Ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos Donald TrumpAlan Santos

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Brasil está fazendo uma "coisa terrível" no tratamento concedido ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Bolsonaro é réu no Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de atuação trama golpista, e está inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
De acordo com o republicano, Bolsonaro foi um "líder forte" e que estava de olho na "caça às bruxas de Jair Bolsonaro, sua família e milhares de seus apoiadores, muito de perto".
"O Brasil está fazendo uma coisa terrível em seu tratamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Eu tenho assistido, assim como o mundo, como eles não fizeram nada além de ir atrás dele, dia após dia, noite após noite, mês após mês, ano após ano! Ele não é culpado de nada, exceto por ter lutado pelo POVO. Eu conheci Jair Bolsonaro, e ele foi um líder forte, que realmente amava seu país — também, um negociador muito duro em comércio. Sua eleição foi muito apertada e agora, ele está liderando nas pesquisas", escreveu.
"Isso não é nada mais, nada menos, do que um ataque a um oponente político — algo que eu sei muito sobre! Aconteceu comigo, vezes 10, e agora nosso país é o 'mais quente' do mundo! O Grande Povo do Brasil não vai tolerar o que eles estão fazendo com seu ex-presidente. Estarei de olho à caça às bruxas de Jair Bolsonaro, sua família e milhares de seus apoiadores, muito de perto", acrescentou.
"O único julgamento que deveria estar acontecendo é um julgamento pelos eleitores do Brasil — chama-se eleição. Deixe Bolsonaro em paz!", finalizou.
A declaração acontece após Trump ter publicado contra os Brics ameaçando taxas para quem apoiasse as ações que ele chamou de 'antiamericanas' do bloco econômico, liderado agora pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Depois da divulgação da declaração final da cúpula no Rio de Janeiro, prometeu ameaçou aplicar tarifas extras de 10% a partir de primeiro de agosto.
Bolsonaro é réu por tentativa de golpe
Em fevereiro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) acusou Bolsonaro, de 70 anos, de liderar uma "organização criminosa" para não reconhecer o resultado das eleições de outubro de 2022 e impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 
Ele foi apontado pela PGR como chefe do grupo. Para a procuradoria, além de ter incentivado acampamentos nos quartéis, disseminou ataques às urnas, editou o decreto golpista e pressionou militares a aderir ao golpe.
O plano golpista ainda contemplava o assassinato de Lula, Alexandre de Moraes e Geraldo Alckmim, segundo a PGR. 

A suposta trama teria fracassado por falta de apoio dos comandantes militares, mas Bolsonaro e outros sete ex-colaboradores podem receber sentenças de 40 anos de prisão se forem condenados pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado.
O líder da direita insiste em retornar à política, apesar de estar inelegível para as eleições de 2026, e nega as acusações, declarando-se perseguido pela Justiça.
Depoimento sobre golpe
O primeiro a depor do "núcleo principal" no dia 9 de junho foi o tenente-coronel Mauro Cid, ex-braço direito de Bolsonaro durante sua presidência (2019-2022), que assinou um acordo de delação premiada com a Justiça.

Cid disse ao STF que o ex-chefe do Executivo cogitou um plano para decretar um "estado de sítio" e "refazer as eleições" em 2022 após sua derrota para Lula.

O militar explicou que Bolsonaro "recebeu e leu" o documento apresentado por seus assessores, que previa a "prisão de autoridades" e a criação de um "conselho eleitoral" para refazer as eleições vencidas por Lula.

O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro foi interrogado por quatro horas e, em alguns momentos, pareceu hesitante. Ele respondeu com "não me lembro" a várias perguntas.

O advogado de Bolsonaro, Celso Vilardi, criticou as "contradições" e a "memória absolutamente seletiva" de Cid e afirmou que a audiência foi "ótima" para os esforços da defesa do ex-presidente de anular o processo judicial contra ele.
Segundo o militar, o ex-presidente "enxugou" a minuta que previa, inicialmente, a prisão de diversas autoridades do Poder Judiciário e do Congresso, como ministros do STF e o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
"Ele (Bolsonaro) enxugou o documento. Basicamente, retirando autoridades das prisões. Somente o senhor ficaria como preso. O resto...", declarou Cid, se dirigindo a Moraes. O ministro respondeu, em tom de brincadeira: "O resto foi conseguido um habeas corpus".

Essa minuta com propostas golpistas teria sido levada a Bolsonaro pelo ex-assessor da Presidência Filipe Martins, segundo o tenente-coronel.
"Eu não estava na sala no momento em que foram feitas as alterações. Depois que ele (Martins) sentou do meu lado, ali que vi o documento. Ele estava com o computador para fazer essas alterações solicitadas pelo presidente", narrou.

Dinheiro

As declarações de Cid também implicaram o general Walter Braga Netto (PL). Ex-ministro da Defesa e da Casa Civil e candidato a vice na chapa de Bolsonaro em 2022, o militar está preso no Rio desde dezembro do ano passado. De acordo com o tenente-coronel, ele recebeu dinheiro do general no Palácio da Alvorada e repassou ao major Rafael Martins de Oliveira, outro acusado de tentativa de golpe.

O dinheiro, relatou Cid, estava numa caixa de vinho. "O general Braga Netto trouxe uma quantia em dinheiro que eu não sei precisar quanto foi. Recebi e no mesmo dia passei para o major De Oliveira." Questionado sobre a origem do dinheiro, respondeu que "provavelmente" veio do "pessoal do agronegócio que estava ajudando a manter as manifestações na frente dos quartéis".

Braga Netto foi apontado por Cid como o "elo" entre o governo Bolsonaro e apoiadores do ex-presidente acampados em frente a quartéis depois da eleição. Foi desses acampamentos que partiram os radicais envolvidos no 8 de Janeiro. Cid disse que o general sabia do plano Punhal Verde e Amarelo, que previa prisão e execução de autoridades.

Urnas

No início do interrogatório, Cid foi questionado por Moraes se a denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, era verdadeira. O tenente-coronel não respondeu objetivamente, mas declarou ter conhecimento do plano golpista. "Eu presenciei grande parte dos fatos, mas não participei." Ainda conforme Cid, Bolsonaro "sempre buscou uma fraude nas urnas", mas "não se conseguiu comprovar nada".

O militar negou ter sido coagido para fazer a delação. Moraes mencionou áudios publicados pela Veja nos quais Cid se queixa de procedimentos da Polícia Federal e do próprio magistrado. Cid respondeu que se tratou de "desabafo de um momento difícil" pelo qual ele e sua família estavam passando. "Em nenhum momento houve pressão (da PF)."

Na primeira parte da sessão, que durou três horas, Cid respondeu às perguntas de Moraes (relator), do ministro Luiz Fux, que atua como revisor informal, e de Gonet. A estratégia foi minimizar sua participação na trama. Ele relatou que era procurado por radicais, mas, em sua versão, ficou distante das tratativas de golpe.

Ao ser confrontado com mensagens em que afirma que o ex-comandante do Exército Marco Antônio Freire Gomes "fraquejou", Cid disse que apoiou o general. "Sempre coadunei com as ideias dele, de que qualquer ação mais radical geraria um grande problema para o País."

Classificação

Moraes pediu que Cid classificasse os réus com base na sistematização que ele próprio citou na delação: conservadores, moderados e radicais. Apenas o almirante Almir Garnier, ex-comandante da Marinha, foi classificado como radical.
Os ex-ministros Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira (Defesa) e Braga Netto eram, para Cid, moderados. Os ex-ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Anderson Torres (Justiça) e o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem não foram enquadrados em nenhum grupo específico.
Também são réus:

- Alexandre Ramagem, ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin);
- Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha do Brasil;
- Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal;
- General Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência;
- Mauro Cid, ex-chefe da Ajudância de Ordens da Presidência;
- Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa;
- Walter Souza Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil e ex-candidato a vice na chapa de Bolsonaro.
Eles são acusados dos crimes de:

- Liderança de organização criminosa armada;
- Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito;
- Golpe de Estado;
- Dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio da união;
- Deterioração de patrimônio tombado.
*Com informações do Estadão Conteúdo