O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que Trump tentou impor condições inaceitáveis em negociaçãoDave Chan/AFP/Agência O Dia

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, anunciou neste sábado (22) medidas de retaliação contra aço e laticínios dos Estados Unidos, depois de rejeitar o que chamou de "acordo comercial ruim" proposto por Washington. As medidas, que também afetarão a indústria de papel, equipamentos agrícolas e o setor de eletrônicos, entrarão em vigor em 8 de setembro.

O montante destas sobretaxas canadenses será "dólar por dólar" equivalente às tarifas americanas de 50% que entraram em vigor neste sábado e que afetam cerca de US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões) em importações canadenses, entre elas cimento e tacos de hóquei.

O chefe de Governo canadense afirmou, durante uma entrevista coletiva, que Trump tentou impor condições inaceitáveis.

"Nos últimos dias, os Estados Unidos propuseram novas condições economicamente inviáveis e injustas (...) Em resumo: eles pediram muito e ofereceram muito pouco", disse Carney. O líder canadense acrescentou que Washington tentou adicionar elementos no "último momento" para restringir "nossa capacidade de assinar novos acordos comerciais".

"Não podemos aceitar o que eles ofereceram e não daremos o que eles pediram", disse Carney, antes de acusar Trump de declarar uma "guerra" comercial. "Você está em guerra quando é atacado. Nós fomos atacados", acrescentou.
Carney também mencionou que, nas negociações, houve "ameaças contra a língua francesa" e à "cultura quebequense", a província francófona no leste do Canadá.

Trump respondeu ao Canadá neste domingo (23) com uma publicação em sua plataforma Truth Social: "O Canadá quer os benefícios de ser um Estado, sem ser um!!!". "Eles também cobraram, por muitos anos, tarifas enormes dos nossos grandes fazendeiros. Chega!!!", acrescentou.

Em declarações ao canal Fox News, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que o país adotará medidas de retaliação contra o Canadá e descartou novas negociações.

Ele também afirmou, em entrevista ao jornal The New York Times, que Washington ofereceu uma redução de tarifas sobre o aço, o alumínio e os automóveis, além da eliminação de uma taxa imposta recentemente à madeira canadense.

Segundo ele, as medidas teriam concedido ao Canadá "o tratamento mais preferencial entre todos os parceiros comerciais".

"Tratamento discriminatório"
Após semanas de negociações, Carney decidiu, nesta sexta-feira (22) à noite, encerrar as conversas, pouco antes da entrada em vigor das tarifas impostas por Washington. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia afirmado que "deveria ser possível chegar a um acordo com o Canadá", ao mencionar sua "boa relação" com Carney.

As tarifas vão "prejudicar a todos nós", lamentou Stuart Edwards, um canadense em Fort Erie, cidade fronteiriça perto das cataratas do Niágara. "É triste, mas resistiremos", disse à reportagem.

O Canadá vem tentando mitigar os efeitos das tarifas impostas por Trump a automóveis, aço e alumínio, que provocaram a perda de empregos e tensionaram uma relação comercial que antes era inabalável.

Os negociadores canadenses passaram a semana em Washington para concretizar um acordo que deveria solucionar diversos pontos de conflito.

A Casa Branca alegou um "tratamento discriminatório" do Canadá contra produtos americanos como bebidas alcoólicas, automóveis e laticínios quando definiu suas tarifas.

Inicialmente, estava previsto que as novas tarifas entrassem em vigor na quarta-feira, mas Trump ordenou um adiamento de última hora de três dias, alegando avanços importantes nas negociações.

"Não se pode confiar em Trump"
"Não se pode confiar no presidente Trump, simples assim", disse Doug Ford, governador da província canadense de Ontário, que recebeu as ações de Carney "com satisfação".

Washington e Ottawa ainda precisam concordar sobre modificações no acordo de livre comércio da América do Norte, que ambos integram ao lado do México e cuja renovação em sua forma atual foi rejeitada por Trump.

As relações bilaterais também foram afetadas pelas reiteradas ameaças de Trump de transformar o Canadá no 51º estado de seu país.

A Business Roundtable, que reúne mais de 200 dirigentes de grandes empresas americanas, pediu aos dois governos para "voltar à mesa de negociações".

Os empresários também pediram para "suprimir os direitos de aduana prejudiciais", segundo uma declaração por escrito do diretor-geral da instituição, Joshua Bolten.

Trump ficou incomodado com o discurso que Carney proferiu em janeiro no Fórum Econômico Mundial de Davos, quando ele disse que a ordem mundial estava passando por uma "ruptura".

O líder canadense afirmou diversas vezes que as relações com o país vizinho mudaram para sempre e que Ottawa deve reduzir sua dependência dos Estados Unidos, para onde vão atualmente 70% das exportações do país.

"Não temos ilusões. Desde o começo reconhecemos que os Estados Unidos mudaram", declarou Carney à imprensa.