sábado, às 20h, e domingo às 19h Local: Teatro das Artes Endereço: Rua Marques de São Vicente, 52/2ª piso, Gávea Ingresso: a partir de R$ 60 (meia-entrada)
*Reportagem da estagiária Ellen Izabelle, sob supervisão de Isabelle Rosa