Ata alega 'forte aumento da incerteza'Marcello Casal Jr/Agência Brasil
A mensagem consta na ata da reunião de março do Copom, publicada na manhã desta terça-feira, 24. Assim como no comunicado, o colegiado não explicitou qual deve ser o ritmo de "calibração" da Selic, nem qual o orçamento total para cortes da taxa básica de juros.
O colegiado cortou a Selic em 0,25 ponto porcentual, de 15% para 14,75% ao ano, na última quarta-feira, 18. Foi a primeira redução da taxa após quase dois anos - a autoridade monetária havia cortado a Selic pela última vez em maio de 2024.
Na ata publicada nesta terça, o colegiado também reafirmou que, em meio ao "forte aumento da incerteza", irá conduzir o processo de calibração com "serenidade e cautela", e enfatizou que a decisão de reduzir a Selic é compatível com a estratégia de convergência da inflação para ao redor da meta ao longo do horizonte relevante. "Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego", emendou.
O Copom repetiu as projeções para a inflação já apresentadas no comunicado. O colegiado prevê alta de 3,9% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026 e 3,3% no terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária - ligeiramente acima do centro da meta, de 3,0%. Para os preços livres, projeta altas de 3,7% em 2026 e 3,3% no terceiro trimestre de 2027. Para os administrados, prevê altas de 4,3% e 3,2%, respectivamente.
Todas as projeções partem do cenário de referência, com trajetória de juros do Relatório Focus (publicado em 16 de março) e bandeira amarela de energia elétrica em dezembro de 2026 e 2027. A taxa de câmbio começa em R$ 5,20 e evolui conforme a paridade do poder de compra (PPC). Os preços do petróleo seguem aproximadamente a curva futura por seis meses e, depois, sobem 2% ao ano.
"Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras", disse, no 15º parágrafo da ata.
O colegiado ponderou que considerou que os eventos recentes não impediriam a materialização da sinalização dada na reunião de janeiro, de que começaria o ciclo de calibração da taxa básica de juros, baseado nas evidências dos impactos da política monetária sobre o nível de atividade e sobre a inflação Diante disso, detalhou que foram analisadas as opções para o ritmo de início do ciclo, concluindo que nesse momento a redução de 0,25 ponto porcentual seria a mais adequada.
O Copom também relembrou que a sinalização dada em janeiro foi de que a calibração da política monetária manterá seu caráter restritivo, de modo a assegurar a convergência da inflação à meta.
Ainda sobre o cenário de referência, o comitê detalhou que continuará acompanhando os dados para calibrar e refinar os impactos da medida de ampliação da isenção do imposto de renda sobre as projeções.
"O Comitê avalia que perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária favorecerão a continuidade desse movimento, importante para a convergência da inflação à meta com menor custo", disse no 9º parágrafo da ata.
Na sequência, acrescentou que a principal conclusão obtida foi de que, "em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado". Essa conclusão, ressaltou, foi compartilhada por todos os membros do Comitê.
"A atividade econômica doméstica manteve trajetória de moderação no crescimento, tal como antecipado pelo comitê". "O comitê relembra que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta."
O Copom destacou que a moderação no ritmo de crescimento tem sido heterogênea, com maior desaceleração em mercados sensíveis às condições financeiras. Isso, segundo o comitê, é compatível com o estágio atual da política monetária. Os indicadores disponíveis até agora sinalizam aceleração da atividade no começo de 2026, o que também está dentro do esperado e é compatível com um PIB positivo este ano, diz a ata.
A cúpula do BC reforçou que continua acompanhando "detidamente" o mercado de trabalho brasileiro, diante do desemprego historicamente baixo e da tendência de aumento dos rendimentos acima da produtividade.
"O comitê segue atento ao debate sobre as dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade do aprofundamento dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia", diz a ata.
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