O tempo da satisfação é o tempo da maturidade. Da compreensão do belo do estacionar as esperas. Do deixar de buscar sem precisão do que buscar. Do não incentivar a sede, quando a sede pode ceder sem o incentivar.
O tempo da paixão é o tempo em que os humores ganham descontrole. É o tempo que há, quando há. O restante do tempo é espera. É o tempo de que me lembro conseguiram me desaparecer. Não estava, quando estava em qualquer outro lugar que não o lugar da paixão. Fingia outros motivos para as lágrimas, para a dispersão. Dizia dizeres sem chão. Guardava nos guardados do sentir a dor. Paixão é dor. Se não, é satisfação.
A compreensão do tempo da satisfação, do amor leve, do acordar sem os arroubos das novidades, do fazer o feito bem feito, porém sem grandes comemorações, é de quem já aprendeu a felicidade no ordinário. No tempo da compreensão, o desejo perde asas. Somos seres da terra. Em algum momento, é preciso abandonar o desejo insano do voo ou da subida sem razão. A subida sem razão nos promete uma outra paisagem depois de tudo. Depois do esforço de imaginar perfeições. De dizer ao que há que não basta. De não se bastar.
O que há depois da subida sem razão? As boas paisagens se oferecem também nas planícies. E há voos do chão. No olhar para o alto e agradecer.
Há desejos tantos nas crianças. Há medos de desaparecimentos em simples brincadeiras. Se se esconde um brinquedo, o choro e a sensação de que o brinquedo desapareceu. Crianças crescem. E crescem os conhecimentos de que os brinquedos continuam a existir, mesmo quando não os vemos. Que podem brincar com os outros e que podemos prosseguir sem eles. E que há outros brinquedos possíveis. E que nem tudo é brinquedo. Há o bonito da criança permanecer em nós, na alegria, na expansão de amor, quando um novo encontro nos encontra, na crença de que há limpeza no mundo. E há o desnecessário da criança. Da que quer para si. Da que ainda não aprendeu a compartilhar ou a deixar ir.
O tempo do desejo é o tempo que vem antes da compreensão. Da compreensão de que, de desejo em desejo, ficamos sem nada. O nada é ausência. Algumas ausências nos fazem bem. Outras nos desanimam. O tempo do desejo parece nos animar. Parece nos dar alma. Parece, apenas. A alma sobrevive ao desejo. A alma é maior. É o aprender da satisfação, do contentamento.
O tempo do depois do desejo, do desejo do tempo de criança ou do desejo de criança de que algo seja nosso, mesmo depois de adulto, pode ser um tempo de contentamento, se aprendermos com o tempo. Ou pode ser um tempo de buscar outro desejo como se o existir fosse a ausência de contentamentos.
Olhar para os desejos e pensar sobre eles é uma escola. Olhar para os desejos e lembrar os desejos que já se foram nos ajudam a dizer, para os que ainda estão, que possam ir. Que possam ir para que possamos ir mais leves para o tempo do contentamento. O tempo em que abrimos o dia agradecendo.
Que graça sabermos que não temos tudo, mas que o tudo que temos nos basta.
Que graça aprendermos com o tempo a não nos desgraçarmos nas buscas.
Não está no outro o tempo do contentamento. Está no sentimento de estarmos. E mais nada.

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