Rainer Cadete Divulgação/Sergio Santoian

Rio - Rosto conhecido nas tramas de Walcyr Carrasco, Rainer Cadete volta a interpretar Celso em "Etâ Mundo Melhor!", novelas das 18h da TV Globo. Irmão de Sandra (Flávia Alessandra), o personagem se revolta com a herança deixada por Anastácia (Eliane Giardini) e arma golpes por ganância. Um deles é esconder o filho perdido de Candinho (Sergio Guizé) na Casas dos Anjos visando tirar proveito da busca do primo pelo menino.
Apesar do processo de redenção em "Êta Mundo Bom!", o personagem reaparece com atitudes questionáveis na trama atual. Para Rainer, essa recaída não significa incoerência, mas uma representação fiel das contradições humanas. "Uma parte do Celso deseja a luz e outra tem medo de perder o que conquistou sem as artimanhas. Quando o medo fala mais alto, esse lado obscuro volta a aparecer. Eu vejo ele como um lembrete de que ninguém se livra da própria escuridão de uma vez por todas.  Só que, no caso dele, às vezes a sombra pega o volante de novo", analisa.
O ator de 38 anos explica que o segredo em torno do paradeiro de Samir (Davi Malizia) traz uma carga emocional pesada para Celso, que se vê dividido entre a culpa e o desejo de se dar bem. "O Candinho oferece a ele uma amizade genuína, quase inocente, e isso mexe com ele. Em vários momentos ele até quis contar, chegou a escrever uma carta revelando tudo, mas nunca teve coragem de entregar. Talvez seja essa incapacidade de decidir que faz dele tão humano."
A morte de Maria (Bianca Bin) marca um ponto de virada para o primo de Candinho, que vira a base para sua revolta. "Quando a gente perde alguém que ama, ou se reconstrói no afeto ou endurece. No caso dele, a dor virou raiva, e a raiva virou ambição. Ele sentiu que a vida foi injusta, que lhe tiraram não só o amor, mas também o que ele acreditava ser seu por direito", diz o artista. 
Essa transformação está ligada ao sentimento de injustiça que Celso experimenta com a ausência do grande amor e a sensação de que algo que considerava ser seu por direito foi negado: a herança de Anastácia. "É quase como se ele dissesse: 'já que a vida me arrancou o essencial, eu vou lutar nem que seja pelas sobras'. Esse movimento é muito humano porque, no fundo, cada um reage à perda de um jeito. O Celso escolheu o caminho torto, e é justamente isso que torna ele tão interessante de viver em cena", acrescenta.
Com a viuvez, Celso se relaciona com Estela (Larissa Manoela) e o romance traz ainda mais conflitos internos. O casal rompeu o namoro após ele descobrir que a enfermeira teve envolvimento com outro homem no passado. "Isso fala não só do personagem, mas de um machismo estrutural que atravessa séculos: o homem que cobra da mulher uma pureza que ele mesmo não sustenta", afirma Rainer. 
O antigo envolvimento da enfermeira com Ernesto (Eriberto Leão) causa uma nova separação depois da jovem visitar o ex-namorado na prisão. Celso não tolera a atitude, mesmo também guardando segredos. "Essa hipocrisia pode implodir a relação, mas também serve como espelho para a gente olhar para hoje e perceber o quanto ainda reproduzimos esses padrões. Ele se envolve com a Estela de um jeito verdadeiro, mas ao mesmo tempo carrega uma mochila pesada de atitudes questionáveis".
O retorno de Sandra (Flávia Alessandra) promete agitar a vida de Celso no folhetim. A loira pretende regressar ao Brasil depois de fugir da prisão e casar com Barão (Jaime Leibovitch) em um castelo europeu. O ator relembra que as primeiras cenas da trama foram gravadas ao lado da atriz.
"Começar por aí foi muito simbólico porque estávamos falando de um reencontro com ela na cadeia, depois de tantos anos de "Êta Mundo Bom!" Ver essa personagem pagando pelos seus crimes, tendo só o Celso ao lado, me trouxe muitas lembranças da minha própria história com a novela. Logo percebi que essa volta não seria previsível: o Celso segue dividido entre alimentar o lado positivo ou o lado negativo da força, e isso me deixa curioso como ator", avalia.
Rainer acredita que há uma ligação afetiva entre Celso e Sandra, embora reconheça que a relação é marcada por desequilíbrios. "Ela já se mostrou inescrupulosa, capaz de tudo para atingir seus objetivos. Não sei se esse afeto pelo irmão é tão genuíno assim. Ela seria capaz de sacrificá-lo, e não tenho certeza se o Celso faria o mesmo".
Com tantos desdobramentos na história de Celso, revisitar o personagem tem sido uma experiência de amadurecimento artístico para Rainer. "É como reencontrar um velho amigo: ele continua o mesmo, mas já não é igual. O tempo me trouxe outras vivências, e isso colore o jeito de interpretar. É bonito perceber como ele cresceu comigo, ainda cheio de sombras e contradições, mas agora com camadas que antes eu não via".
Literatura 
Fora das telas, Rainer Cadete se dedica a projetos que abordam questões sociais profundas, como o livro "Olhares que Filtram". Escrito em parceria com o filho, Pietro Cadete, de 18 anos, a obra propõe uma reflexão em torno do racismo estrutural a partir de experiências pessoais.
"Esse livro nasceu de um gesto de amor e se tornou também um gesto de luta. Enquanto pai e filho, nos aproximamos ainda mais, e enquanto cidadãos, nos unimos no compromisso de compartilhar nossas vivências para que mais olhares possam se abrir", conta. 
O ator precisou transformar em palavras experiências vividas em escolas, espaços públicos e no cotidiano de uma família multirracial. "O livro foi escrito para todas as idades, mas especialmente para os jovens, já que o Pietro estava na adolescência quando começamos a escrever e hoje vê essa obra sendo adotada em escolas para debates fundamentais".
Ao expor suas vivências, Rainer e Pietro transformam intimidade em ferramenta de transformação social. "É muito bonito perceber que nossa vivência pode inspirar reflexões sobre como combater o racismo e assumir uma postura antirracista. Afinal, o racismo é crime, mas ainda assim segue violentando milhares de corpos todos os dias. E é por isso que esse livro é também um convite: para que cada pessoa se reconheça nessa luta, que é coletiva, urgente e necessária", destaca.