Júlio FurtadoDivulgação

Os discursos sobre um provável “apagão docente” na próxima década escondem uma crise ainda mais profunda: a desilusão dos professores. Em meio a diretrizes rígidas e uma burocracia crescente, muitos educadores se veem exauridos, questionando o propósito de uma carreira dedicada a moldar futuros. Essa realidade, marcada pela sensação de desvalorização e perda de autonomia, suscita uma reflexão urgente sobre como preservar a paixão pelo ensino diante de um sistema que, paradoxalmente, parece afastar o professor de sua essência.
Educadores com décadas de experiência, frequentemente expressam um sentimento de inutilidade frente à padronização e controle impostos em algumas Redes de Ensino. A docência, que deveria ser um espaço de criatividade, autonomia e conexão, é, por vezes, reduzida a um conjunto de ações repetidas em que a qualidade é avaliada mais pela quantidade de relatórios preenchidos do que pelo impacto genuíno produzido na vida dos alunos. A implementação de planos de aula genéricos e a pressão por métricas burocráticas consomem um tempo precioso que poderia ser investido no aprofundamento do conteúdo, na atenção individualizada aos estudantes e no desenvolvimento de abordagens pedagógicas mais engajadoras. O resultado é um cansaço avassalador e a desmotivação de profissionais que, outrora, vibravam com cada descoberta em sala.
Contudo, mesmo em meio a esse cenário desafiador, emergem narrativas de resiliência e estratégias de resistência. Professores que conseguem manter o "brilho" na docência o fazem agarrando-se a porque escolheram essa profissão: o momento em que a "lâmpada se acende" nos olhos de um aluno, a gratidão de um ex-estudante cujas vidas foram transformadas por uma palavra ou um gesto, ou a consciência de ser um porto seguro para crianças que enfrentam realidades adversas. Esses são alguns dos combustíveis que alimentam a paixão em um contexto tão “desapaixonante”.
Em suma, a realidade da educação contemporânea exige dos professores não apenas conhecimento técnico e pedagógico, mas uma inabalável determinação que reside naquilo que é intransferível e imune a qualquer decreto: a conexão humana, a paixão por ensinar e a capacidade de ver e desenvolver o potencial em cada ser humano. É a batalha pela alma da docência, travada diariamente em cada sala de aula que reafirma o propósito inabalável dessa profissão.

Júlio Furtado é orientador educacional e escritor