Karine Correa trabalha no setor de conservação do Arquivo Geral da CidadeCleber Mendes / Agência O Dia

Rio - No coração do Centro do Rio, reside uma instituição pouco conhecida dos cariocas: o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). Localizado em uma rua próxima à Avenida Presidente Vargas, uma das mais extensas e movimentadas do Centro, o AGCRJ tem encontrado maneiras de aparecer para os cidadãos e tornar conhecidos a sua função e acervo. São iniciativas dos setores Arquivista, Cultural e de Ensino e Pesquisa que tornaram possível este movimento de desempoeirar o material e torná-lo familiar ao grande público promovendo, por exemplo, cursos e eventos gratuitos. 
A presidente do Arquivo Geral da Cidade, Rosa Maria Araújo, historiadora de 74 anos, destacou a importância das ações da instituição: "O Arquivo deve ser uma instituição moderna e atraente, juntando a gestão de documentos à memória do Rio. Por essas razões, criamos o centro de ensino e pesquisa onde vamos oferecer uma pós-graduação. E a cereja do bolo tem sido o departamento cultural, que produz os Depoimentos e os Saraus Cariocas. Tudo gratuito. É o que a população merecia", disse Rosa.
As duas principais iniciativas do departamento cultural foram pensadas para se conectar com o público e trabalhar o simbólico da cidade. A primeira, a série Depoimentos Cariocas, entrevista personalidades criativas nascidas ou que viveram na cidade para conversar sobre o Rio e a ligação delas com o município, produzindo ainda mais conhecimento da cidade, mas desta vez por olhares diferentes, alguns apaixonados, outros desgostosos. O primeiro convidado foi o escritor e jornalista Zuenir Ventura e, a última, a também jornalista Hildegard Angel, cuja conversa abrangeu assuntos diferentes dos abordados até então, como alta sociedade, comportamento, história da imprensa e ditadura militar. Já com a sambista Tia Surica, por exemplo, o papo foi sobre o Rio do subúrbio, da Portela. O próximo entrevistado será o cantor e compositor Evandro Mesquita.
Pedro Paulo Malta, pesquisador da música brasileira, cantor e coordenador de Produção Cultura da AGCRJ, afirmou que o objetivo do projeto vem sendo atingido: "Estamos conseguindo construir um painel interessante, diverso de memória e reflexos sobre a cidade: como era o Rio da minha infância, como é o de hoje, como será daqui a uns anos", contou Pedro Paulo, entusiasmado.
Os papos mensais são disponibilizados na íntegra no canal do Youtube do Arquivo, no link https://www.youtube.com/user/arquivodacidade. Lá, o cidadão encontra uma lista com as gravações de todas as conversas com nomes como Ruy Castro, Saturnino Braga, Cacá Diegues e Ana Maria Machado.
A segunda ação cultural elaborada pelo Arquivo são os 'Saraus Cariocas' que tem o mesmo propósito dos depoimentos: usar o Arquivo como lugar onde não só estão guardados e preservados os documentos da cidade, mas também como um lugar para falar com o povo sobre a cultura e a história do Rio.
O Saraus Cariocas é uma série de pequenos shows no auditório da AGCRJ, no horário do almoço, às 12h30, com duração de 60 a 90 minutos. Cada apresentação retrata um gênero musical surgido no Rio e conta com um músico convidado. É como uma conversa musicada, ilustrada por um número musical. Uma maneira de o Arquivo registrar a história dos estilos criados no Rio de Janeiro. Os músicos Cláudio Jorge e Augusto Martins apresentaram samba de terreiro, em 2022. Samba-enredo foi apresentado por Teresa Cristina, e Soraya Ravene e Luís Filipe de Lima deram conta do sarau com marchinhas de Carnaval. Esses são apenas alguns exemplos. Todas as sessões estão sendo gravadas em vídeo e irão para o YouTube do Arquivo Geral, em meados deste ano.
"O Saraus Cariocas tem uma boa resposta do público, não só pelo povo que se interessa por música, como também vizinhos, pessoas que trabalham perto e sabem que acontecem. A ideia é movimentar o prédio, mostrar que não apenas cumpre a função de guardar documentos imprescindíveis para o Rio, como está de portas abertas para quem quer visitar. Queremos trabalhar o simbólico da cidade e falar da nossa valiosa herança cultural", completou Pedro Paulo.
Ainda segundo Pedro, a gestão do AGCRJ tem percebido que o interesse pelo Arquivo cresceu através do engajamento do público nas redes sociais após a implantação dos projetos. Quando eles começaram, em 2021, o Instagram tinha cerca de cem seguidores. Hoje, conta com mais de 3 mil. No Youtube, as subscrições também têm aumentado, de acordo com Pedro Paulo.
"O arquivo existe há muitos séculos, é uma instituição antiga e importante para a cidade. Mas há muito tempo é acessado por pesquisadores ou nichos específicos de pessoas que precisam de documentos, alvarás, de imóveis, acessada pela população apenas para essas finalidades pontuais. Com a criação do departamento cultural, a proposta é convidar o carioca a se aproximar, entender que esse acervo pertence a eles e está à mão para quem quer entender e contar a história do Rio de Janeiro e do Brasil. A história está ali", comentou Malta.
Todos os documentos da administração municipal são mantidos no Arquivo Geral. O acervo remonta à época da fundação da cidade, em 1565. O arquivo foi instituído em 1567. No nascimento da cidade, foi criado um documento, então isso já era um documento de arquivo. Durante os séculos seguintes, o arquivo geral acumulou os documentos oficiais que eram depositados no arquivo da Câmara Municipal e, já no período republicano, os documentos produzidos pela prefeitura. Em 5 de agosto de 1893, o decreto 44 foi sancionado determinando a data oficial de criação do AGCRJ. Neste ano, a instituição completa 130 anos.
No local, há preciosidades como a ata do Dia do Fico, de 1822, e algumas aquarelas e xilogravuras de Debret, pinceladas pelo pintor francês quando morou no Rio de Janeiro, então cidade colonial, entre 1816 e 1831.
Atualmente, coleções de documentos particulares de prefeitos, administradores, professores, engenheiros e personalidades da vida carioca, e arquivos e mídias de interesse público fazem parte do acervo. Assim, um amplo leque de documentos, em vários formatos, que não necessariamente versam sobre a cidade do Rio de Janeiro, está pronto para ser descoberto não só por pesquisadores, mas também pelos cidadãos, no prédio do Arquivo ou no 'Arquivo Virtual', no link http://wpro.rio.rj.gov.br/arquivovirtual/web/
Isabela Correia, de 37 anos, gerente de documentação escrita do AGCRJ, esclarece sobre o papel da instituição na sociedade: "A função do arquivo é guardar, tratar e organizar os documentos, dando acesso às informações mantidas sob a sua guarda. O acervo do AGCRJ, em sua maioria, é proveniente do executivo municipal", explicou Isabela.
O documento textual mais antigo preservado pelo Arquivo data de 1575, uma referência à Capitania do Grão-Pará (como o atual estado do Pará era conhecido nos períodos colonial e imperial), com citações a jesuítas e indígenas. Trata-se de um códice, ou seja, uma compilação de manuscritos, e cada um é assinado por um religioso.
A coleção do compositor Haroldo Barbosa (1915-1979) é outra preciosidade que habita em caixas guardadas no Arquivo Geral. Roteiros de filmes, números de publicações da imprensa alternativa da época da Ditadura Militar, jornais LGBTQIA+, do movimento negro, do movimento sindical e da Igreja Católica exemplificam mais a abundância do patrimônio.
A consulta física dos documentos é franqueada aos pesquisadores e interessados em geral mediante agendamento prévio no site do Arquivo. O agendamento prévio é necessário, pois a documentação fica em depósito, que são lugares de guarda. Então, os documentos precisam ser separados e serão expostos com cuidado. O manuseio não é permitido, a preservação da documentação exige esta restrição. Além disso, alguns documentos precisam passar pelo setor de conservação. Por isso, a equipe do Arquivo precisa saber se o registro solicitado está apto para ser consultado. Os pesquisadores têm acesso aos documentos originais, pois precisam de detalhes do papel, enquanto o público em geral tem acesso ao representante do documento original, como se fosse uma reprodução.
Centro de Ensino e Pesquisa
Também com o objetivo de se tornar mais conhecido do grande público, o Arquivo criou o Centro de Ensino e Pesquisa, um núcleo para conversar e debater sobre o Rio de Janeiro, com publicações produzidas para este fim.
Anualmente, o setor publica duas revistas acadêmicas, com artigos sobre qualquer tema relacionado ao Rio e, com alguma frequência, tem pesquisa que mobiliza todo o acervo do Arquivo, de acordo com Rafael Martins, de 29 anos, historiador do departamento. Estas revistas estão disponíveis para download e leitura no site. Todo ano um acadêmico de peso organiza o tema. O próximo será sobre o Cais do Valongo, sítio arqueológico localizado na Zona Portuária. Ele elenca pessoas interessadas no assunto para escrever artigos. Além disso, qualquer outra pessoa interessada sobre algum tema do Rio pode enviar o artigo que o AGCRJ o incluí como 'artigo livre', que não entra na parte temática.
Outro produto anual para difundir o acervo é o Concurso de Monografia, aberto para todo o Brasil. Com edital no site, qualquer pessoa que tenha publicado uma dissertação, uma pesquisa que tenha o Rio de Janeiro como tema, com foco no passado da cidade, na linha do resgate histórico, ou com temas do tempo presente, promovendo análises e discussões sobre o Rio contemporâneo, pode concorrer ao prêmio. As informações para inscrições constam em edital disponível no site, na ocasião do concurso. O vencedor ganha a publicação de sua tese, também disponível na página da internet do Arquivo.
Além das publicações, diversos cursos e palestras também são ofertados ao público. O tema parte de algum projeto de pesquisa anual. O ensino é voltado para assuntos sobre o Rio, desde a fundação até o início do século XX, e aberto para toda a comunidade. Uma pós-graduação e um curso sobre as reformas do prefeito Henrique Dodsworth, que governou entre 1937 e 1945, durante o Estado Novo, também são previstos para 2023.