Rio - Flora Camolese, de 24 anos, tem chamado a atenção do público como Nina, filha de Filipa (Cláudia Abreu), na novela "Dona de Mim", que ocupa a faixa das 19h da TV Globo. Na trama, a personagem - quando criança - decidiu morar com a avó, Isabela (Sylvia Bandeira), em Portugal, já que não sabia lidar com a oscilação de humor da mãe, diagnosticada recentemente com transtorno bipolar. Entretanto tudo muda, anos depois, quando ela perde um pacote e é ameaçada pelo namorado Deco (José Maria Brion). Com medo, a jovem retorna ao Brasil para viver com a matriarca na casa de Abel (Tony Ramos).
fotogaleria
Apesar da passagem do tempo, a relação entre mãe de filha segue complexa e cheia de mágoas do passado. "O desenrolar desse choque e enfrentamento de mãe com filha promete. Até porque, afinal de contas, tem muito amor, saudade e dor de ambas as partes", comenta Flora.
A atriz avalia que a parceria com a colega de elenco é fundamental para gravar os embates entre Filipa e Nina. "É constante. Vamos investigando e descobrindo novas camadas a cada passo que damos. Algo essencial nesse desenvolvimento é minha parceria com a Cacau, que não poderia ser melhor. Conversamos muito, nos provocamos, nos ouvimos. Ao contracenar com ela, tem um turbilhão de coisas muitas vezes contraditórias que passam dentro de mim e, ao olhar para ela, vejo o mesmo".
Com traços de vilania e cleptomania, que é o impulso patológico e incontável de roubar, a filha de Filipa é cheia de controvérsias, porque apesar de ter atitudes questionáveis, demonstra uma carência materna desde a infância. "A personalidade e, consequentemente, as atitudes da Nina partem de uma ferida que ainda está muito aberta da infância dela, esse momento crucial em que nos constituímos como gente. A negligência materna, a falta do cuidado e de um olhar atento… Ela não conseguiu transmutar suas dores em uma reescrita de sua própria história e levou para o ressentimento, para a pulsão de morte", acredita Flora.
A artista comenta que seu maior desafio neste papel é o de não julgar a personagem. "Mesmo quando muitas vezes a lógica dela seja absolutamente incompatível com a minha. Mas é isso que faz ser divertido também", diz ela, que conta como foi integrar a novela já em andamento.
"Admito que foi motivo de grande ansiedade, tanto boa quanto não tão boa assim (risos). Eu sabia que a chegada da Nina tinha um bom motivo para ser tardia, mas tinha um desejo natural de querer entrar logo na trama, fazer parte da família que se forma quando se faz uma novela, queria colocar o quanto antes meus dentes e garras nessa personagem que amo tanto fazer. Mas dito e feito, demorou, mas chegou chegando e eu não poderia estar mais contente", vibra.
Protagonizada por Clara Moneke, a trama reúne grandes nomes da teledramaturgia como Tony Ramos, Suely Franco, Juan Paiva, Rafael Vitti e muitos outros. A atriz, então, não poupa elogios aos colegas. "Contracenar com esses feras tá sendo uma benção enorme. Fico pensando se eles têm dimensão da importância e diferença que isso faz na minha vida (pessoal e profissional). Meus ouvidos e poros estão sempre abertos para sugar tudo que eles têm pra me ensinar. Todo dia saio do trabalho agradecendo, agradecendo, agradecendo. E especificamente Tony e Suely têm algo de muito especial que, além de serem grandes atores, eles têm uma estrada de carreira longuíssima, sendo um exemplo de como se conduzir no mercado de trabalho e, a parte que eu mais gosto, cheios de história pra contar", exalta a atriz.
Carreira
"Dona de Mim" é a segunda novela de Flora. Ela estreou nas telinhas em "Vai na Fé" (2023), que também foi escrita por Rosane Svartman. "Muito feliz de fazer parte de mais um projeto com Rosane. Tenho muita admiração por ela como mulher e como profissional. Sua conduta para com os outros, sempre humanizando e exaltando cada profissional que com ela trabalha. Sua habilidade de inventar histórias incríveis, com uma capacidade impressionante de tratar de temas tão urgentes com a maior delicadeza do mundo e de maneira que qualquer um se identifica em algum grau. Sua esperteza de estar sempre atenta e ancorada no aqui e agora, em captar o Zeitgeist. Viva Rosane e suas histórias potentes".
A artista relembra como foi a primeira experiência em folhetins como a personagem Bia. "Fazer novela é entrar na casa de milhões de brasileiros diariamente. Desconheço qualquer outra mídia que tenha esse poder de alcance tão forte quanto as novelas brasileiras. Se ver parte disso tudo é muito doido e incrível".
Flora, então, compara os dois papéis: "A Bia, em 'Vai na Fé', era um personagem mais secundária do que a Nina agora em 'Dona de Mim' (não que seja menos importante), mas foi muito bom ter chegado dessa forma, mais devagarinho, porque o ritmo e volume de trabalho de uma novela são imensos, então pude me adaptar a esse modelo de uma maneira mais calma, fazendo com que eu chegasse na Nina muito mais preparada e sabendo o que esperar", acredita.
Além disso, a atriz protagonizou a série "A Vida Pela Frente" (2023), dirigida por Leandra Leal. "Foi o projeto dos sonhos, com a direção dos sonhos, roteiro, produção, personagem, toda equipe... Saudades de um tempo que não volta mais! Foi uma série que me fez estrear frente às câmeras (até então, achava que ia ser atriz de teatro e teatro somente), que me fez me apaixonar pelo fazer do audiovisual. Foi um projeto construído com a base do carinho e do amor, como todo trabalho deveria ser".
Por fim, a artista revela que pretende desbravar mais um formato: a sétima arte. "Tenho muita vontade de fazer filme. Sou uma cinéfila de carteirinha e tem tantos diretores que sonho em trabalhar com… Kleber Mendonça Filho, Marcelo Gomes, Karim Ainouz, Walter Salles e a lista segue". Para os projetos futuros, ela pretende retornar para onde começou: "Estou com um desejo insaciável de voltar para os palcos. Quero voltar para o teatro".
*Reportagem da estagiária Mylena Moura, sob supervisão de Isabelle Rosa