São 25.429 pontos de carregamento públicos e semipúblicos para veículos eletrificados em todo o território nacionalJosé Cruz / Agência Brasil

A venda de carros eletrificados se mantém em constante crescimento em todo o Estado. Desde o início do 2026, já foram vendidas 12.370 automóveis elétricos ou híbridos. No mesmo período do ano anterior, as vendas totalizaram 6.772. A variação representa um crescimento de 82%.

De acordo com os dados da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), esse foi o maior patamar atingido no Rio de Janeiro. Só no mês de maio, a comercialização chegou a 3.172 unidades, aumento de 15,6% em relação a abril. Desde 2022, o Estado passou a contar com pelo menos 56.029 carros eletrificados em circulação.

A infraestrutura de carregamento também se expandiu. O Estado já conta com 1.717 eletropostos, dos quais 973 se localizam na cidade do Rio de Janeiro. O crescimento é visível em todo o território nacional — total de 25.429 pontos de carregamento públicos e semipúblicos. Desde fevereiro, o país teve um aumento de 20,73%.

Há diversos sites que indicam pontos de carregamento nas cidades brasileiras. A maior parte das plataformas não reúne todos os pontos disponíveis, mas elas cumprem a função de auxiliar os usuários. Dois exemplos disso são o site Carregados e o aplicativo Waze.
Mapa do site Carregados ainda não está completo mas identifica a maioria dos eletropostos disponíveis na região - Reprodução/Carregados.com.br
Mapa do site Carregados ainda não está completo mas identifica a maioria dos eletropostos disponíveis na regiãoReprodução/Carregados.com.br
Apesar do cenário positivo, os números ainda são baixos comparados com os carros a combustão — que utilizam gasolina, diesel, etanol ou GNV. De acordo com a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), no Brasil as vendas bateram a marca de 873.578 unidades a combustão, contra 189.106 de modelos eletrificados — o que representa 17,8% do total no país.

De acordo com o Detran-RJ, em 2024, a frota de carros particulares fluminenses era de 5.373.902 automóveis. Se comparado ao número atual de carros eletrificados, eles representam apenas 1,04% do total.

Paulo Fares, criador do GWM Ora Clube, que reúne proprietários e interessados pelos modelos da linha Ora da marca GWM, está no segundo carro elétrico e não vê motivos para voltar a ter um carro a combustão.
O GWM Ora Clube mostra o cotidiano de como é ser um usuário de um modelo da marca e dicas para os proprietários - Divulgação/GWM
O GWM Ora Clube mostra o cotidiano de como é ser um usuário de um modelo da marca e dicas para os proprietáriosDivulgação/GWM
“Para quem ainda pensa em comprar um carro eletrificado, os carros híbridos são um ótimo caminho, pois garantem a economia, a sensação de um veículo com propulsão elétrica, sem o medo de não conseguir viajar, por exemplo”, recomenda Paulo.

Fares citou como motivos para deixar de ter um carro a combustão os custos com combustível, a manutenção de diversos componentes dos motores tradicionais e a vontade de conhecer novas tecnologias.

“Coloco o carro para carregar quando chego em casa e, no dia seguinte estou com a bateria cheia, gastando cerca de 25 a 30% do que gastaria com o uso de combustíveis fósseis. Além da manutenção menor do carro, não tenho preocupação se o combustível é bom ou não, e as revisões são mais espaçadas, já que no caso do GWM Ora as revisões são a cada 24 mil km ou dois anos”, explicou.

Mesmo com tantos pontos positivos, algumas pessoas podem se frustrar com a aquisição de um carro elétrico. O principal ponto diz respeito à autonomia dos veículos. São frequentes as situações em que automóveis de entrada não têm autonomia maior que 300 km por carga completa. Isso pode representar um incômodo para quem viaja longas distâncias e não gosta de fazer paradas durante o trajeto.

O gerente de tecnologia André Mattos possui um Ora 3. Ele mora em Macaé e viaja com frequência ao Rio de Janeiro. Segundo o Inmetro, a autonomia do modelo é de 232 km pelo Inmetro, isso lhe permite ir e voltar até metade do caminho, carregar por 40 minutos e terminar a viagem.

Na visão de Matos, alguns aspectos precisam melhorar, como a disponibilidade de mais pontos de recarga, a falta de padronização dos preços cobrados pelo carregamento. “Há pontos de recarga com valores do kWh (quilowatt-hora) de R$ 1,49 até R$ 4”, reclama. Os carros elétricos costumam ter baterias com capacidade entre 38 e 60 kWh.

Matos comprou o carro zero no fim de 2024. Segundo ele, mesmo depois de 74 mil km rodados, a recorrência de revisões foi baixa. Já a manutenção ficou apenas na troca de filtro de ar e pneus.

A estudante de Medicina Manoela Sales tem como primeiro carro um BYD Dolphin Mini. Ela relata que tem o hábito de utilizar o carro de segunda a sexta-feira para ir à faculdade. O trajeto de ida e volta soma cerca de 18 km por dia. Nos fins de semana, costuma usar para compromissos próximos de casa e vai pelo menos uma vez por semana a Laranjeiras — cerca de 50 km somando a ida e a volta. Mesmo com o uso diário, ela consegue utilizar o veículo uma semana e meia sem necessidade de recarga.

Um receio da maioria das pessoas diz respeito ao tempo de recarga. Para a maioria dos modelos, as marcas informam que ao usar um equipamento de carregamento rápido a bateria chega a 100% em um pouco mais de 40 minutos.
Além de pontos de carregamentos, há postos públicos destinados apenas para carros elétricos e híbridos plug-in - Divulgação/Prefeitura do Rio
Além de pontos de carregamentos, há postos públicos destinados apenas para carros elétricos e híbridos plug-inDivulgação/Prefeitura do Rio
Outros aspectos elogiados pelos proprietários se referem à tecnologia presente no carro, como assistências de condução e baliza, controles de estabilidade e conectividade com o celular. Além isso, a ausência de vibrações e a entrega instantânea de potência são diferenciais importantes dos motores elétricos.

Carros eletrificados

O conceito de carro eletrificado inclui qualquer modelo que possua algum tipo de motorização elétrica, e não apenas os carros 100% elétricos. De acordo com o professor e pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio Edmar de Almeida, entram nessa conta os seguintes modelos:

- híbridos leves (MHEV): carros com um pequeno motor elétrico e uma pequena bateria que auxilia o motor a combustão principal e não precisa ser carregado na tomada;
- híbridos (HEV): veículos com bateria maior, equipados com motor elétrico e outro a combustão, que podem operar separadamente ou em conjunto, conforme a necessidade;
- híbridos plug-in (PHEV): similar ao híbrido, só que o motor elétrico tem maior potência e também precisa ser carregado na tomada;
- elétricos (BEV): carros totalmente elétricos que devem ser carregados na tomada, sem a presença de um motor a combustão e com uma bateria bem maior.

Almeida explica que há diversos benefícios nos carros eletrificados em relação aos carros a combustão. O principal deles diz respeito à economia de combustível. Quanto maior a participação do motor elétrico nos carros híbridos, menor o consumo por km. Alguns modelos híbridos conseguem atingir 25 km por litro.

Já nos carros elétricos, o custo da eletricidade por km representa cerca de 25% do valor gasto com outros combustíveis. Além disso, tem menor custo de manutenção, já que a quantidade de peças que precisam de troca é menor que o usual.

Todos esses veículos emitem menos gases poluentes, principalmente os modelos elétricos, já que a emissão se relaciona à geração de energia, e não à queima de combustíveis.

Uma característica comum deles é o preço elevado em comparação a outros carros da mesma categoria. Porém, o valor economizado em um carro a combustão vai ser gasto com combustível em poucos anos.

Benefícios

Cada estado possui políticas próprias de impostos para veículos eletrificados. No caso do Rio de Janeiro, os benefícios fiscais para pessoas físicas estão atrelados ao custo do IPVA. Para carros a combustão o IPVA é de 4% do valor do veículo na Tabela Fipe, já para carros híbridos, a alíquota cai para 1,5% e carros elétricos, apenas 0,5%.

Além disso, as montadoras oferecem garantias prolongadas para o veículo e, principalmente, para a bateria, enquanto as concessionárias já contam com estrutura para realizar revisões e manutenção
Impacto ambiental
Quanto aos impactos ambientais dos veículos elétricos, a primeira associação costuma ser a de um automóvel que não emite gases poluentes pelo escapamento, já que utiliza eletricidade em vez de gasolina, diesel, etanol ou GNV. No entanto, essa avaliação levar em conta a análise de ciclo de vida, que mede o impacto ambiental de um produto desde a extração das matérias-primas até o descarte.

De acordo com a coordenadora do Grupo de Energias Renováveis e Alternativas Rurais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Juliana Lobo, os veículos elétricos representam um importante avanço para reduzir a poluição atmosférica nas cidades. Do ponto de vista das emissões, eles praticamente eliminam a liberação de poluentes durante o funcionamento. Ela ressalta, porém, que os impactos ambientais não podem ser analisados apenas durante a circulação do veículo.

É justamente nas etapas de mineração, processamento dos materiais e fabricação que os veículos elétricos enfrentam seus maiores desafios ambientais, explica o doutor em engenharia de produção Luis Henrique Rigato Vasconcellos. Enquanto os carros a combustão concentram a maior parte das emissões durante o uso, os elétricos representam grande parte do impacto ambiental na fase de produção.

"O principal responsável por essa 'dívida' de carbono é a bateria. Fabricar baterias de íon-lítio é um processo intensivo em energia e materiais. Lítio, cobalto, níquel e grafite, extraídos de regiões como a América do Sul, o Congo e a Austrália, exigem mineração, transporte e refino, processos que consomem muita energia e geram emissões significativas", afirma Vasconcelos.

Estudos do International Council on Clean Transportation (ICCT) mostram que as emissões geradas na produção de um veículo elétrico a bateria (BEV) podem ser de 30% a 70% maiores do que as de um veículo com motor a combustão (ICEV) de porte semelhante. A bateria, sozinha, responde por 30% a 50% dessas emissões.

Apesar do impacto inicial, o engenheiro afirma que o carro elétrico compensa a "dívida" de carbono ao longo da vida útil. Como não produz emissões pelo escapamento durante o uso, tende a emitir menos gases de efeito estufa do que um veículo a combustão quando considerado todo o seu ciclo de vida. "Em países com matriz elétrica limpa, como Noruega e Brasil, esse ponto de equilíbrio pode ser alcançado entre 20 mil e 30 mil quilômetros rodados", explica.

Juliana destaca que, no Brasil, a eletrificação da frota tem uma vantagem importante devido à matriz elétrica predominantemente renovável, baseada na geração hidrelétrica e com participação crescente das fontes solar, eólica e biomassa. Ela pondera, no entanto, que a transição aumentará a demanda por eletricidade e exigirá investimentos na infraestrutura de geração e na diversificação das fontes. "Por isso, são necessárias políticas públicas que ampliem a oferta de energia renovável e fortaleçam o sistema elétrico, garantindo que essa transição seja ambientalmente sustentável e energeticamente segura."

Vasconcelos acrescenta que a mobilidade elétrica também depende de avanços em toda a cadeia produtiva, desde os processos de fabricação e a escolha de materiais até a criação de sistemas eficientes para a reciclagem das baterias ao fim da vida útil.
* Matéria do estagiário Felipe Scofield, sob supervisão de Marlucio Luna