Niterói: cidade é celeiro de novos artistas musicais brasileirosFelipe Castro
Felipe Ferreira, artista e filho do cantor e compositor Marcos Sabino, tem seu nome atrelado à cidade. "Tenho mais de dez anos de trabalho autoral, fiz parte da Bow Bow Cogumelo, banda que seguiu um caminho autoral e pisou em palcos legais como Circo Voador e Teatro Odisseia. Também, como baterista, toquei com Nayah e diversas outras bandas e músicos daqui. Agora estou focando na minha carreira solo, tive o privilégio de receber o Prêmio de Melhor Letra do Festival da Música da Radio Nacional. Niterói sempre foi um lugar que abraçou a gente e incentivou a produção, e estamos sempre lutando por um espaço maior. O sucesso duradouro precisa ser amparado por uma base, saindo do regional para ganhar o Brasil", explica ele. "A banda cover tem muito mais espaço que as autorais porque é imediatista e o público se desacostumou a buscar por novidades. Precisamos retomar esse movimento para reestabelecer o crescimento de novas carreiras", completa.
A iniciativa privada costuma buscar shows de bandas covers para apresentar em suas casas noturnas e bares apenas por facilitar o lucro final. São músicas conhecidas, a identificação é imediata. Projetos que revivem os imortais da música costumam reunir artistas que homenageiam, mas se vestem e cantam de forma similar a artistas já falecidos, como Tim Maia, Cazuza, Cassia Eller e Rita Lee. Certamente é bom para os fãs destes saudosos nomes e para o senso comum do público médio, mas o espaço para quem propõe o novo fica reduzido. Todo esse entendimento enseja uma política pública especial para o setor e, ainda mais, o segmento autoral.
"O saudoso LAM, Luiz Antônio Mello, que foi o criador da Fluminense FM, A Maldita, em uma pequena estrutura de rádio na década de 80 em Niterói, acabou lançando nomes que entraram para história da música brasileira, como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Celso Blues Boy. Alguns artistas mais novos da cidade, como o Enzo Yuki, não têm ideia de como isso foi impactante para os artistas e o setor na época. Estamos aqui dando essa entrevista na Cantareira, perto da casa do Paulinho Guitarra, que é um gênio que acompanhou todos esses acontecimentos em Niterói", explica Felipe Ferreira.
Em uma rápida pesquisa, nota-se que o único selo musical institucional do Brasil é o pioneiro Niterói Discos, uma iniciativa do ex-prefeito de Niterói Jorge Roberto Silveira e que perdura até os tempos de hoje na administração pública municipal, com 34 anos de existência. O atual prefeito, Rodrigo Neves, é um entusiasta da cultura local e segue incentivando e ampliando os espaços culturais de Niterói. Um selo musical institucional é uma marca utilizada por uma instituição (governo, cidade, região) para promover e divulgar a música local ou de determinado território, com investimentos que incentivam a cadeia produtiva e a formação de plateia, além de eternizar em gravações aquele momento inicial do artista. O selo Niterói Discos já lançou discos históricos que fomentaram para o Brasil artistas locais.
O cantor e compositor Yuri Corbal lançou recentemente uma homenagem ao Cazuza, regravando a obra "Exagerado", mas sem que a gravação tenha soado como cover. Trata-se de uma releitura, com arranjo e harmonia próprias. "Tenho mais de vinte anos de carreira e dois álbuns com a banda Kapitu e, antes desta releitura, já investindo na minha carreira solo, lancei quinze musicas de minha autoria. Gostaria de abrir mais shows grandes na minha cidade, apesar de já ter participado de projetos de fomento, como o Arte na Rua. Infelizmente vi muita gente parar e desistir, talentos desperdiçados que poderiam ser mais incentivados. Niterói já tem um histórico muito grande desse fomento, só precisamos olhar mais para oportunidades no segmento autoral", explica ele. "Ter um palco e uma nova cena musical autoral é fundamental, com uma curadoria maneira. Eu mesmo tenho um selo, Compact Studio, e lanço artistas de Niterói", conclui ele.
Enzo Yuki é intérprete e músico desde os 14 anos e hoje, com 24, é um dos mais novos e promissores talentos da cidade. "Componho minhas letras, melodias e harmonias. Toco guitarra, baixo, teclado, e sempre produzo em parceria com Mateus e Yuri, do selo Compact Studio. Precisamos de um olhar mais cuidadoso para os artistas em ascensão, que já estão em playlist editoriais das plataformas. As pessoas vão ouvir as músicas destes artistas para sempre e vão lembrar da cidade, como hoje eu lembro muito de ter ido ao shows de Besouros Verdez, Kapitu e Facção Caipira, por exemplo. A forma como eles cantavam a realidade deles, nós sendo da mesma cidade, me impactava muito, e gerou o pertencimento, a inclusão e o orgulho de fazer parte daqui. Mudou muito a minha vida, me tornei musico. É diferente de acompanhar um artista de outro lugar", contou Enzo.
Santino e Bruna Souza, da banda Almar, nascidos e criados em Niterói, são nome em ascensão da nova MPB. "Começamos o trabalho em 2019 e somos totalmente independentes. Hoje já temos mais de dez musicais virais no Brasil e no exterior, estamos no Top 50 de Portugal, nossa música toca em TV, atinge todas as camadas sociais do país e estamos muito felizes por Niterói ter uma gama de artistas incríveis que estão em destaque no cenário nacional. Precisamos de cada vez mais espaço na cidade para fomentar nosso trabalho. Homenageamos Belchior no Festival Marazul, por exemplo, e foi incrível. Uma cena local é formada pela união dos artistas que aqui trabalham. Daqui a 40 anos somos nós que vamos pavimentar o caminho para artistas novos passarem", explica Santino. "Incentivar a música daqui também é incentivar o turismo, já que as pessoas podem vir aqui para ver estes shows. Um selo garante que o artista, que tem potencial, não desista ou seja enganado no meio do caminho. Levamos o nome de Niterói para o Brasil e o mundo. Temos muito amor por essa cidade e Niterói é um berço de artistas incríveis", diz Bruna Souza. E ela está muito certa. São daqui MPB4, Sérgio Mendes, Ronnie Von, Zélia Duncan, Dalto, Biafra, Marcos Sabino, Arthur Maia, Paulinho Guitarra, Renato e Paulinho Roquette, Melim, MC Carol e tantos outros.
Para Leonardo Rivera, diretor do selo musical Astronauta Discos -- que é de Niterói e está em atividade desde 1999 -- a chance de se encontrar novos nomes da música está concentrada, cada vez mais, em selos independentes ou lançamentos de artistas sem selo ou gravadora. Isso ocorre porque a cadeia produtiva mudou muito nas últimas décadas. "Meu selo profissionaliza artistas independentes que ainda não têm noções sobre como entrar de maneira correta nesta indústria competitiva. Antes nós tínhamos que gravar, fabricar no mínimo mil CDs em Manaus, receber aquele volume de caixas, estocar, distribuir em lojas, fazer consignação ou venda, recolher as devoluções, etc. Era muito mais difícil. Hoje em dia para se ter um selo musical basta ser microempreendedor individual, ter um bom computador com placas e aplicativos de gravação, uma distribuidora e lançar digitalmente, além de outros pequenos detalhes. Sem estoque, sem ocupar espaço, sem gastos exorbitantes. Para o novo artista a dica é: monte o seu selo musical. Se você é dono de estúdio, de casa de show ou se tornou produtor, deve montar e dirigir seu próprio selo", diz o diretor, depois de ter trabalhado muitos anos em parceria com multinacionais da indústria fonográfica.
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