Entre os motivos para o aumento da procura por seminovos, 79% citam o preço mais acessívelRovena Rosa / Agência Brasil

Rio - O mercado de carros seminovos está aquecido no Brasil. Segundo um levantamento da Webmotors, plataforma automotiva, os veículos usados dominam o desejo de compra de 67% dos brasileiros que pretendem adquirir um carro em 2026. O DIA conversou com especialistas para entender as vantagens e desvantagens desse tipo de compra.
A pesquisa, feita com 1,8 mil participantes entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, revelou que o interesse por veículos do segmento cresceu dois pontos percentuais em 2026, enquanto a preferência por veículos zero-quilômetro caiu de 17% para 15%.
Entre os motivos para o aumento da procura por seminovos, 79% citam o preço mais acessível, enquanto 35% apontam a facilidade na negociação e 32%, a busca por um modelo mais completo.
Aspectos como pronta entrega (32%), menor depreciação (27%) e maior variedade de opções disponíveis (26%) também foram indicados. Com menor peso, apareceram a valorização na troca (13%), o custo do seguro (12%) e até o interesse por modelos mais antigos (11%).
O diretor de tecnologia da Infocar, Sergio Sousa, destaca que, nos últimos anos, a comparação entre os modelos de veículos novos e seminovos ficou mais complicada.
Sergio Sousa, diretor de tecnologia da Infocar - Arquivo pessoal
Sergio Sousa, diretor de tecnologia da InfocarArquivo pessoal
"A diferença ficou mais complexa. O aumento dos preços dos veículos novos elevou a referência de valor de boa parte dos seminovos, mas isso não significa que todos tenham acompanhado essa valorização na mesma proporção", explica.
"Em 2026, inclusive, os preços dos usados apresentaram queda no primeiro semestre, enquanto os zero-quilômetro ficaram praticamente estáveis, segundo o Índice Webmotors. Isso mostra que o lojista precisa olhar para o preço praticado de fato no mercado, e não simplesmente aplicar um percentual de desconto sobre o preço do zero-quilômetro", conclui o especialista.
A moradora do Recreio, na Zona Sudoeste do Rio, Sarah de Carvalho, de 39 anos, conta que optou por um carro seminovo pelos preços mais atrativos.
Moradora do Recreio, na Zona Sudoeste do Rio, Sarah de Carvalho, de 39 anos - Arquivo pessoal
Moradora do Recreio, na Zona Sudoeste do Rio, Sarah de Carvalho, de 39 anosArquivo pessoal
"Comecei a pesquisar depois que me mudei para o Recreio, porque percebi que aqui tudo é muito distante e que depender de Uber o tempo inteiro poderia acabar ficando caro", pontua.
"Quando comecei a buscar, naturalmente fui primeiro para os seminovos, porque comprar um zero-quilômetro, para quem está adquirindo o primeiro carro, representa um investimento muito alto. Queria encontrar um carro popular, econômico e que atendesse às minhas necessidades do dia a dia", lembra.
Sarah conta que, além do preço, outros fatores a influenciaram no momento da compra.
"O preço pesou muito, mas comecei a olhar também para a quilometragem, o estado de conservação, o consumo de combustível e o custo de manutenção. Como seria meu primeiro carro, eu não queria comprar simplesmente o mais barato. Queria algo confiável, econômico e que não trouxesse uma série de gastos depois. Também considerei bastante a praticidade, porque a ideia era ter um carro justamente para facilitar minha rotina."
O CEO da Auto Avaliar, plataforma digital de compra e venda de veículos usados, J.R. Caporal, diz que já há casos, ainda que pouco comuns, de seminovos com até dois anos de uso que custam quase o mesmo que modelos zero-quilômetro da mesma categoria.
J.R. Caporal, CEO da Auto Avaliar - Arquivo pessoal
J.R. Caporal, CEO da Auto AvaliarArquivo pessoal
"Quando isso acontece, normalmente existe uma combinação de fatores: alta procura pelo modelo, baixa oferta, pouca quilometragem, boa conservação e aumento expressivo do preço do zero-quilômetro que o substituiu. Não é uma tendência geral", explica.
"Também existem muitas comparações incorretas. Às vezes, estamos comparando um seminovo completo com um zero de versão básica. Em outros casos, compara-se o preço anunciado do usado com o preço de tabela do novo, sem considerar bônus, desconto de fábrica, taxa subsidiada ou valorização do usado recebido na troca", acrescenta.
Como comparar os modelos
Para fazer a comparação de forma correta, o CEO da Auto Avaliar aponta que se deve considerar alguns fatores além do preço anunciado, como:
- preço final negociado, já com descontos e bônus;
- custo efetivo total do financiamento;
- valor da entrada e custo de oportunidade desse dinheiro;
- IPVA, seguro e documentação;
- revisões, pneus e manutenção prevista;
- consumo de combustível ou energia;
- cobertura da garantia;
- depreciação provável e valor de revenda;
- risco de reparos e tempo de imobilização.
Também é fundamental, segundo Caporal, comparar versões equivalentes. "Um seminovo mais completo pode oferecer mais conteúdo do que um zero básico, mas o consumidor deve se perguntar se realmente utiliza e valoriza esses equipamentos", destaca.
Modelos que desvalorizam co maior rapidez
Os veículos mais vulneráveis são os que sofrem reduções frequentes no preço do zero-quilômetro, diz o CEO da Auto Avaliar.
"Eles passam por mudança de geração, saem de linha ou apresentam baixa procura no mercado secundário", especifica.
"Alguns elétricos também enfrentam uma curva mais acentuada, principalmente quando há guerra de preços, evolução tecnológica rápida, dúvidas sobre bateria, seguro, manutenção e infraestrutura de pós-venda. Isso não significa que todo elétrico desvalorize muito. O problema está na instabilidade de preços e na dificuldade de prever o valor de reposição", esclarece.
"Carros premium, modelos com manutenção cara, baixa rede de assistência ou pouca disponibilidade de peças também costumam sofrer mais. O valor residual é, antes de tudo, consequência de confiança e liquidez", acrescenta.
Como escolher um modelo seminovo
Para escolher um modelo seminovo, é preciso ficar atento a alguns detalhes. Entre eles, Nadja Ribeiro, proprietária do Centro Automotivo Mulher, destaca:
Nadja Ribeiro, proprietária do Centro Automotivo Mulher - Arquivo pessoal
Nadja Ribeiro, proprietária do Centro Automotivo MulherArquivo pessoal
- verificar a procedência e o histórico de manutenção do veículo;
- solicitar o manual e a chave reserva;
- conferir as condições dos pneus e do estepe;
- testar todos os itens com o carro funcionando, como vidros elétricos, ar-condicionado, travas, alarmes, faróis e lanternas, além de prestar atenção às luzes do painel;
- fazer um teste de rodagem;
- não esquecer de verificar a última troca de óleo do motor e dos filtros, além de inspecionar o reservatório de água.
Vantagens e desvantagens
Entre as vantagens de adquirir um modelo seminovo, Sergio Sousa, diretor de tecnologia da Infocar, ressalta "a possibilidade de adquirir um veículo relativamente recente, sem assumir toda a perda de valor associada aos primeiros anos de uso".
Para o lojista, o especialista também vê vantagens nos modelos que apresentam boa liquidez, quando pertencem a categorias e modelos com demanda consolidada.
"O principal cuidado está na procedência. Um veículo aparentemente barato pode esconder passagem por leilão, sinistro, restrições, problemas documentais, alterações de quilometragem ou outros fatores que comprometam sua precificação e dificultem a revenda. Por isso, a consulta do histórico deve fazer parte da decisão de compra, e não ser uma etapa posterior", alerta Sousa.
Entre as desvantagens, Yan Oliveira Vasconcellos, professor de Engenharia Mecânica na Unisuam, aponta a menor garantia, a possível necessidade de manutenção e o histórico de uso.
Yan Oliveira Vasconcellos, professor de Engenharia Mecânica na Unisuam - Arquivo pessoal
Yan Oliveira Vasconcellos, professor de Engenharia Mecânica na UnisuamArquivo pessoal
"Se a diferença para o 0 km for pequena, prefira o zero; o seminovo vale mais a pena quando a economia for significativa", frisa o especialista.
A pesquisa realizada pela Webmotors indica que, no caso da preferência pelo modelo zero-quilômetro, o processo está associado principalmente à garantia de fábrica (49%), segurança e confiança (37%) e melhores condições do veículo (29%). Outros aspectos que se destacam são procedência do automóvel e tecnologia/funcionalidades (27% cada), design moderno (26%), opção de levar o carro atual na troca (23%), opção de financiamento (19%), veículo mais completo (18%), confiança na concessionária (15%) e facilidade na negociação (14%).